Dois volumes com a poesia de Florbela Espanca



Referências sobre a vida de Florbela Espanca, acusam 1903, quando tinha só sete anos, a escrita de seu primeiro poema, "A vida e a morte". Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos. O primeiro livro é organizado em 1916, quando Florbela reúne uma seleção de sua produção poética do ano anterior e o chama Trocando olhares; na coletânea, 88 poemas e três contos.

O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de mágoas e o Livro de Soror Saudade. O primeiro sai em 1919 e apesar da poeta não ser tão famosa, a pequena tiragem esgota muito rapidamente; quatro anos depois, o segundo que havia sido planejado para se chamar Livro do nosso amor ou claustro de quimeras.

Em 1927, Florbela organiza os poemas que comporão o Charneca em flor; o dado é tratado na correspondência da escritora com D. Nuno e além do título, ela cita a preparação de um livro de contos, provavelmente O dominó preto, publicado postumamente; aliás, os dois únicos títulos que vieram a lume quando estava viva foram os dois primeiros. Daqui para adiante sua obra foi reunida em parte pelo marido e em parte por especialistas.

No que encerra as notas aqui publicadas (sobre a poesia de Florbela) resta dizer que Charneca em flor sai em 1931, no mesmo ano em que se publicam  Juvenília; três anos depois é organizada uma primeira antologia que reuniu os poemas dos três primeiros livros mais o inédito Reliquiae.

A L&PM Editores publica dois pequenos volumes de bolso reunindo parte dessa obra poética de Florbela; assim, são livrinhos para você levar consigo. No primeiro, reuniu-se poemas de Trocando olhares (uma coletânea póstuma apresentada pela especialista na obra da poeta Maria Lúcia Dal Farra em 1994), O livro d'Ele (uma compilação de poemas diversos que pertenceu ao caderno de Trocando olhares os quais ela tinha predileção por vê-los reunidos sob esse título) e Livro de mágoas.

No segundo volume estão poemas do Livro de Soror Saudade, Charneca em flor e Reliquiae. Compõe assim, duas pequenas coletâneas que servem ao leitor de introdução à obra da poeta portuguesa sempre colocada entre a louvação e repulsa da crítica: louvação por considerarem uma mulher à frente de seu tempo, capaz de, na situação de opressão em que viveu, trazer a superfície o exercício de sua escrita; repulsa porque uma boa parte da crítica tem pela sua obra o estatuto de ser uma obra menor e não-representativa da legítima poesia portuguesa sempre lembrada e marcada por nomes como Luís de Camões e Fernando Pessoa, sem dúvida, dois satélites nessa conjuntura.


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