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Mostrando postagens de Maio, 2009

Estes cães de Saramago: notas

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1.  Uivemos, disse o cão . Com essa citação José Saramago abre seu romance Ensaio sobre a lucidez. Quando estive lendo o romance A caverna , do mesmo escritor, marquei a presença constante que o cão faz nos textos do escritor português. Cavouquei a internet a título de encontrar alguma coisa sobre e dei de cara com um artigo; dado os dias que vi não me recordo agora o nome do texto, tampouco de seu autor e também já não consegui encontrá-lo mais. 2.  Em entrevistas várias o escritor tem falado da simpatia que nutre pelos bichos. Além, é claro, de ter registros deles por toda parte de sua literatura. E a simpatia é tamanha que não se reduz aos livros, o próprio Saramago é carne e unha com alguns deles em sua casa em Lanzarote e, não só isso, já mereceu até postagem sobre eles em seu blogue, O caderno de Saramago, cujo texto copio abaixo. 3.  Pois bem, mas tomemos notas destes cães, digamos assim, literários, do escritor. O primeiro que me recordo esteve a acompanhar as person

Saramago negro

Por Pedro Fernandes 1.  Na terça-feira, 26 de maio de 2009, estive por ocasião do I Colóquio de Culturas Africanas, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, numa mesa de sessões de comunicação intitulada Navio Negreiros e coordenada pela professora Dra. Ilza Matias. Fiz uma fala em torno de uma questão, até então, creio ser inédita no campo da crítica em derredor da obra literária do escritor português José Saramago, que foi tratar a questão do negro e da África na prosa do autor. 2.  A comunicação intitulada "Do negro e das africanidades em José Saramago, o silêncio de uma prosa de inquietação" (deve ser publicada em e-book) veio por lenha na fogueira num evento cujo fulcro estava centrado nas re-afirmações de uma identidade secularmente segregada que é a do negro. Prova disso é que a maioria das sessões de comunicação que se voltava a uma literatura que trate das questões estava ela fixada em torno da obra do escritor moçambicano Mia Couto - que não e

Diário Pedagógico – página 04: A estrutura

Por Pedro Fernandes A Escola Municipal foi fundada em 1985. Registra-se a última reforma feita em 1996. Das impressões do primeiro dia de aula a que mais marcou depois daquela da aluna de rosto inerte de que falei no texto anterior foi certamente esta da estrutura. Quando escrevi no artigo Um genocídio outro, um genocídio só que havia escolas que funcionavam como verdadeiras máquinas de matar gente no sentido de serem elas campos de concentração eu me referia diretamente a esta escola em que fui professor de inglês. Estendi a metáfora a outras escolas porque sei que não se é necessário ser feito em estruturas escolares para dar conta do entendimento de que não é apenas nessa escola que se encontra a situação estrutural tal, do contrário, há certamente estruturas até piores que as que vi e vivenciei dia desses. Mas, se estou tratando da escola como campo de concentração, a sugestão que dou ao problema é hitlerista. A meu ver naquela estrutura não há nada de proveito, há mesmo de se

Algumas reflexões acerca dos momentos pós-permanentes trágicos da sociedade brasileira - Momento II: A redução da maioridade penal

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Por Pedro Fernandes Lee Ufan O alarido provocado pelo sensacionalismo midiático em torno da morte do garoto João Hélio foi tamanho que, logo em seguida, a sociedade brasileira acordou com outra discussão: a redução da maioridade penal. Não sei o porquê. Não haveria nenhum momento para essa discussão pós o fato João Hélio porque ao que me consta não havia nenhum menor no volante do carro envolvido na tragédia, apenas um jovem de dezessete anos no banco traseiro. O fato é que a carência por assuntos do tipo "sensacionalista", e esse pode se tornar se não discuti-lo com cautela, fez com que a mídia focalizasse no lado mais fraco dos envolvidos no assassinato, o menor. Falar em redução da maioridade penal no Brasil é algo que foge completamente da racionalidade nossa. O sistema penal brasileiro é bom; parece-me, pelo pouco conhecimento que tenho acerca, avançado em várias questões. O foco que deveríamos estar preocupados agora em discutir abertamente não seria redu

Pedro Bandeira, do contato que tive

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Por Pedro Fernandes 1.  No ano de 2007, paralelo a Bienal do Livro em Fortaleza (CE) houve em Aracati (interior do estado), cidade conhecida pelo rico patrimônio histórico, cultural e literário e pelas belezas naturais da Praia de Canoa Quebrada, uma edição do que na época se chamou de Festa do Livro de Aracati. No ano subsequente, ao que me parece, o encontro não foi mais realizado. Uma pena. 2. Foi na ocasião de 2007 que fiz minha primeira viagem a dita cidade e também meu contato fora do Rio Grande do Norte com esse tipo de evento. Até então só participara da Feira do Livro de Mossoró. Tive ainda o privilégio de me hospedar na casa da mãe do professor e poeta Leontino Filho, onde fui muito bem recebido e tive, posso dizer, dias de excelentes. 3.  Pela ocasião do evento tive o privilégio de assistir a palestra do escritor infanto-juvenil, sem querer por rótulos e ao mesmo tempo já rotulando, Pedro Bandeira, febre nacional entre os adolescentes por reunir no corpo de seus texto

O privado, o público e o trabalhador

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Por Pedro Fernandes Angeli Todos os textos ou pelo menos a maioria deles certamente têm algum motivo pelo qual são escritos. Evidente que, dificilmente, o autor apresenta tal e tal motivo ao seu leitor. Acho que isso é mais frequente nos textos acadêmicos, pelo fato de pedirem uma justificativa para a idéia apresentada. Tudo isso é para introduzir a exposição a que se presta este texto. Para tanto, começarei expondo o motivo que me leva a produzi-lo. Outro dia conversava com um amigo acerca de concurso público para prefeituras do interior do Estado, quando ele me sai com uma afirmativa de que jamais faria concurso para qualquer cidade que não pertencesse à zona metropolitana. E eu insisti que, hoje, pela estabilidade, as pessoas estão fazendo de tudo, inclusive se deslocar de seus lugares preferidos para lugares ermos. Depois disso, ele me rebate que isso era sensacionalismo. E emendou que o melhor é trabalhar no setor privado porque lá estão as melhores oportunidades de cr

Camões, uma nova visão sobre o amor

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Marte e Vênus. Carlo Saraceni [Diotima*] Eis, com efeito, em que consiste o ceder corretamente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar o que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo. Nesse ponto da vida, meu caro, Sócrates, se é que em outro mais, poderia o homem viver, a contemplar o próprio belo. Se algum dia o vires, não é como ouro ou como roupa que ele te parecerá ser, ou como os belos jovens adolescentes, a cuja vista ficas agora aturdido e disposto, tu como outros muitos, contanto que vejam seus amados e sempre estejam com eles, a nem comer nem beber, se de algum modo fosse possível, mas a só contemplar e estar ao seu lado. Que pensamos então que

Camões, um gênio do lirismo amoroso (parte 2)

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Cena de Camões , filme de José Leitão de Barros (1946) A lírica camoniana não se prendeu apenas em questões e nem na forma antigas. Seus sonetos, além da temática amorosa clássica, versaram sobre uma ampla temática e ensaiaram um destronamento do amor enquanto forma abstrata. Parte de seus sonetos preocupou-se em versar acerca do desconcerto do mundo. Com essa temática, o poeta procura mostrar que há um excesso de contradições e falsidade nas coisas do mundo. Aquilo que é observado pode nos levar ao equívoco e, consequentemente, ao sofrimento, uma vez que a razão não parece compreender o desconcerto do que está a sua volta. Correm turvas as águas deste rio, Que as do céu e as do monte as enturbaram. Os campos florescidos se secaram, Intratável se fez o vale, e frio. Passou o verão, passou o ardente estio, Umas coisas por outra se trocaram. Os fementidos fados já deixaram Do mundo o regimento, ou desvario. Tem o tempo sua ordem já sabida; O mundo,

Diário pedagógico – página 03: O primeiro dia aula, constatações

Por Pedro Fernandes Perguntei: What is your name? E o que dominou foi o silêncio. A aluna sentada no canto da sala, olhava para mim com o rosto nu de expressões. O ano letivo ficou acordado na reunião pedagógica para dar início em 02 de março de 2009. 02 de março de 2009 viajei ao município. A distância de aproximadamente 45 km da capital me permite em 1h30 de viagem estar no local de trabalho. Cheguei à escola às pressas. Mochila com planos de aula, livros e anotações para o que seria meu primeiro dia de aula numa escola que, como fiquei sabendo na reunião pedagógica, os alunos em sua maioria são quase ou são analfabetos e que os índices de evasão gritam. Esqueci de dizer no texto passado, quando falei desses índices, dos números de uma turma de 6º ano, mas aproveitando que toco novamente no assunto, falo agora: nesta turma de 6º ano, disseram-me, em 2008 havia 65 alunos e o ano letivo findou na média de 8 a 10 alunos apenas. Pois bem, cheguei com esses e outros números n

Camões, um gênio do lirismo amoroso (parte 1)

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Camões e as Tágides. Columbano Bordalo Pinheiro, 1894. Camões, como poeta lírico, dominou com excelência tanto as formas da medida velha como as da medida nova. Versos redondilhos ou decassílabos, sonetos, sextilhas, odes, éclogas, elegias, oitavas; em todas as formas poéticas por que se aventurou o poeta português deixou a marca de sua genialidade. Os poemas compostos pelos trovadores medievais e pelos poetas palacianos eram, como se sabe, caracterizados por utilizar os versos redondilhos – de cinco e sete sílabas métricas –, de mais fácil memorização. Também camões escreveu inúmeras redondilhas, compostas geralmente de um mote e de uma ou mais estrofes que constituíam glosas – ou voltas – a ele. Não raro lhe ofereciam motes para que glosasse. Volta a cantiga alheia Na fonte está Lianor Lavando a talha e chorando, Às amigas perguntando: – Vistes lá o meu amor? Voltas Posto o pensamento nele, Porque a tudo o amor obriga, Cantava, mas a cantiga Eram susp

Camões, cantor de seu povo e voz de seu tempo

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Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta Camões lê Os Lusíadas . António Carneiro Será difícil encontrar, em toda a história da literatura em língua portuguesa, um poeta tão magistral quanto Camões. Para que possamos conhecer melhor sua obra, preparamos esse dossiê dividido em duas partes. Veremos, em primeiro lugar, o que a crítica denomina poesia épica e, na sequência, seus poemas líricos. Camões não foi o primeiro poeta a ter a ideia de escrever um poema épico sobre a expansão portuguesa – o humanista italiano Angelo Policiano já se havia oferecido a D João II para fazê-lo –, mas foi da sua pena que nasceram os inesquecíveis versos sobre as conquistas ultramarinas de Portugal. O gênero épico, para os autores do Classicismo, traduzia-se de forma perfeita nas obras de Homero ( Ilíada e Odisseia ) e Virgílio ( Eneida ). O modelo não variava muito: esperava-se que o poema apresentasse uma disputa entre os deuses em relação ao comporta

A ronda da noite, de Agustina Bessa-Luís

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Por Carlos   Câmara  Leme 1 Quando em 2006 veio a lume A ronda da noite , não era a primeira vez que Agustina Bessa-Luís se tinha enredado, para construir os seus romances, com os claros-escuros da pintura, assim como da fotografia – Azul (Não-lugares) , álbum com um texto curto de Agustina e fotos de Luís Ferreira (Ambar, 2002). São instantâneos duma viagem a Rodes, Grécia, em 2008, aquando do primeiro Fórum Internacional para a Paz das Mulheres Criadoras do Mediterrâneo. Há o óbvio: o cruzamento entre a literatura e a fotografia, a pintura, a arquitetura, o design , a dança, ou o conjunto das artes performativas são “escritas” que se revêem, entrelaçam ou contradizem, criando entre eles vasos comunicantes e objectos em que ler/ver implica sempre uma cumplicidade. É assim com o cinema que, na obra e vida da escritora, teve decisiva importância, desde os filmes que viu deliciada, em jovem e adolescente, até ao “feliz casamento” quando se encontrou com a cinematografia

Auto-ajuda

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Praticar meditação; Escrever um diário; Anotar os sonhos; Anotar as alterações de humor: Relato de vida em sentenças; Ingressar em um grupo. Depois disso, procure a vida possivelmente ela não estará mais neste plano. * Acesse  o e-book  Palavras de pedra e cal  e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

Caderno-revista 7faces

Por Pedro Fernandes Aos leitores e transeuntes deste blog, apresento uma ideia que, para ser sincero, desde quando iniciei essa aventura na web  já varava ponta a ponta minha cabeça. Trata-se da organização de uma rede outra, esta de poetas, de todas as tendências, raças, cores, nacionalidades, temáticas, enfim do que poder caber no infinito universo da internet. Chamo esta ideia de 7faces . Pretende ser um caderno de poesia, com publicação e distribuição eletrônica, e o que é melhor, sem fins lucrativos. A seguir posto como  o escritor interessado  deve se inscrever no projeto para remeter seu material à primeira edição, programada para publicação em junho próximo. 1. Os poemas para a primeira edição deverão ser encaminhados em anexo para o e-mail pedro.letras@yahoo.com até o dia 26 de junho de 2009 . Junto com o poema o autor deve encaminhar a ficha de inscrição preenchida, declaração de autoria e um resumo biográfico. Essa documentação pode ser pedida pelo mesmo e-mail de