A poesia de Rimbaud


Mais de um século depois de sua morte e não somos capazes de determinar o alcance da figura e da obra de Arthur Rimbaud. Quase sempre nos contentamos em assinalar a extraordinária velocidade como sucedeu sua vida e a prodigiosa capacidade de sua escrita. Dos grandes poetas da literatura francesa moderna, seguramente é quem tem exercido uma influência mais decisiva. É a uma só vez ponto de chegada e de partida, exemplo do movimento incessante do ato mesmo da criação: uma obra tecida sobre a mesma tela da existência, fruto de uma continuidade em que a escrita se antecipa à vida proclamando seu futuro. O inventário existencial e espiritual que aparece em seus textos poéticos, com sua carga literária e vital, vem reafirmar esta premissa com seu testemunho confiável: “Pautei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos me orgulhei de inventar um verbo poético acessível, cedo ou tarde, a todos os sentidos”.

Uma centena de páginas bastaram para estabelecer quase todas as possibilidades da poesia: depois delas não há quase nada de novo para dizer. Esta é sua lição: demonstrar de uma vez por todas que a poesia é o que é e nunca é o que é, que é uma língua sempre em jogo: um jogo de sentidos, de ajustes e relações, um jogo de figurações e identidades fruto de uma generosa distribuição de percepções e de sons novos; o produto de uma palavra repleta de fulgores e curtos-circuitos, de retratações e contradições; um desperdício de incontáveis e fabulosas energias.

Rimbaud consente que seja possível ler sua obra “literalmente e em todos os sentidos”. Como manifesto o poema “Saldo”, nesta inaudita abundância de achados que a escrita deixa escapar de forma tão feroz, que acaba por liquidar qualquer coisa: “Vende-se Corpos, vozes, a inquestionável opulência imensa, que nunca será vendida. Os vendedores têm muitos estoques para liquidar! Os viajantes não precisam ter pressa para entregar as encomendas!”  Aqui estão, de uma vez, a maravilha da escrita e o ardor de seu desastre.

Assim é como a poesia permanece poesia e não se faz mera literatura, assumindo a possibilidade de seu desastre, fazendo de sua capacidade de sucumbir parte de sua natureza. Como acertadamente sublinha Miguel Casado: “Eu é outro, é vários, qualquer, pois; sua voz não é a do sujeito, a de uma subjetividade, mas uma voz, da voz de ninguém. Poesia objetiva”. Essa é sua vocação, ultrapassar a si próprio e seus excessos: ser poema.

Leia assim o poema “Infância”: a terceira seção, que desenvolve uma sucessão de versos que começam por “Tem” e que não mais que cenários extraordinários e realidades imaginárias, e segue uma quarta onde se multiplicam os “Eu sou”, as possibilidades de autodefinição. Há o que é e o que não é, e, portanto, tão somente outro. A identidade é tão inumerável como a realidade que o rodeia e que ele habita. Sou tudo o que possa ser, se as palavras querem que eu seja: “Eu sou o mestre do silêncio”.

Todo leitor responsável – depois da sucessão de biógrafos, editores, tradutores, críticos que durante anos têm difundido sua vida, estudado sua obra e estabelecido seus mitos – se pergunta se é possível e necessária uma nova edição e tradução da obra de um poeta que deixou de escrever com apenas 20 anos.  A resposta é que não é somente possível, mas desejável.


TRÊS POEMAS DE RIMBAUD TRADUZIDOS POR IVO BARROSO

Canção da Torre Mais Alta

Mocidade presa
A tudo oprimida
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! Que o tempo venha

Em que a alma se empenha.
Eu me disse: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
De algum bem que seja.
A ti só aspiro
Augusto retiro.

Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência,
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.

Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.


No Cabaré-Verde 

às cinco horas da tarde

Oito dias a pé, as botinas rasgadas
Nas pedras do caminho: em Charleroi arrio.
– No Cabaré-Verde: pedi umas torradas
Na manteiga e presunto, embora meio frio.

Reconfortado, estendo as pernas sob a mesa
Verde e me ponho a olhar os ingênuos motivos
De uma tapeçaria. – E, adorável surpresa,
Quando a moça de peito enorme e de olhos vivos

– Essa, não há de ser um beijo que a amedronte! 
Sorridente me trás as torradas e um monte
De presunto bem morno, em prato colorido;

Um presunto rosado e branco, a que perfuma
Um dente de alho, e um chope enorme, cuja espuma
Um raio vem doirar do sol amortecido.

Outubro de 1870


Minha Boêmia (Fantasia)

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa! Eu fui teu súdito leal;
Puxa vida! A sonhar amores destemidos!

O meu único par de calças tinha furos.
– Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior.
– Os meus astros nos céus rangem frêmitos puros.

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti tal vinho
O orvalho a rorejar-me as fronte em comoção;

Onde, rimando em meio à imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!


* O texto é uma tradução livre para "El vértigo fijado", de Antonio Ortega, El País. Os poemas são de Poesia completa (Topbooks, 2004).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os segredos da Senhora Wilde

Sophia de Mello Breyner Andresen, “um tumulto de clarão e sombra”

Um tesouro chamado Yasunari Kawabata

Machos nus: Walt Whitman, José Martí e Thomas Eakins

Manual de instruções para ler Lolita

Hilda Hilst e o inominável das palavras

Boletim Letras 360º #272

Andorinha, andorinha, de Manuel Bandeira

O fracasso de escrever

Kyra, Kyralina, de Panaït Istrati