Sindicato de ladrões, de Elia Kazan



Performance do protagonista transformou-se em modelo nas aulas de interpretação


Já a primeira cena impressiona: homens saem enfileirados de um barraco ordinário no cais, com navio ao fundo, numa região degradada. Não é um cenário, mas uma tomada feita em locação na região portuária de Nova York pelo grande cineasta Elia Kazan. Sindicato de ladrões é uma das produções que renovaram a Hollywood clássica, ao lado de, por exemplo, Juventude Transviada (1955), de Nicholas Rey, e Anjo do Mal (1953), de Samuel Fuller. Na época do seu lançamento, o filme de Kazan foi um assombro. O realismo das imagens, com seus personagens em roupas amarfanhadas, o frio real nas ruas geladas do inverno nova-iorquino, tudo isso era, senão inédito, raríssimo num cinema que se resolvia em encenações de estúdios.

Como essa geração de cineastas fazia filmes que também respondiam às incertezas e desilusões do povo norte-americano na virada dos anos 1040 para os 50, Kazan levou para o seu cinema tanto as discussões sobre o compromisso com a verdade como sobre o significado incerto das certezas (Viva Zapata, de 1952, é um exemplo). Sindicato de ladrões fala da corrupção no sindicato de portuários. Logo após ser usado isca para o assassinato de um delator, Terry Malloy (Marlon Brando), percebe os pequenos e grandes crimes cometidos pela "máfia" sindicalista, e entra no dilema moral sobre se deve ou não incriminar os colegas, o que inclui seu irmão, Charley (Rod Steiger).

O mais marcante neste belo filme é a caracterização "realista" dos espaços e, sobretudo, dos personagens. Terry está longe de ser um daqueles heróis virtuosos do cinema clássico americano: ex-pugilista, fracassado, meio lerdo, sua única virtude é a consciência.

E Brando tem uma atuação inesquecível, cujo ápice encontra-se na seqüência na qual ele e Rod Steiger conversam no táxi - cena usada como o melhor exemplo do Método de Lee Strasberg em cursos de interpretação. O final com Terry cambaleando ensangüentado comoveu a Academia, e Sindicato de Ladrões ganhou oito Oscar incluindo Filme, Direção, Roteiro e Fotografia.




*  Revista Bravo!, 2007, p. 16.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

José Saramago e As intermitências da morte

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

Os diários de Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #246