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Mostrando postagens de Maio, 2008

Paulina Chiziane

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Paulina Chiziane. Foto: Douglas Freitas. A chegada da obra de Paulina Chiziane por uma importante casa editorial no Brasil reafirma o destaque da sua obra fora de seu país e, ao mesmo tempo, nos oferece uma possibilidade de ampliar o reconhecimento sobre as literaturas produzidas em África, este vasto território de rica variedade cultural sempre silenciado ou colocado à margem pelas expressões ocidentais.   Sabe-se que a escritora pertence à terceira linha na recente historiografia literária de seu país, Moçambique. Isso significa que a memória cultural, a formação da identidade e os horrores do passado colonial estão recorrentes na sua literatura. Esse envolvimento ressalta a proximidade que a literatura sempre mantém com o social, naquilo que em “Literatura e Sociedade” Antonio Candido designa como dialética da criação. Não se pressupõe, é claro, numa representação no sentido de reflexo ou transposição imediata da história, por exemplo, mas esta enquanto contexto participa ativamente

Os sete samurais, de Akira Kurosawa

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Acusado de dar as costas para sua cultura, nesta obra o cineasta mescla uma dinâmica de ação com uma tradição tipicamente japonesa Na juventude, Akira Kurosawa desejava ser pintor. Incentivado pelo irmão mais velho, cinéfilo de carteirinha, e apaixonado pela produção americana (sobretudo a de seu ídolo John Ford), enveredou pelos caminhos da Sétima Arte para não sair mais. O passado artístico, porém, nunca deixou de influenciar os métodos de trabalho do diretor: todos os seus longas foram concebidos por meio de um meticuloso trabalho de composição. Kurosawa fazia storyboards enormes em forma de quadros, levava meses filmando e utilizava no mínimo três câmeras para cada cena. Tanto esforço deu resultado: tornou-se o mais respeitado cineasta japonês. Deixou marcas em obras tão distintas quanto os westerns de Sergio Leone, a saga de Guerra nas estrelas (1982-86) e os pontos de vista múltiplos de Quentin Tarantino (saídos de Rashomon , de 1950). Só sofreu a resistência em seu país

Ai, saudades da palmatória!

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Por Pedro Fernandes “Ó palmatória, terror dos meus dias, tu que foste o compelle intrare  com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão!” – Memórias póstumas de Brás Cubas , de Machado de Assis. O caso se deu nesta semana. Uma professora da rede estadual do Rio de Janeiro foi condenada a pagar uma multa de R$ 5 mil por um puxão de orelha num aluno. O fato me chama atenção por dois motivos: a bancarrota de uma pedagogia do cetim fez do aluno uma figura intocável. Fato humano – quando não é oito é oitenta. Houve o tempo em que apanhar de palmatória era útil para a formação educacional. Era um corretivo necessário à docilização dos corpos. Depois desse motivo primeiro, é fato que a pedagogia do c

Raduan Nassar

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Raduan Nassar nasceu em Pindorama, cidade do interior do Estado de São Paulo. Seus pais, João Nassar e Chafika Cassis, haviam se casado em 1919 na aldeia de Ibel-Saki, no sul do Líbano e em 1920 imigraram para o Brasil; a família junta-se a parentes que já estavam no país e começam a trabalhar no ramo do comércio, no interior do Rio de Janeiro. Um ano depois, mudam-se para a cidade de Itajobi, interior de São Paulo e mais tarde, em 1923, para Pindorama. Na cidade onde nasceu, o pai do escritor abriu uma venda que logo seria transformada numa loja de tecidos, a   C asa Nassar. Em 1943, Raduan inicia seus estudos no Grupo Escolar de Pindorama. Expansivo e de ótima memória, o aluno é freqüentemente chamado para recitar poemas nas datas comemorativas, mesmo com sua dificuldade em pronunciar corretamente o r  fraco. Segundo ele, neste ano tem "uma das melhores alegrias da infância" de que se lembra, ao ganhar um casal de galinhas-de-angola do pai. Como é de  costume n

Fernando Pessoa e a Coca-Cola

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Fernando Pessoa, Moitinho de Almeida e um casal de estrangeiros apreciadores da ideia do refrigerante estadunidense. Foto: Jornal de Letras Fernando Pessoa foi um homem de ideias – ninguém duvidará disso. Mas, realizá-las, bem, realizá-las é outra história. Ganhou a vida mais como tradutor de inglês para o português, numa época em que Portugal mantinha uma profunda dependência com a Inglaterra. E como sujeito tido para ideias poderia, se tivesse jeito com elas se tornado um homem de negócios? Possivelmente. Sabe-se que foi um dos inventores da famosa revista responsável pela consolidação do modernismo em terras portuguesas, a Orpheu ; esta talvez um dos seus primeiros empreendimentos, mas que só durou três edições, uma delas não publicada. Antes, havia criada a editora e tipografia Íbis, instalada em 1907 no Bairro da Glória e mal funcionou; no mesmo ramo, criou em 1921, a Editora Olisipo que só publicou três antologias de poemas em língua inglesa, A invenção do dia cla

Marguerite Yourcenar

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Durante toda sua vida, Marguerite Yourcenar se esquivou de qualquer tipo de confidência, inclusive quando escreveu sua autobiografia,  O labirinto do mundo . O primeiro volume,  Recordações de família  (1974) está dedicado à figura de sua mãe e à sua família, e o segundo,  Arquivos do norte  (1977) à família de seu pai, um homem aventureiro. Segundo muitos críticos, a ideologia, as paixões e a concepção de mundo da escritora devem ser buscadas nos seus livros e não nos acontecimentos de sua biografia, que ela simplesmente cuidou de manter em silêncio por considerar, provavelmente, que não tinham o menor interesse para os seus leitores. Em meio século de literatura, Marguerite Yourcenar compôs uma obra breve e de alta qualidade: catorze livros em prosa, dois de poemas, seis peças de teatro e seis volumes de traduções. Nunca deu nenhum por terminado e toda sua obra foi reescrita uma e outra vez. A escritora deixava que as edições esgotassem e impedia uma nova publicação

2001 - uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick

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Ficção científica revolucionária discute a aventura do homem para compreender o mistério da criação A odisséia no espaço narrado em 1968 pelo genial Stanley Kubrick pode parecer tediosa quando vista por olhos acostumados ao ritmo incessante das aventuras intergaláticas de Guerra nas estrelas (1977). Mas, desde seu ponto de partida, trata-se de uma obra surpreendente: o diretor filma um grupo de hominídeos da pré-história disputando domínios à base de paus e pedras. Por perto, um enigmático monólito, que reaparecerá em outra etapa do filme como seu símbolo mais marcante. Até que um pedaço de ferramenta arremessado para o alto funde-se com a imagem de uma espaçonave cruzando o cosmos. Assim, neste famoso plano que esboça um salto no tempo de milênios, está dado o tom filosófico que só cresce ao longo da narrativa. Sabe-se que os astronautas terão de enfrentar um computador que assumiu o controle da nave, HAL 9000. Construído para gerenciar a missão a Júpiter,

John Steinbeck no cinema

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cena de As vinhas da ira , um dos filmes a partir de uma obra de John Steinbeck mais conhecidos. O cinema foi generoso como Steinbeck e ele com o cinema. Foram feitas, desde que alcançou a notoriedade ainda jovem (publicou em plena efervescência liberal rooseveltiana As vinhas da ira em 1937 e havia nascido em 1902, tinha, portanto, 35 anos) 17 filmes sobre obras suas e não seria estranho ver outras nos próximos anos. O sucesso cedo levou também a ser quisto para a escrita de alguns roteiros – tarefa que levou ser indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original pelo filme Um barco e nove destinos , de Alfred Hitchcock. Da extensa leva de títulos há quatro filmes mais famosos cuja narrativa é produto de uma adaptação da obra de Steinbeck. Além de As vinhas da ira , adaptada por John Ford em 1940, houve Boêmios errantes , dirigido pela solvência e sutileza com que Victor Fleming representava as ambiguidades sexuais nas relações entre amigos – Spencer Tracy e John Garfield exec

Por que ler os clássicos: os livros de Italo Calvino (Parte 1)

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Se uma parte dos escritores preferem não avançar sobre o tema de quais são os seus livros preferidos a título de não causar mal-entendidos entre os da sua comunidade, uma pequena quantidade prefere citar os clássicos, outra esnobá-los, outra só falar sobre o assunto quando interpelado por gente muito próxima e mais outra que prefere não citar ninguém, mesmo tendo sua lista de preferidos, como sabemos que todos têm. Italo Calvino foi um dos poucos que preferiu, não só registrar suas leituras fundamentais no extenso trabalho de crítica literária que é exemplo para qualquer iniciante ou reconhecido na área, como comentá-las sistematicamente ao ponto de, naturalmente, oferecer-nos uma resposta para uma das perguntas mais cabeludas da literatura: o que é um clássico? E todo esse itinerário de leitor lhe forneceu algumas especulações e formulações só dadas à aproximação aos que guardam pelos livros uma paixão fora do limite de culto ao objeto, mas pela sua forma e o conteúdo. Em

Manual de pintura de caligrafia, de José Saramago

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Uma das capas para uma edição brasileira de Manual de pintura e caligrafia.  Manual de pintura e caligrafia é o primeiro romance de José Saramago; pelo menos até enquanto o escritor português não admitiu publicamente que aquele A viúva , publicado em 1947, com outro nome,  Terra do pecado  era um romance que estaria na sua tábua bibliográfica. É uma obra que traz, desde seu título, uma marca na escrita saramaguiana: a de revisão das terminologias e, logo, de conceitos, dados aos gêneros. Chamar um romance de manual  e de pintura e caligrafia tem toda uma diversidade de sentidos que foge da ideia que se tem de um manual - geralmente descritivo e prescritivo - coisa que o texto em questão não é. Lido pela crítica como um romance cujas margens vem povoadas por ecos de uma biografia do próprio autor - sendo, portanto, o mais autobiográfico dos seus trabalhos. Entendendo que a crítica às vezes fala tanto que beira a linha do indevido, prefiro ver que a materialidade deste texto é

Maiakóvski: o farol que era um poeta*

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Por Francis Combes Sou poeta, e exatamente por isso é que sou interessante. É sobre isso que escrevo; sobre o resto só foi defendido com a palavra. Maiakóvski Antes mesmo de ter colocado "o ponto final com uma bala" em sua própria vida, Vladímir Maiakóvski tinha saltado para a história. Durante o período soviético, ele, que não queria estátua como monumento póstumo, mas um fogo de artifício, foi com freqüência estatuado, fixado na pose do "poeta da revolução", quando era deixado na sombra (e por muitas vezes censurado) o que nele ultrapassava o cenário da época. Stálin não tinha escrito "Maiakóvski é o melhor e mais talentoso poeta da época soviética. A indiferença à sua memória é um crime"? Maiakóvski tornou-se assim um "clássico"... Certos poemas seus eram conhecidos de todos e ensinados às crianças. Lembro-me de ter visto no cemitério de Novodievitchi, lenços de pioneiros colocados sobre seu túmulo... Seu apartamento tinha