A ronda da noite, de Agustina Bessa-Luís

Por Carlos  Câmara Leme



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Quando em 2006 veio a lume A ronda da noite, não era a primeira vez que Agustina Bessa-Luís se tinha enredado, para construir os seus romances, com os claros-escuros da pintura, assim como da fotografia – Azul (Não-lugares), álbum com um texto curto de Agustina e fotos de Luís Ferreira (Ambar, 2002). São instantâneos duma viagem a Rodes, Grécia, em 2008, aquando do primeiro Fórum Internacional para a Paz das Mulheres Criadoras do Mediterrâneo. Há o óbvio: o cruzamento entre a literatura e a fotografia, a pintura, a arquitetura, o design, a dança, ou o conjunto das artes performativas são “escritas” que se revêem, entrelaçam ou contradizem, criando entre eles vasos comunicantes e objectos em que ler/ver implica sempre uma cumplicidade. É assim com o cinema que, na obra e vida da escritora, teve decisiva importância, desde os filmes que viu deliciada, em jovem e adolescente, até ao “feliz casamento” quando se encontrou com a cinematografia de Manoel de Oliveira, em 1981, com Francisca a partir do romance Fanny Owen.

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A primeira abordagem no território da pintura jorra no livro Longos dias têm cem anos. Presença de Vieira da Silva (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982). Agustina justificou a sua aventura romanesca como “uma admoestação e uma ironia para o preguiçoso inveterado que num século acha tempo adequado para aos seus projectos e a combinação laboriosa que os acabe”. A romancista não é dessa cepa. Maria Helena, perante a iluminação da escritora, respondeu-lhe: “A Agustina com os restos de aquela que eu não sou, ainda posso criar a irmã que não tive”. Segue-se-lhe Apocalipse de Albrecht Dürer (Guimarães Editores, 1986), em que se detém numa das três grandes séries de gravuras xilográficas, O Apocalipse. Passa por Martha Telles: o castelo onde irás e não voltarás (IN-CM, 1986), e, em 2001, confronta-se (ou encontra-se?) com As meninas (ilustrações e quadros de Paulo Rego, Três Sinais Editores), cuja segunda edição é lançada pela Guerra e Paz. Não é um combate qualquer. De tal modo que, a propósito dos desenhos grotescos da artista plástica, Agustina não se amedronta: “O desenho de Paula é uma escrita”. Um encontro entre dois universos perversos? Estão bem uma para a outra... Las but not the least, o fortíssimo encontro com Graça Morais, no álbum As metamorfoses (Dom Quixote, 2007) em que Agustina, num registo evocativo, desvenda, à luz dos trabalhos de Graça Morais, muitos segredos das suas efabulações. Duas leituras a não perder. A ronda da noite não é, portanto, terreno virgem. A Amarantina defronta-se com o celebérrimo e enigmático quadro de Rembrandt terminado em 1642, da colecção do Rijkmuseum, de Amsterdão, que tem sido objecto de várias e diferentes congeminações. Agustina está a par delas. Logo na p.81, traça o plano geral: “Se repararmos, A ronda da noite ou A companhia do Capitão Cocq, está disposta, senão amontoada em cima dumas escadas; e, nesse aspecto, o problema da atribuição de valores fica resolvido. Cada um ascende até onde lhe é possível, quer seja por mérito próprio ou condição social. Há os que não podem ultrapassar o seu grau de obscuridade; ou os que aspiram valorizar-se mediante uma filiação de partido; ou ainda os que estendem uma insígnia castrense, o casco, o fuzil, o bastão e a faixa. O rumo não estava ainda definido, muito menos o percurso. Mas arvoram já os títulos e as missões, ensaiando as posições e posando para a História que possivelmente ficaria muda a seu respeito”. E já quase a terminar o seu último sopro literário, absolutamente genial, nota na p.330, “Todos os detalhes estão ali, a posição, a riqueza, o lado vulgar e sensual; tudo isso é o impessoal do homem, e seria um erro conhecê-lo através dessas diferenças. [...] A lei não as obriga, não as oprime: são pessoas felizes, indivíduos presentes no universal que é o comum das vidas”.

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À semelhança de uma boa parte dos romances de Agustina, tudo começa no Porto, na Invicta rica, nas famílias abastadas, burguesas, pela suculenta alma dos ricos – que podem, ou até deve viver momentos de penúria para, mais tarde, se erguerem de novo e ressuscitarem. Normalmente, habitam casas grandes, têm propriedades e casas espalhadas pelos subúrbios da cidade ou no Douro. Como os Nabascos, a família que está no centro do romance, “que tinham a veia especulativa, e o primeiro olhar era avaliador” (p.232). Perguntar-se-á? Qual é o núcleo central de seu último romance? As “vivências interpessoais”, marcadas sobretudo por Martinho Nabasco, que vive até ao fim dos seus dias obcecado com A ronda da noite? A sua mulher Judite? Ou a sua avó Maria Rosa? Agustina entrecruza bissectrizes em todas as direções para simultaneamente deslindar os mistérios da tela e, simultaneamente, “pinta/escreve” – a claro e escuro, com os seus cambiantes – a ronda dos seus personagens e do modo como se encaixam, ou não, nas realidades político-sociais que a Revolução dos Cravos – um outro quadro... – trouxe para a sociedade. Emoldurados pela esfera de uma efabulação trágico-cómica, misturando uma carga de nostalgia – “noutros tempos isto já não se passava assim” –, critica sem apelo nem agravo o que a sociedade globalizada nos trouxe, um exemplo apenas: “A democracia, que na mocidade lhe parecia fácil e soalheira, acabava por despertar nele [Martinho] irritabilidade de casta que julgava com jaquetão com botões metálicos porque isto o situava na ambiguidade majestática, necessário num tempo de ambiguidades. Maria Rosa achava-o ridículo mas, se o ridículo, mata, mata muito lentamente” (p.233).

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O triângulo Martinho/Judite/Maria Rosa está marcado pela volúpia das relações entre o sexo, o erotismo e o amor, na relação/diferente homens/mulheres, temas sobre os quais Agustina escreve como ninguém (a este título só A quinta essência, de 1999, consegue superar A ronda da noite). Neste, como noutros romances, é sob o signo da feminilidade que Agustina compõe o quadro. O capítulo VI, “O Torreão Vermelho”, é a chave para compreendermos Rosa – que já na adolescência sob os calores do Verão “não trazia calcinhas e o vento da tarde lhe beijava as partes íntimas” (p.125) – e o seu neto Martinho, interrogando-se Rosa Maria ao longo do livro se ele é ou não um mutante. Um bissexual? Maria Rosa desafia-o e pergunta-lhe se ela é cruel. Mas não desarma. “Acontece com as mulheres o que acontece com o dinheiro [...]”. Martinho contrapõe: “E as mulheres cabem aí?” “Não”, responde Maria Rosa e acrescenta: “Mas entram em qualquer discurso. A inflação é isso”. Dá-lhe um conselho: “Dorme com ela [Judite], que sempre ajuda.” A seguir, vem a estocada fatal: “Isto de se julgar que as mulheres de cama têm um estilo próprio de provocar com roupas íntimas, é um engano. Com roupas íntimas não se provoca nada, elas são o contrário da excitação. O cancã sim, era excitante; libertava o cheiro a sexo com aqueles folhos e saias agitadas no ar” (p.203). Até porque, “os grandes amores são como as grandes dores, silenciosos. Só que trazem a virtude de nada serem calculados, nem sequer pressentidos”. Porquê? Porque “decorrem com sintomas que mais parecem de doença extraordinária, se não é que o amor não é uma doença das células que se renovam. E aqueles que não amam contam mais células mortas do que as outras pessoas, os amantes que amam” (p.200). Perfeito milagre da escrita, A ronda da noite foi abençoado por Deus e odiado pelo Diabo. Como Agustina, decerto aprecia.

* Este texto foi publicado primeiro na Revista Ler, de janeiro de 2009.


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