Machado de Assis, histórias sem data, papéis avulsos


Por Pedro Fernandes



Por vaidade, a mãe impede o casamento da própria filha. O drama do maestro que não consegue compor suas próprias músicas. A igreja em que os fiéis praticam o bem às escondidas. Histórias sem data é um novelo de enredos machadianos publicado em 1884, no auge da maturidade intelectual do escritor brasileiro, dada a publicação de seu romance Memórias póstumas de Brás Cubas, de 1881, considerado a obra-prima e o divisor de águas na sua escrita.

O debate em torno dos regimes políticos, dos bons e maus costumes – estes últimos, principalmente – da sociedade carioca e brasileira, acerca das fraquezas, tiques maníacos, loucuras e razões humanas; os ciúmes e a criação da célebre trama em torno de uma traição ou não – nunca se soube até hoje – em que é pintado a letra e papel a Monalisa brasileira, que semelhante à outra, a de Da Vinci que jamais se descobriu o enigma do seu sorriso, jamais se descobriu o enigma dos olhos de ressaca de Capitu; mesmo que depois dos acalorados debates já travado em derredor de Dom Casmurro. Tudo isso são tintas que o escritor se utiliza para dar cor e forma à sua prosa, que desliza por entre todos os gêneros literários.

A começar pela crônica, passar pelo conto e chegar ao romance há um riso fino e oculto por entre as linhas por vezes barrocas da escrita machadiana. Há na trajetória desse gênio das letras brasileiro uma capacidade que o país só iria ver bem mais tarde noutras figuras como Guimarães Rosa, Euclides da Cunha ou Clarice Lispector. Compartilho da fala do crítico Carlos Nejar no seu livro História da Literatura Brasileira de que Machado com sua escrita é dono dum poroso sarcasmo, punhal envenenado, mórbido, que tenta nos abrir os olhos da inteligência, sendo a inteligência pouca diante do esplendor da vida ou do amor ou da solidariedade. Machado cria com sua escrita literária um jeito de se fazer literatura único, inimitável. Sobretudo Machado machadianiza o cenário literário no país.

Com as tintas da ironia, Machado pinta mulheres frias, calculistas, como Capitu; homens trancados e retraídos como Bentinho; traidores como Escobar; loucos e ambiciosos como Quincas Borba ou Simão Bacamarte. Com as tintas da ironia, Machado cria um narrador que mantêm uma conversa bem-humorada com o leitor – Caro leitor –, uma conversa em que o narrador se mostra, fazendo questão de frisar que se trata de ficção o que está contando – “Convenho que nem todas essas particularidades podiam está nos olhos de Eulália, mas por isso mesmo é que as histórias são contadas por alguém, que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar o escondido” (“Dona Benedita”).

E não só isso. Machado, semelhante ao que nos diz Gilles Deleuze, cria a partir do domínio pleno da língua, uma língua própria para comunicar-se com o leitor, uma língua marcada pela ilimitada invenção com uma discrição tamanha, como que quisesse já se esconder do rótulo de clássico, que certamente já o escritor sabia ser dono.

De Memórias Póstumas de Brás Cubas, definida pela crítica mais refinada – cite-se Harold Bloom – como um dos romances de maior expoente na literatura mundial, expõe-se o Machado escritor de que vimos falando a todo tempo. Não fazendo uso dos fatos que constituem a narrativa, mas dos labirínticos corredores da alma humana, o escritor extrai as tintas de seu pincel de escritor para pintar acerca da morte, da luta racional entre o bem e o mal, a crueldade, a ingratidão, a sensualidade, o adultério, o egoísmo a vaidade, entre outras já citadas acima: “Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, se não porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menores bonitas ou absolutamente feias?” (Memórias Póstumas de Brás Cubas).

A tudo isso se soma o espírito cavernosamente crítico, sarcástico em relação a face negativa do homem e da vida; também seu espírito pessimista ao debruçar-se sobre a face da má natureza humana, esquecendo do que a hipocrisia social chama pelos sentimentos de bondade e de grandeza – “Não se luta contra o destino; o melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos.” (Esaú e Jacó).

E tudo isso, são histórias sem data, porque ao que parece aos olhos do leitor mais crítico da obra machadiana, essas tintas com que o escritor coloriu seus escritos ainda não se dissiparam da sociedade humana. Do contrário, ainda mais se avivaram, ainda mais se tornaram agudas. Isso faz da obra de um centenário mais atual do que nunca, uma obra que prima pela universalidade aliada ao seu estilo sofisticado de narrativa. As tintas com que Machado escreve seus romances são também papéis avulsos – e agora o parafraseio ao texto do prólogo da obra de contos Papéis Avulsos. Papéis avulsos não no sentido de negar a unidade que representa sua obra, mas na crença de que o autor tenha feito dos seus escritos uma ordem plural e diversa dentro da unidade e da maturidade de um escritor que é fonte inesgotável as letras e a cultura brasileira.


* Este artigo foi publicado no Jornal De Fato, Caderno Domingo em 12 de outubro de 2008, p. 14.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Os diários de Sylvia Plath