Castro Alves




Parece que os astros são anjos
[pendidos
Das frouxas neblinas da abobada azul,
Que miram, que adoram ardentes
[pendidos
A filha morena dos pampas do sul.

C. Alves


Sicambros do sol da gloria
Ergamos a fronte ao sol,
Condores, tingi as azas
Morno é o banho do arrebol.

Como bardos inspirados,
Nos solares derrocados
Cantando os guerreiros seus,
Mandemos em brados fundos,
Nossa historia aos quatro mundos
Nossa historia aos quatro céus.

Quando palpita a victoria
Do Brazil no coração,
Quebram a lousa os Andradas
P’ra ver em face a nação.

O vento canta epopéas,
Parecem fulgem idéas
No rio, no céo, no ar,
E a luz do triumpho novo
Clarêa a fronte do povo,
Do povo maior que o mar.

Quando o tempo d’entre os dedos
Colhe um sec’lo, uma nação
Encontra nomes tão grandes
Que lhes não cabem na mão.

Debalde raio impotente
Mergulha a raiva na frente
Do Prometteu. Ao cahir
De um sol a luz so revella,
Naquella face amarella
Pallida ao sol do porvir.

Assim foi... E ha tantas per’las
Tantos astros por tropheos,
Que as folhas da nossa historia
Não são historias são céos.

Já de horror prorompe um grito
D’esta bocca de granito
Do petrio monstro – Humaitá
Mas espera... A bofetada
O condor co’aza arrojada
Vai dar-t’a Lopez... Irá.

Nos pampas dormido tremes
Ao tropel da legião
Ai! Dize assim porque tremes?
Pisamos-te o coração.

– Que sombra é aquella no norte?
 Diz o Paraguay – a morte
Desce dos Andes talvez!...
Responde um grito: Desperta,
De logo e fumo coberta
A aguia da gloria é o que vês.

Silencio. Calle-se o canto
Quebre-se a Lyra ao vibrar,
O verbo das catadupas
Onde o podera encontrar?

D’esses que alteiam as frontes,
Que sotopondo mil montes
Tem no mundo um pedestal,
Cantar a gloria arrogante
Só póde o povo gigante
O povo descommunal.

(este poema foi publicado no Jornal Do Recife, n. 213, de 14 de setembro de 1865, p. 1)




A história da vida de Castro Alves não pode ser registrada apenas pelas datas e fatos que marcaram os seus 24 anos de intenso viver, de amar e sonhar sofregamente. Tem uma dimensão maior ao ponto de se dilatar o que aparentemente é apenas um breve período. Seu canto vem de longe, vem com o despertar do nativismo na sua própria Bahia do século XVII e continua belo, hoje e sempre. É que ele encarna o amor à liberdade, que caracteriza esta nação de jovens de seu tempo. De amor e luta pela liberdade. Assim tem sido feito os grandes homens. Mas, para tentar explicar Castro Alves – poeta da raça –, é preciso primeiramente colocá-lo no chão da infância e no ambiente de sua família.

A terra onde ele nasceu é uma transição de paisagens: para o oeste, os recortes azuis da serra do Aporá, demarcando uma imensidão de terras calcinadas de sol, onde medram cactos e arbustos desfolhados. É o sertão que se estende rumo ao rio São Francisco. A leste, é a paisagem das baraúnas em flor e do bom cheiro do mel nos tachos de engenhos – zona dos verdes canaviais do Recôncavo Baiano. Mas, mais que transição, é o choque. O embate entre duas culturas: a do Recôncavo, barroco e escravocrata, e a do sertão, místico e violento.

Seu pai era o médico Antonio José Alves, moço da capital da província, culto apaixonado pela carreira e amante das artes. A mãe – Clélia Brasília – uma mulher frágil, doce e linda, educada na Bahia, embora sertaneja de Curralinho e membro da poderosa família cujo chefe, o major José Antonio da Silva Castro, tornara-se famoso nas guerras da independência. E havia também uma tia – Pórcia – que fora marcada por trágico amor. E mais ainda, a sua mãe de leite, a mulata Leopoldina.

Os anos de 61 e 62 vão definir os pendores poéticos de Castro Alves. O rapazinho lia com furor os românticos franceses, sendo Victor Hugo o guia espiritual, o seu guru. Estudava também inglês para conhecer Byron. Dos nacionais se apegava a Laurindo Rabelo, Junqueira Freire, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias. E tomava gosto pelas hipérboles, pelo uso de vigorosas e belas imagens. Sentia o fascínio das alturas. Infinito, eternidade, amplidão, condor, irão povoar seus versos.



Estudar direito, para exercer a advocacia ou vir a ser promotor, juiz ou desembargador, não é bem o objetivo do jovem Antônio, mas, porque não sente vocação para a medicina, e porque detesta a matemática, não vai poder nunca ser engenheiro e porque do que gosta mesmo é poetar, então a Faculdade do Recife há de ser a porta aberta, o seu passaporte para ingresso no Parnaso.

A faculdade ficava num velho casarão da rua do Hospício. A rua dos loucos. O pai achava que José Antônio ficaria bom – tinha tiques vez em quando – convivendo com rapazes em república, numa vida alegre, saudável, descontraída. Zezinho pouco se interessava pelos estudos e nem acompanhava os colegas nas pândegas. E quando vez por outra conversava, era com os doidos do asilo.

Via, de longe, os professores metidos naquelas feias casacas que mais lembravam os bispos da Bahia. Ele também não sentia o menor interesse pelos preparatórios à faculdade. Passava os dias e as noites a jogar bilhar, a ler os seus poetas, a desenhar, a fazer versos.

Sua primeira paixão chega com a Companhia Dramática de Duarte Coimbra. Eugênia. Eugênia era uma renomada atriz. Admirável mulher de lindos olhos negros, negros como a noite. Do primeiro encontro, um roçar de vestido, é motivo suficiente para as noites de insônia


Eu tenho dentro d’alma o meu segredo
Guardado como pérola do mar,
Oculto ao mundo como a flor silvestre
Escondida no vale a vicejar.

...

Recorda-te do pobre que em silêncio
De ti fez o seu anjo de poesia,
Que tresnoita cismando em tuas graças,
Que por ti, só por ti, é que vivia,
Que tremia ao roçar do teu vestido,
E que por ti de amor era perdido...


Ao mesmo tempo acorda o poeta para a realidade. É preciso não esquecer a realidade. Nesta terra a escravidão do negro é parte da própria organização social. Um horror. Uma vergonha. O negro é peça que o senhor branco adquire para o trabalho. É como um animal para uso do senhor.

É preciso apostrafar este Pernambuco de 63, apenas interessado em vender açúcar. Voltar o látego da poesia contra os barões do engenho. É preciso compor um painel onde a infâmia fique estampada: os navios negreiros atravessando o oceano, as senzalas imundas, a mãe cativa a amamentar o filho sem futuro, os mercados de negros e o trabalho de sol a sol no eito dos engenhos, a cortar cana, a rodar moenda para espremer o caldo que se vai transformar no claro açúcar. Fortes negros como juntas de bois de canga, limária do rico senhor.

O estandarte de sua poesia


E assim está composto o painel estandarte da poesia de Castro Alves. Do período terceiro do romantismo brasileiro a poesia de Castro Alves deixa-se entrever pelas marcas da sensualidade – o que foi seus envolvimentos amorosos. E, principalmente, essa fase do condor, em prol da abolição. Esta é a mais importante da sua obra. Sua obra está organizada nas edições de Espumas flutuantes, de 1870, A cachoeira de Paulo Afonso, de 1876, Vozes d’África e O navio negreiro, de 1880, Os escravos, de 1883, além do drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, de 1875.




O poema que abre este texto foi retirado de DA SILVA, Francisco Pereira. Castro Alves. São Paulo: Editora Três, 2001 (col. A vida dos grandes brasileiros). O texto que segue até O estandarte de sua poesia foi composto de fragmentos desse mesmo livro.

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