Matar e criar

Por Candido Pérez Gallego

T. S. Eliot, 1947. Foto: George Platt Lynes


No número de junho de 1915 da revista Poetry aparece um poema de um tal T. S. Eliot (A canção de amor de J. Alfred Prufrock), que havia nascido em 1888 em Saint Louis (Missouri), passaria pela universidade de Harvard, por aquele período se casaria em Hampstead, Bertrand Russell o convidaria para o jantar de seu novo casamento e até propõe deixar-lhe um quarto em sua casa. A esposa tem uma instabilidade mental, é extremamente frágil  e logo terá a primeira crise importante. No fim, naquele poema se pintava um homem jovem prematuramente velho que passeia pelos bairros marítimos de Boston. Um texto que se abre de um novo modo e esmagador: "Sigamos então, tu e eu / Enquanto o poeta no céu se estende / Como um paciente anestesiado sobre a mesa". A poesia moderna acaba de entrar no panteão e faz uma homenagem a Baudelaire, Laforgue e Apollinaire. Se nos diz que será "tempo para matar e criar", no fim, quando o herói chega à praia, descobre: "Ouvi cantar sereias, umas para as outras // Não creio que um dia elas cantem para mim". A poesia atual nasce recolhendo emoções, justapondo linguagens como se quisesse seguir o método de Locke e Hume e pensar que as percepções são uma fonte das ideias. Eliot falaria depois de "uma variedade de imagens velhas" e postula um método culto e erudito, onde a poesia procede de outros textos, de experiências literárias anteriores.

No final de dezembro de 1921, num sanatório próximo a Vevey, o poeta está deprimido, e ali nasce A terra desolada. A tensão sofrida pelo abatimento de sua esposa está lhe destruindo, perto das águas do lago Leman pressente chorar, aproximando-se do Salmo 137: "Junto aos rios da Babilônia sentamo-nos a chorar, com saudade de Sião". A analogia está conseguida e será seu método contínuo, a poesia como confluência de linguagens. E este grande poema, aparecido no ano de Ulysses, em 1922, fala de uma terra viva mas desolada, é o canto agônico sobre a atual civilização, uma sinfonia ao apocalipse da cidade, mesclando entre outros muitos textos linhas de Dante, do Upanishad ou Hermann Hesse, e assim temos a evidência de uma nova escrita. A ironia é excelsa.

Alguém nos para junto à igreja londrina de St. Mary Woolnoth e nos repreende: "Stetson, / Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae! / O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim / Já começou a brotar? Dará flores este ano? / Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?" É a linguagem esotérica do absurdo, mesclando-se a arte de Christopher Wren com as balsas que vão pelo Tâmisa. Ali mesmo, entre ratos, alguém pesca junto a uns depósitos pensando na ruína de seu pai e irmão reis. Um mundo novo, uma "quarta-feira de cinzas" para "homens ocos" que conduz a 1936, quando nove anos depois de se tornar súdito inglês e aceitar a religião anglicana publica Burnt Norton, um poema belíssimo que dará lugar com o tempo aos Quatro quartetos.

A grande poesia brilha por toda parte. Logo serão alusões a San Juan de la Cruz e até às V-1 bombardeando a cidade de Londres. Quatro quartetos como quatro recordações de nossa íntima história, da que não podemos nos desprender. Este será o sentido de seu teatro, e em Assassinato na catedral ou Cocktail party veremos um mundo onde heroísmo e desolação se fundem. Sua vida vai se extinguindo e já passaram seus anos de empregado do banco Lloyd e de diretor da editora Faber and Faber em Russell Square, e em 4 de janeiro de 1965 sua vida acaba, levando-o depois ao crematório de Golders Green. Todo Eliot é uma reflexão sobre uma cultura em crise. Sua obra lírica completa é apenas um livro; seu pensamento crítico continua vivo. Exigia muito dos jovens poetas, pedia aos seus imitadores um grande conhecimento da literatura, mas junto com Ezra Pound e James Joyce marca o rumo do presente. Todavia não foi superado, nem sequer por Rilke. Um autor que fala de "alho e safiras na lama" ou de "o mar estava calmo, teu coração teria respondido". Mais atrevido e renovador que muitos pós-modernos.

* Este texto é uma tradução de "Asesinar y crear", publicado em El País.

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