Machado de Assis: a república do pensamento

Por Carlos Faraco*

Numa sociedade marcada por divisões sociais muito rígidas (como já era o Brasil da época de Machado de Assis), o indivíduo nasce com seu destino social mais ou menos determinado pela origem, pela raça, e até pela possibilidade ou não de freqüentar escolas.

Joaquim Maria era menino de subúrbio e a vida intelectual do subúrbio era muito diferente da vida intelectual da Corte. Era essa última que atraía Machado de Assis.

Rua do Ouvidor. No tempo de Machado de Assis, tudo acontecia e o mundo passava por aqui.




As coisas elegantes do Rio de Janeiro da época aconteciam nos cafés da Rua do Ouvidor, onde as pessoas da classe detentora do poder se encontravam, se divertiam, exibiam suas roupas importadas da Europa.

Era por aqui que Joaquim Maria passava grande parte do seu tempo. Trabalhando. Caixeiro de livraria, tipógrafo, revisor foram profissões que provavelmente exerceu antes de se tornar jornalista e cronista. Não terá sido fácil para o adolescente de arrabalde firmar-se como um intelectual na Corte. Além disso, as teorias racistas que se espalhavam pelo século XIX sustentavam a superioridade natural da raça branca sobre negros, índios e mestiços. Joaquim Maria era mulato.

Na verdade, sua ascensão intelectual só se completaria por volta de 1880 quando, no cenário da literatura brasileira, ninguém superava Machado de Assis em fama e importância. Mas o percurso foi longo...

No dia 6 de janeiro de 1855, a Marmota Fluminense jornal de notícias, variedades, curiosidades e literatura, publicou o poema A palmeira. Na segunda estrofe, o poeta afirmava:

Tenho a fronte amortecida
Do pensar acabrunhada!
Sigo os rigores da sorte,
Nesta vida amargurada!

Nada de excepcional, é bem verdade. Era apenas o começo: a estréia literária de Joaquim Maria Machado de Assis.

O jornal em que se publicou o poema era editado numa livraria que havia se transformado em ponto de encontro dos escritores da época. Foi La que Machado de Assis ganhou protetores como Paula Brito – dono da livraria e do jornal –, Manuel Antônio de Almeida – já conhecido romancista –, e um padre que ensinava latim ao adolescente.

Logo Machado já era membro da redação da Marmota Fluminense. Outros jornais passaram a publicar seus trabalhos. Para nosso autor os jornais eram “a verdadeira forma da república do pensamento (...), a literatura universalmente aceita (...)”.

Machado de Assis, homem da cidade, cada vez mais se distanciava de Joaquim Maria, menino do subúrbio. Nas roupas, na postura, na expressão.

Os meios literários da Corte tornavam-se, pouco a pouco, terreno conhecido para ele. Ele tornava-se cada vez mais conhecido nesse terreno.

“A vida fluminense compõe-se agora de óperas, corridas, patinação e pleito eleitoral; é um perpétuo bailado dos espíritos.”

Sobre essas coisas – e muitas outras mais – escrevia Machado de Assis surpreendendo por um estilo sutilmente irônico, que logo ia tornar-se marca registrada de sua obra. Um exemplo? Veja este comentário sobre as corridas de touro, espetáculo muito comum no Rio da época:

“Estou convencido de que esse amigo não foi às corridas. (...) Eu sou obrigado a confessar que também lá não ponho os pés, em primeiro lugar porque os tenho moídos, em segundo lugar porque não gosto de ver correr cavalos nem touros. Eu gosto de ver correr o tempo e as coisas; só isso. Às vezes corro também atrás da sorte grande (...)”

A crônica é normalmente considerada como texto perecível, de interesse restrito no tempo, pois desgasta-se assim que termina a ocorrência que lhe deu origem. Mas não em Machado. Suas crônicas ainda hoje têm atualidade, pois ele conseguiu extrair reflexões profundas de fatos corriqueiros, tocando a essência daquilo que observava. E observava como um meio riso de contemplação. E quase sempre esse riso trazia, implícita ou explicitamente uma advertência:

“Há pessoas que não sabem, ou não se lembram de raspar a casca do riso para ver o que há dentro. Daí a acusação que me fazia ultimamente um amigo a propósito de alguns destes artigos, em que a frase sai assim um pouco mais alegre. Você ri de tudo, dizia-me ele.”

Em Machado de Assis, o fato em si tem importância menor. O que interessa é a reflexão que esse fato provoca.

“Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto”.

Machado cronista escreveu para diversos jornais, mas não se vá imaginar que no Brasil da época era possível viver de escrever. Não! Para sobreviver, aceitou um emprego público que lhe garantiria o sustento.

A ascensão na carreira burocrática vai ocorrendo paralelamente à sua consagração como escritor. Oficial de gabinete de ministro, membro do Conservatório Dramático, oficial da Ordem da Rosa... Em 1889, o mais alto grau da carreira: diretor de órgão público, a Diretoria do Comércio. Aos poucos, foi chegando a estabilidade econômica e mais tempo para escrever.

Durante 40 anos Machado escreveu suas crônicas. Utilizando-se de histórias do dia-a-dia, o escritor ia refletindo sobre a História que se desenhava à sua volta.


Ligações a esta post:
>>> Machado de Assis: a república do pensamento


*FARACO, Carlos. Machado de Assis – Um mundo que se mostra por dentro e se esconde por fora. In: ASSIS, Machado de. Histórias sem data. São Paulo: Ática, 1998


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