Um poema recortado do Jornal Trabuco


O Jornal Trabuco trata do universo literário do curso de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Dentre as colunas está uma que se chama Sarau, dedicada à produção poética. Em sua primeira edição lançada no início do mês, foi incluído dois poemas de Pedro Fernandes: Salvação (publicado aqui em 2007) e outro, uma amostra de seu livro Sertanices. 


Previsões

Minha avó costumava em certos meses do ano
Pôr sobre a casa numa tabua morros de sal,
Doze ao todo, os doze meses do ano:
Janeiro. Fevereiro. Março. Abril. Maio.São João.
Santana. Agosto. Setembro. Outubro. Novembro. Dezembro.

No dia seguinte contava a quantidade do derreter
E dessa quantidade via os meses chuvosos,
Os menos e os mais,
Também os meses secos –
Estes, de Santana em diante serão secos.

Nos meses de São João e Santana
Se um bando de garças cortasse o azul pardo
Nas tardes afogueadas
É que a seca estabanada encontrava o sertão.

E era mesmo: as garças se iam deixando para trás
Uma caatinga de verde esmorecido,
Capim amarelo.

Breve a caatinga fazia-se cinza,
Como que morta, adormecida,
Vestida mesmo de morte, despida de vida
Para suportar as agruras o calor.



* Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

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