O conformista, de Bernardo Bertolucci



Imagem pensada como pintura subverte a palheta enquanto o branco representa o horror do fascismo

A obra de Bernardo Bertolucci nasceu de um casamento entre várias artes, da literatura (seu pai Attilio, era poeta de renome) ao cinema moderno da Nouvelle Vague dos anos 1960, como maneirismos estéticos arquitetados, e que tem pelo menos três fases distintas. A primeira, a de "veneração ao pai", ou seja, ao cinema de Jean-Luc Godard e de Pier Paolo Pasolini (este, amigo dele e que o abrigou na sua primeira assistência de direção, em Accatone, de 1961), e cujo título mais marcante é Antes da revolução (1964). 

Depois veio de fase de "morte ao pai" (no caso de Godard, Pasolini e a crença no projeto político dos anos de 1960). Isso se traduz na visão ácida, acompanhada de uma estética mais carregada, em O conformista (1970). Crítica furiosa à política e à moral estabelecidas, como poucos de sua geração fizeram, é uma adaptação da obra do italiano Alberto Moravia (que também era amigo pessoal do cineasta).

Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant) é o homem do título, um professor de filosofia que, logo na juventude, é impulsionado por um desejo forte por normalidade numa sociedade violenta e perversa, a da Itália de Benito Mussolini. Encontra, então, no regime fascista uma proposta coletiva de controle social que satisfaz sua motivação pessoal. Nem tão politicamente convicto, ainda assim ele passa rapidamente a trabalhar com afinco para o governo. E logo mais terá uma missão inglória: assassinar um professor de filosofia que lhe havia dado aula no passado (Enzo Tarascio) e que agora é opositor ao regime.

Nessa visão dura e pertinente sobre o fascismo (os anos de 1920, e parece dizer o filme, dos anos 1970), Bertolucci já prescreve o que faria depois, ao mostrar no filme as várias camadas psicológicas e de acontecimentos relativos a Clerici. A violência, crua, é mostrada como numa pintura, na fotografia enevoada de Vittorio Storaro, que parece pincelar cores mortas à imagem. Sobretudo o branco, que vai tomando conta do filme no transcorrer da história, que começa no verão solar e prossegue até o inverno gelado, metáfora da derrocada do personagem e da gestão do líder italiano.

A terceira fase de Bertolucci,  a de um cinema que se coloca em risco no grande espetáculo, com em 1900 (1976) e O último imperador (1987), cedeu espaço, hoje, ao "filme pequeno" (um retorno), com obras como Beleza roubada (1996) e Os sonhadores (2003).

* Revista Bravo!, 2007, p. 44.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

José Saramago e As intermitências da morte

Visões de Joseph Conrad

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Os diários de Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #246