Trecho censurado de Macunaíma

Ilustração de Carybé para Macunaíma

Manuel Bandeira teceu muitos elogios quando leu Macunaíma, sobretudo pela protuberância de cenas picantes da obra. Mas, com medo da censura, Mário de Andrade fez um recorte do romance em que é narrado cenas, que ao seu ver, poderiam ser acusadas de pornografia. Nele, o romancista descreve transas de Macunaíma e Ci. Os cortes foram da versão original para a segunda edição da obra. Leia o trecho que reproduzo aqui a partir da edição crítica da obra preparada por Telê Porto Ancona Lopez e publicada em 1988 pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina.

*

Um geito engraçado era enrolar a rede bem e no rolo elástico sentados frente a frente brincarem se equilibrando no ar. O medo de cair condimentava o prazer e as mais das vezes quando o equilíbrio faltava os dois despencavam no chão ás gargalhadas desenlaçados pra rir.

Outras feitas Ci balançava sozinha na rede, estendida de atravessado. Macunaíma convexando o corpo entre dois galhos baixos em frente buscava acertar no alvo o uaquizê. Acertava bem. E aos embalanços chegando e partindo a brincadeira esquentava até que não agüentando mais o imperador partia também no vôo da rede num embalanço final.

Outras feitas mais raras e mais desejadas o heroi jurava pela memória da mãi que não havia de ser perverso. Então Ci enrolando os braços e as pernas nas varandas da rede numa reviravolta ficava esfregando o chão.

Macunaíma vinha por debaixo, enganchava os pés nos pés da companheira, as mãos nas mãos e se erguendo do chão com esfôrço, principiavam brincando assim. Dava uma angustia de proibição êsse geito de brincar.

Carecia de um esfôrço tamanho nos músculos todos se sustentando, o corpo do heroi sempre chamado sempre puxado pelo peso da Terra. E quando a felicidade estava para dar flor o heroi não se vencia nunca, mandando juramento passear. Abria alargado os braços e as pernas, as varandas da rede afrouxavam e os companheiros sem apoio tombavam com baque seco no chão. Era milhor que Vei, a Sol!

Ci tiririca se erguia sangrando e dava sovas tremendas no heroi. Macunaíma adormecia no chão entre pauladas, não podendo viver mais de tanta felicidade. Era assim.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

Os diários de Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #246