Ai, que saudades da palmatória!

Por Pedro Fernandes


O caso se deu esta semana. Uma professora da rede estadual do Rio de Janeiro foi condenada a pagar uma multa de R$5 mil por ter dado um puxão de orelha num aluno.  O fato me chama atenção por dois motivos: a bancarrota de uma pedagogia do cetim fez do aluno uma figura intocável. Fato humano – quando não é oito é oitenta. Houve o tempo em que levar surra de palmatória era útil para a formação educacional. Era espécie de corretivo necessário à docilização dos corpos. Depois desse motivo primeiro, é fato que a pedagogia do cetim levou à desfiguração da imagem do professor. Professor é um-qualquer. Não tem autonomia. E nisso os alunos deitam e rolam.

Há uma coisa nos dois motivos que me faz perguntar qual tipo de educação, afinal, é a correta. Não há, na história da pedagogia, ninguém que tenha vindo padecer – pelo menos que eu saiba – de traumas por uma palmatória. Ouço muitas vezes os mais velhos recordarem do instrumento mesmo com certa nostalgia. E o fato é que eles, que aprenderam sob custódia dos “bolos”, foram os que tiveram o melhor da educação. Depois que transformaram a imagem do aluno em figura de cera tem sujeito dando na cara de professor e quanto a isso ninguém nunca aplicou uma multa aos pais pelo desastre de comportamento do filho.

Frequentei escola com professor já sem a companhia da palmatória, mas eu sempre tive um medo – que mais tarde fui entender que não era medo e sim respeito – pela sua figura. E diante de qualquer professor sempre me portei como tal, mesmo agora depois de adulto, como aluno de um curso superior. Meus pais sempre disseram que, na ausência deles, na escola, o professor fazia o papel de meus pais e a ele devia respeitá-lo como se deve respeitar aos pais. Duvido que agora se faça isso e se fizer as relações entre filhos e pais estão um bocado baldeadas.

Mas, diante o caso do Rio de Janeiro e de tantos outros reportados comumente pela mídia, eu pergunto, quem tem esse zelo por aqueles que, por alguma razão, se diferenciam um pouco de nós. A recorrência de episódios como o que aqui menciono me faz dizer que nesses tempos a pedagogia da palmatória faz falta. E como faz! Não se trata de defender uma violação do corpo. Nem sua repressão. Trata-se, sim, de lembrar a todos que não se é uma sociedade sem a hierarquia. Que, se não respeitada suas hierarquias, futuramente esses bebês superprotegidos são levados a acreditarem que são eles os donos do mundo e capazes de passar por cima de tudo e todos. É uma questão de dizer os limites. O mundo não só tem como valores preciosos o que temos como valores. 

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