Por que ler os clássicos: os livros de Italo Calvino (Parte 2)



Em Por que ler os clássicos Italo Calvino deixa claro a importância da leitura de determinadas obras não apenas porque a leitura é algo fundamental na formação do indivíduo para o mundo e para a vida, mas porque estão nos livros as grandes descobertas que fizeram a humanidade alcançar o posto que alcançou.

O seu trabalho, nas indicações de obras não se restringe a critérios teóricos sobre a marcação dos territórios literários, mas se guia pelo que de inovação determinado título terá produzido se não no ano em que foi publicado, porque nem sempre estivemos conscientes daquilo que um outro pensou por nós em determinada ocasião, mas no que isso irá desencadear anos mais tarde.  

Ao dizer isso, tocamos numa outra condição definida por ele numa das respostas para a pergunta que nomeia o ensaio de abertura do livro (e também o título do livro): a releitura é condição necessária para que essas descobertas, muitas vezes escondidas sob diversas camadas de poeira, passem a ter valia e, claro, o leitor tenha uma nova visão sobre a realidade. Eis, a força do conhecimento.

No mês de maio, iniciamos a publicação de sua lista de leitura construída por este Por que ler os clássicos e agora continuamos com a mesma investida.

1. Robinson Crusoe, de Daniel Defoe: “Robinson Crusoe é sem dúvida um livro a ser relido linha por linha, fazendo-se sempre novas descobertas. Aquela sua renúncia, em poucas frases, nos momentos cruciais, a todo excesso de autocompaixão ou de júbilo para passar às questões práticas (como quando, tendo acabado de se dar conta de ser o único sobrevivente de toda a equipagem – ‘de fato, deles não vi mais nenhum traço, exceto três chapéus, um boné e dois sapatos sem par’ –, após um rapidíssimo agradecimento a Deus passa a olhar em torno e a estudar a sua situação) pode parecer em contraste com o tom da homilia de certas páginas que virão adiante, depois que uma doença o reconduziu ao pensamento religioso. Mas a conduta de Defoe é, em Crusoe e nos romances posteriores, bastante similar à do homem de negócios respeitador das normas que na hora do culto vai à igreja e bate no peito, e logo se apressa em sair para não perder tempo no trabalho. Hipocrisia? É demasiado aberto e vital para atrair uma tal acusação; conserva mesmo em suas bruscas alternativas um fundo de saúde e sinceridade que é o seu sabor inconfundível”.

2. Candido, de Voltaire: “O grande achado de Voltaire humorista é aquele que se tornará um dos efeitos mais seguros do cinema cômico: o acúmulo de desastres a grande velocidade. E não faltam as imprevistas acelerações de ritmo que conduzem ao paroxismo o sentido o absurdo: quando a série das desventuras já velozmente narradas em sua exposição ‘por extenso’ é repetida num resumo de provocar tonturas. É um grande cinematógrafo mundial que Voltaire projeta em seus fulminantes fotogramas, é a volta ao mundo em oitenta páginas, que leva Candido da Vestefália natal até a Holanda, Portugal, América do Sul, França, Inglaterra, Veneza, Turquia e se espalha nas voltas ao mundo supletivas das personagens coadjuvantes, homens e sobretudo mulheres, fácies presas de piratas e de mercadores de escravos entre o Gibraltar e o Bósforo. Uma grande cinematógrafo da atualidade mundial, sobretudo: com aldeias dizimadas na Guerra dos Sete Anos entre prussianos e franceses (os ‘búlgaros’ e os ‘ávaros’), o terremoto de Lisboa de 1755, os autos de fé da Inquisição, os jesuítas do Paraguai que recusam o domínio espanhol e português, as míticas riquezas dos incas, e alguns flashes mais rápidos sobre o protestantismo na Holanda, a expansão da sífilis, a pirataria mediterrânea e atlântica, as guerras intestinais do Marrocos, a exploração de escravos negros na Guiana, deixando uma certa margem para as crônicas literárias e mundanas parisienses e para as entrevistas com os muitos reis destronados do momento, reunidos no Carnaval de Veneza”.

3. Jacques, o fatalista, e seu amo, de Diderot: “Obra que não se enquadra em nenhuma regra nem classificação, Jacques le fataliste é uma espécie de termo de comparação para testar um bom número de definições cunhadas pelos teóricos da literatura. O esquema do ‘relato diferido’ (é Jacques quem começa a narrar a história de seus amores e, entre interrogações, divagações, outras histórias colocadas em cena, só termina no final do livro), articulado em numerosos emboîtements de um relato no outro (‘contos encadeados’), não é só o ditado pelo gosto por aquilo que Bakhtin chamará de ‘conto polifônico’ ou ‘menipeu’ ou ‘rabelaisiano’: é para Diderot a única imagem verdadeira do mundo vivo, que não é nunca linear, estilisticamente homogênea, mas cujas coordenações embora descontínuas revelam sempre uma lógica”.

4. Do amor, de Stendhal: “É durante o período milanês que Henri Beyle, até aquele momento homem mais ou menos brilhante, diletante convocação indefinida e polígrafo de sucesso incerto, elabora algo que não podemos chamar de sua filosofia, pois se propõe a caminhar justamente em direção oposta à da filosofia; que não podemos chamar de sua poética de romancista, porque ele a define exatamente enquanto polêmica com os romances, talvez sem saber que se tornará ele próprio romancista dali a pouco; enfim, algo que nos resta somente chamar de seu método de conhecimento. Esse método stendhaliano, baseado na vivência individual em sua singularidade irrepetível, se contrapõe à filosofia que tende à generalização, à universidade, à abstração, ao desenho geométrico; mas também se contrapõe ao mundo do romance visto como um mundo de energias concretas para um fim, enquanto pretende ser conhecimento de uma realidade que manifesta sob forma de pequenos acontecimentos localizados e instantâneos”.

5. A cartuxa de Parma, de Stendhal: “se volto a ter em mãos a Chartreuse ainda hoje, como em todas as releituras que fiz em períodos diversos, através da todas as mudanças de gosto e de horizonte, encontro aquele ímpeto da sua música, aquele alegro con brio que torna a me envolver: aqueles primeiros capítulos na Milão napoleônica em que a história com seus estrondos de canhão e o ritmo da vivência individual caminham sincronizados. E o clima de plena aventura em que se entra com Fabrizio que gira em torno de úmido campo de batalha de Waterloo, entre carrinhos de vivandeiras e cavalos em fuga, é a verdadeira aventura romanesca calibrada de perigo e de incolumidade e com uma forte dose de candura. E os cadáveres com olhos arregalados e braços ressecados são os primeiros cadáveres de verdade com que a literatura de guerra procurou explicar o que é uma guerra. E a atmosfera feminina amoroso que começa a circular desde as primeiras páginas, feita de trepidação protetora e de intriga ciumenta, já revela o verdadeiro tema do romance, que acompanhará Fabrizio até o final (uma atmosfera que, com o decorrer da ação, não deixará de resultar opressiva)”.

6. Ferragus, de Balzac: “o romance publicado é bem diferente daquele que o prefácio anunciava; o velho projeto não interessa mais ao autor; é outro que o mobiliza agora, que o faz suar sobre os manuscritos em vez de despejar páginas e páginas no ritmo exigido pela produção e que o leva a encher de correções e acréscimos os rascunhos, estragando a composição dos tipógrafos. Contudo, o enredo que ele segue tem sempre força suficiente para manter o fôlego suspenso com os mistérios e os golpes de cena mais inesperados, e a personagem tenebrosa com o ariostesco nome de batalha de Ferragus desempenha um papel central, mas tanto as aventuras às quais ele deve sua autoridade secreta quanto sua infâmia pública são subentendidas, e é somente ao seu declínio que Balzac nos faz assistir. O que então apaixonava Balzac era o poema topográfico de Paris, segundo a intuição que ele teve antes de qualquer outro da cidade como linguagem, como ideologia, como condicionamento de cada pensamento e palavra e gesto, onde as vidas ‘impriment par leur physionomie certaines idées contre lesquelles nous sommes sans défense’, a cidade monstruosa como um crustáceo gigantesco do qual os habitantes não passam de articulações motoras”.

7. Nosso amor comum, de Charles Dickens: “Em Nosso amigo comum existe lugar para o romance metropolitano e para a comédia de costumes, mas também para personagens de consciências complexas e trágicas, como Bradley Headstone, ex-proletário que uma vez tendo se tornado professor deixa dominar por uma ânsia de ascensão social e de prestígio que se transforma numa espécie de possessão diabólica. Vamos acompanhá-lo em seu enamoramento por Lizzie, em seu ciúme que se torna obsessão fanática, no projeto minucioso e depois na execução de um delito, e em seguida no permanecer parado, repetindo suas etapas mesmo quando dá aulas a seus alunos”.

8. Três contos, de Gustave Flaubert: “Os Três contos são um pouco a essência de todo o Flaubert e, como dá para ler os três numa noite, aconselho-os enfaticamente a todos aqueles que por ocasião do centenário queiram tributar uma homenagem mesmo que rápida ao sábio de Croisset (Pela ocasião Einaudi volta a editá-los na finíssima tradução de Lalla Romano). Em tempo, quem tiver pressa pode deixar de lado “Hérodias” (cuja presença no livro sempre me pareceu dispersiva e redundante) e concentrar toda a atenção em “Um couer simple” e “Saint Julient”, partindo do elemento nuclear – o visual”.

* Os contos do livro são “Heródiade”, “Um coração simples”, “A legenda de São Julião Hospitaleiro”, na tradução de Milton Hatoum.

9. Dois hussardos, de Liev Tolstói: “Um dos textos em que a ‘construção’ tolstoiana é mais visível em Dois hussardos, e como esta é uma das suas narrativas mais típicas – do primeiro e mais direto Tolstói –, e das mais belas, observando como é feito podemos aprender algo sobre o modo de trabalhar do autor. Escrito em publicado em 1856, Dva gusara apresenta como evocação de uma época remota, o começo do Oitocentos, e o tema é o da vitalidade, transbordante e sem freios, uma vitalidade vista como já distante, perdida, mítica. As estalagens onde os oficiais transferidos aguardam a troca dos cavalos para os trenós e se depenam jogando baralho, os bailes da nobreza de província, as noites de farra ‘junto com os ciganos’: é na classe alta que Tolstói representa e mitifica essa violenta energia vital, espécie de fundamento natural (perdido) do feudalismo militar russo”.

10. Daisy Miller, de Henry James: “Daisy Miller saiu em revista em 1878 e, como livro, em 1879. Foi uma das raras narrativas (talvez a única) de Henry James da qual se pode dizer que teve logo um sucesso popular. Certamente na sua obra, toda ela sob o signo da evasiva, do não dito, de um esquivar-se contínuo, ele se apresenta como um dos textos mais claros, com uma personagem de moça cheia de vida, que explicitamente aspira a simbolizar a falta de preconceitos e a inocência da jovem América. Contudo, é um conto não menos misterioso que outros desse autor introvertido, inteiramente tecido como é pelos temas que se apresentam, sempre entre sombra e luz, ao longo de toda a obra”.

Ligações a esta post:

* Os excertos são da tradução de Nilson Moulin, Companhia das Letras.  


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