Rastros de Ódio, John Ford



A tragédia do homem branco no oeste selvagem norte-americano é traduzida em imagens memoráveis do emblemático Ethan feito por John Wayne


O cineasta Jean-Luc Godard, antes de rodar sua obra-prima Acossado, em 1959, chorou no cinema. Ele assistia a Rastros de ódio, de John Ford. E foi a atuação de John Wayne que havia emocionado aquele jovem redator da revista francesa Cahiers du Cinèma. Assim como vários outros críticos de cinema do mundo, que nos anos seguintes elegeriam este cimo um dos maiores faroestes já feitos.

Rastros de ódio mostra a desgraça de Ethan Edwards (Wayne), sulista que retorna da Guerra da Sucessão, destroçado, e tem, dias depois, sua família dizimada por uma tribo comanche, incluindo sua cunhada, Martha, que é o grande amor de sua vida. Sobra Debbie, a sobrinha raptada pelos índios. O solitário caubói irá atrás dos assassinos a fim de fazer justiça e resgatar a menina. A caçada ao chefe Cicatriz e sua tribo dura anos e nela ficam apenas Ethan e o mestiço Martin (Jeffrey Hunter), que envelhecem, trocam farpas, mas não se dobram ao mundo.

Apesar de a câmera acompanhar simpaticamente o protagonista, ficam claras a selvageria e estupidez de Ethan, um racista rancoroso que despreza os índios e questiona, a horas tantas, se é melhor, salvar ou matar Debbie, agora adolescente e já transformada numa comanche. Por meio do trajeto dos personagens da trama, John Ford oferece um grande painel sobre a tragédia da instalação dos brancos em território originalmente indígena.

Se John Wayne é a grande força desse faroeste crepuscular, é John Ford quem dá a devida relevância estética a Rastros de ódio. Ou casamento de ambos: o longa, por exemplo, não mostra nenhuma cena do brutal massacre perpetrado pelos índios, algo que será transmitido apenas pelo semblante de Jonh Wayne/Ethan quando ele avista a casa arruinada, em chamas. Ou o primeiro e último planos, filmados dentro de uma casa e com a porta emoldurando a natureza árida ao seu redor – e onde também está Ethan, personagem de um mundo pré-civilizado. É a força da imagem primorosamente enquadrada por um esteta como John Ford, nesta obra que não conta com heróis e vilões, mas homens lutando pela sobrevivência.

* Revista Bravo! 2007, p. 31

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