A expressão Aluísio Azevedo 90 anos depois

Por Pedro Fernandes

Cena de O cortiço. O livro de Aluísio Azevedo foi adaptado por Francisco Ramalho Jr. em 1978.



ao tingir com tintas fortes e pinceladas rudes, por vezes, mas duma poeticidade única, Aluisio Azevedo entrava em definitivo para o rol da história literária como o Zola brasileiro


Há pouco mais de um século o escritor francês Émile Zola publica O romance experimental. Essa obra inaugura novas vertentes no campo da Literatura, que a crítica literária logo tratou de conceituar como Naturalismo. Esse movimento estético literário foi como uma espécie de desdobramento da estética realista. Tal como defendido por Zola, o romance naturalista seria aquele que se preocuparia em apresentar e discutir temas comuns ao homem como patologias sociais, sem pudor, de modo semelhante a um cientista cético que tem o interesse de tocar e remexer numa ferida a título de discernir o cerne da doença. Já quanto ao Realismo, usando de um recurso visual do crítico brasileiro Massaud Moisés, enquanto movimento literário nutria já o interesse pela realidade social só que a maneira como que o escritor a “examinava” era com luvas de pelica. Isto é, no Realismo parece haver entre o escritor e o “problema” social um véu que o impede de atingir o que seria a especificidade da questão. Diferente, então, pelo que eu vinha dizendo acerca da estética naturalista.

Tal estética, entretanto, foi algo bem mais amplo e assim como as outras estéticas literárias é, certamente, fruto de um extenso e emaranhado conjunto de idéias e questões que não se resumiu apenas ao campo da literatura. É visto, por exemplo, que essa nova tendência do romance toma como influências o que já vinha sendo discutido noutros territórios, como as idéias do naturalista inglês Charles Darwin, as do positivista Auguste Comte, além, é claro, da publicação na Alemanha do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. Idéias que são observadas pela primeira vez na Literatura pelo termo determinismo quando Hippolyte Taine, filósofo e historiador francês, investigava em seus trabalhos sobre a literatura inglesa fatores que a seu ver deveriam ser considerados durante a apreciação de uma obra literária de um determinado povo. Tais fatores eram inerentes ao indivíduo social: raça, meio (geográfico e social) e momento histórico. O determinismo, então, entende-se como a visão do ser humano como produto do meio em que se encontra; da herança – cultural, social etc. – recebida e das condições históricas características do momento em que vive.

Pois bem, o principal autor da literatura brasileira que inaugura cá entre nós a face do que seria o Naturalismo foi o escritor maranhense Aluísio de Azevedo, conhecido, certamente, entre a maioria, pela célebre obra O cortiço. No dia 21 de janeiro passado, fez noventa anos que o escritor faleceu na Argentina. Mais do que este singular momento da literatura brasileira o que convém lembrar pela passagem desta data biográfica é a importância e o significado que carrega a obra de Azevedo.

Antes, recobremos os traços de sua biografia. Seus registros dão conta de um sujeito, como se é comum aos artistas, inquieto ou destoante de seu tempo. Ainda nos bancos da escola primária iremos encontrar o escritor entre os rabiscos de desenhos, o que apontava, segundo sua família, ainda presa às concepções duma psicologia do dom, para os rabiscos de um grande artista plástico. Isso levou sua família a matriculá-lo num curso de artes plásticas. Mas, o caminho que o nascente artista trilharia seria o de outra arte. Largaria o colorido das tintas e os pincéis pela constante da tinta negra e o lápis com que comporia o seu primeiro romance que publica com o título de Uma lágrima de mulher, em 1880. Vale salientar, entretanto, que o talento de artista plástico não foi de um todo desprezado, não no começo de tudo. Azevedo antes deste primeiro romance chegou a compor várias charges para jornais como O Mequetrefe e Zig-zag. Isso no Rio, porque quando ele conclui o curso de artes plásticas seguiu o rastilho de sucesso que seu irmão Arthur Azevedo já tinha na Corte. Apenas quando volta ao Maranhão, quando da morte de seu pai, é que surge esse primeiro romance e quando Azevedo passa a se dedicar ao traçado da escrita, escrevendo crônicas e comentários para a imprensa local. Entretanto, não seria esse romance, ainda vazado nos moldes de um romantismo piegas, nem os desenhos ou seus escritos para o jornal o que lhe vão dá o nome com que sonhara. Continua a viver sua modéstia vida de jovem provinciano, quando lhe vem a idéia já calcinada pelas questões da sociedade em que vive para compor O mulato, em 1881, obra que inaugura os traços da estética naturalista na literatura brasileira. É por este romance que Azevedo se projeta. E é, certamente, por causa deste romance que Azevedo vai morar no Rio. A fama, agora sua, é o que lhe abre as portas dos jornais onde passa a colaborar intensamente por anos e anos de atividades ininterruptas e das quais ele se queixa continuamente dizendo-se um sacrificado, um escravo das letras, que não lhe davam nada, apenas o bastante para morrer de fome. Este trabalho, entretanto, foi o que proporcionou a constituição de sua carreira enquanto romancista. Assim como Uma lágrima de mulher, em 1880, publicaria uma série de romances ainda presos a estética romântica, tais como, Mistério da Tijuca ou Girândola de Amores, em 1882, Memórias de um condenado ou A condessa Vésper, em 1881, Filomena Borges, em 1884, e os considerados naturalistas, além d’O mulato, Casa de pensão, em 1884, O Homem, em 1887, o já falado O cortiço, em 1890, e O coruja, do mesmo ano do anterior, entre outras obras. Além de contos e peças para teatro.

Toda esta obra é importante porque vem compor um conjunto de quadros típicos de espaços e tipos sociais de uma camada outra da sociedade brasileira. É a primeira vez que um escritor se desprende do academismo e dos arquétipos burguês para focar numa nascente marginalidade do País. Símbolo maior desse interesse e de sua escrita é, certamente, O cortiço; e esse é, também, sem dúvidas, o mais bem acabado romance naturalista, uma vez que nesse livro o que se assiste é um autor que não está mais preocupado com as personagens em si, mas concentra-se em demonstrar de que o ser humano é fruto do meio em que vive, compondo, desse modo, a face mais elaborada do Naturalismo. As personagens são completamente envolvidas pelo meio, que, de certa forma, devora-as. O próprio cortiço, cenário da trama que vai se expandindo e multiplicando a cada dia, adquire, por esse caráter antropofágico, a condição de personagem central do romance. É nesse cenário promíscuo e insalubre que o leitor testemunha o cruzamento das raças, a explosão da sexualidade, a violência e a exploração do ser humano. Isto é, o romance é a composição de um painel significativo do que há de mais bicho no ser humano. E é isto que seduz o leitor, porque vendo o que há de mais bicho no ser humano, Azevedo nos expõe ao que há de realmente humano no bicho que somos; não restam dúvidas, pois, de que é a exposição pelas vias do grotesco, o que de mais belo há n’O cortiço. É também o que faz Aluízio Azevedo dono de uma obra significativa, visto que, diferente de outros escritores que criaram tipos humanos, criou ele tipos sociais: é assim n’O cortiço, que como dizia, o cortiço é a personagem central do romance; é assim n’O mulato, em que São Luís e não o mulato Raimundo, é a personagem principal do romance; e é assim em Casa de pensão, em que é a casa de pensão e não Seu Amorim, a personagem-prima do romance. Foi, sem dúvidas, o mestre de narrar a vida coletiva. Depois dele, certamente, não houve ainda outro semelhante.

Apesar de reconhecermos o seu caráter enquanto escritor de uma obra-prima, ele nunca se viu como tal. A profissão de escritor, dizia, era um jugo. Tanto que se tornou cônsul, através de concurso e como tal serviu em Vigo, Nápoles, Japão e por fim em Buenos Aires, aonde veio falecer em 21 de janeiro de 1919. Assumiu seu primeiro posto aos 37 anos e a morte o levou 18 anos depois, e nesse interregno Aluísio Azevedo nunca mais cuidou da literatura. Nunca mais publicou um livro. Deu às costas completamente a Arte.


*Este texto foi publicado em 2 de fevereiro de 2009, no Caderno Domingo do Jornal De Fato, p. 14

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