Quem quer ser um milionário?, de Danny Boyle

Por Pedro Fernandes



Quem quer ser um milionário? é já descrito como a surpresa do Oscar 2009 por se colocar à frente de O curioso caso de Benjamin Button. Bem, como não sou bom entendedor de cinema (e não sou bom entendedor de nada), o julgamento ou o parecer crítico (o leitor que julgue o que achar necessário) que faço sobre o filme é meramente um composto de notas do senso comum, de que alguém que diz gostar de cinema o tanto/quase como gosta de literatura.

(O leitor não especializado também poderá se sentir do meu lado ao ler meu posicionamento acerca do filme, porque meu julgamento não é o de uma crítica especializada e por um lado tem orgulho de ser assim, porque se for para se prestar ao papel de algumas críticas que circulam por jornais, revistas e endereços da rede, me perdoe, da expressão, não valem mais que um julgamento do senso comum. Isso porque não gosto da opinião crítica que se coloca superior ao objeto de arte, e que descaradamente faz uso do objeto de arte para autopromoção. Veja bem que me refiro a objeto de arte, porque também, venhamos e convenhamos, há alguns besteiróis em circulação no mercado que merece mesmo o toque mais incisivo por parte da crítica).

Achei Quem quer ser um milionário? um filme belíssimo, emocionante, divertido e por alguns momentos dotado daquilo que já tenho chamado de imprevisibilidade prevista. Digo isso porque dificilmente hoje se produz filmes dotados de um suspense no real sentido que cabe à palavra. E isso não se constitui defeito num filme que não pretende ser de suspense como é este. O filme conta a história que toma como retalho do pano de fundo o programa “Quem quer ser um milionário?” – versão indiana à espécie daquele “Show do Milhão” que Silvio Santos trouxe para o Brasil a partir de um modelo americano, se não estou enganado agora. Um jovem, ao disputar o prêmio milionário oferecido pela sensação da TV indiana, é acusado de fraude, pelo fato de não acharem-no capaz de responder as questões feitas. Mas claro está a apresentação de uma máxima de que nem tudo o que devemos deve-se ao conhecimento adquirido no espaço escolar ou acadêmico. Maior que este é a experiência de vida, é o conhecimento de mundo. É a larga experiência de mundo de Jamal, menino da periferia que perde a mãe ainda quando criança, que tem de se virar sozinho pelos becos das vielas da favela indiana que faz sê-lo jogador num programa que, antes de ter conhecimento formal, tem-se a necessidade ou a capacidade de se esquivar de determinadas situações postas pela própria TV que em muito se aproximam com as situações vividas na própria biografia da personagem.

No mais, pude ver o filme como representação de um grande sentimento do senso comum que cai muito bem ao refrão daquela música póstuma de Renato Russo – Quem acredita sempre alcança. Basta que sejam estabelecidas metas e com elas determinações para alcançá-las. E como estamos cercados de senso comum neste texto, outra máxima popular que cairia bem ao filme seria aquela de que o amor é capaz de mover moinhos. Digo isso porque vejo no filme, antes de ser a história de um jovem pobre de uma favela da Índia que sai para estrelar, meio que por acaso, num programa de TV e se tornar milionário, é a história de um amor, entre Jamal – o personagem principal – e sua Latika. É o que movimenta e alinhava toda a trama do filme. É o que parece dar movimento e alinhavar as histórias humanas. As grandes histórias do cinema e da Literatura – que se citem os mais comuns, no sentido de popular, Titanic; o clássico já arranhado de passar na TV Globo, A lagoa azul; O segredo de Brokeback Montain; o próprio O curioso caso de Benjamim Button, entre outros. É o que parece ter sido a grande sacada do diretor para tocar a sensibilidade da Academia de cinema. Entretanto, não foi só isso, é verdade, o material suficiente para sair como a estrela da noite no Kodak Theater em 22 de fevereiro de 2009.

Além desse compósito maior que alinhava a trama do filme, Quem quer ser um milionário? traz em si as marcas do fazer cinema na contemporaneidade sem esquecer a forma tradicional do cinema: ser uma narrativa com imagens e, para isso, substituir o excesso dos efeitos especiais pela construção da trama, dos recursos de fotografia etc. Além do que, é um o título que traz certo neorrealismo ao mostrar uma espécie de denúncia acerca do estrato humano, coisa comum noutras produções célebres como O jardineiro fiel, Cidade de Deus, Ensaio sobre a cegueira. A arte não é panfleto, mas deve encarar o espírito da denúncia ou da crítica como um exercício de reflexão sobre a realidade; é esta uma de suas contribuições possíveis à sociedade.

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