“Eu não viajarei para Auschwitz”*

Por Pedro Fernandes



Bem, leitor, confesso que minha consciência novamente me obriga a render matéria sobre um assunto que só pensei escrever sobre apenas um artigo. Mas, o caso é forte. É um caso daqueles, como diria uns, de rasgar a goela. Não desce de forma alguma. E calar-se parece consentir. Trata-se da novela Williamson, que discorri aqui noutro dia. Ele mesmo. O dito cujo mesmo que anda pregando aos quatro ventos que o Holocausto não existiu.

Pois bem, esse mesmo volta à telinha de novo e de novo com a mesma história. Nesse vale a pena ver de novo, depois de uns imprensões fuleras de Ratzinger, que só convenceram a meio mundo de fanáticos de que ele está realmente preocupado com o caso, porque se realmente estivesse já teria feito o que João Paulo II fez, ou melhor, se se preocupasse com o caso sequer teria reabilitado o louco, Williamson afirmou, segundo o jornal Folha de São Paulo, à revista alemã “Der Spiegel” que está disposto a rever as evidências históricas, mas que não vai visitar Auschwitz, grupo de campos de concentração localizados ao sul da Polônia e considerado símbolo do Holocausto: “Não, eu não viajarei para Auschwitz. Eu encomendei o livro de autoria de Jean-Claude Pressac. Ele se chama ‘Auschwitz: Technique and Operation of the Gas Chambers’ (Auschwitz: técnica e operação das câmaras de gás). Uma cópia está sendo enviada para mim e eu lerei e estudarei” – palavras de Williamson. [Palmas! O homem está mesmo disposto a re-escrever a História.] E re-afirmou: “não existiram câmaras de gás, e [...] entre 200 mil e 300 mil judeus sofreram nos campos de concentração.” [Leitor, onde estão as autoridades? Prenda esse homem, ele é o novo Hitler.]

Como pode haver, pergunto eu, mente doentia a ponto de afirmar tanta barbárie? E ninguém diz nada. Ninguém faz nada. Assistem. Só assistem. E vibram. Pensei que depois da Segunda Guerra tivéssemos construído uma certa imagem do horror, do que é o horror. Mas não. Parece que não. Parece que o conflito deixou ainda fiapos de raízes em terras muito férteis. E capazes de procriarem-se. Não duvido nada da capacidade de um sujeito desses. Hitler, contam as biografias, começou assim, com um simples ódio pelos judeus e no final conseguiu reunir toda uma massa em torno de um único objetivo, o de exterminar os judeus da face da terra.

E a papelada de Williamson não para por aqui. Também ele é ciente que Deus não queria que as mulheres estudassem e que o 11 de setembro foi uma conspiração dos Estados Unidos. Desse último fato, o dos atentados, até me calo e ponho mesmo minhas barbas de molho, porque com aquele outro louco que saiu do poder, tudo era possível. E parece que um louco entende bem o outro. Agora do das mulheres...

O pior dessa crise não é nada, é o sentimento de impunidade diante de casos desse tipo. O Vaticano e suas vaticanices fazem o papel de Pilatos diante dos fatos ao dizer que as declarações feitas por Williamson não era de conhecimento do papa Bento XVI no momento em que suspendeu a excomunhão dele e de mais outros três bispos conservadores, membros da seita São Pio X. Acreditamos. E como acreditamos! Leitor, cá entre nós, Sua Santidade reza demais! Tem muito rosários para debulhar durante o dia. Muitas missas a rezar. Tanto que não sabe nem dos fuxicos que rolam por entre as saias episcopais. E faz as coisas sem pensar... “É que me escapuliu... Foi sem querer querendo...”


E já perto das cenas finais desse capítulo da novela Williamson, mais uma vez a voz ao “mocinho”: “Nós apenas queremos ser católicos, nada mais. Nós não desenvolvemos nossos próprios ensinamentos, mas estamos apenas preservando as coisas que a Igreja sempre ensinou e praticou [...] tudo foi mudado com o Concílio Vaticano Segundo e repentinamente [os ensinamentos católicos] se tornaram um escândalo. [...] Como resultado, nós fomos jogados à margem da Igreja, e agora as igrejas vazias e o envelhecimento do clero deixa claro que as mudanças foram um erro, nós estamos retornando ao centro. É assim que funciona para nós conservadores: é provado que estamos certos, desde que consigamos esperar o suficiente”. Ufa! Discurso salvador. Leitor, meta a mão na consciência e faça seu próprio julgamento. Eu prefiro ficar por aqui.


* Texto publicado no jornal Correio da Tarde, de 19 de fevereiro de 2009.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

Os diários de Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #246