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Mostrando postagens de Abril, 2010

Vieira, vida, engenho e arte

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Por Pedro Fernandes O céu estrela o azul e tem grandeza. Este, que teve fama e a glória tem, Imperador da língua portuguesa, Foi-nos um céu também. Fernando Pessoa Os versos de Fernando Pessoa que epigrafam este texto já trazem em si as dimensões inabarcáveis dessa personagem magnânima, que ano passado completou exatos 400 anos de seu nascimento. Português de nacionalidade, jesuíta, Vieira foi maleável aos espaços por onde esteve, foi a personagem que a circunstância o exigia ser: professor de tupi e de retórica, missionário, diplomata, serviçal do rei, teólogo e, inclusive, padre. Viveu em terras brasileiras por exatos 42 anos, até quando da sua morte no Colégio dos Jesuítas, em Salvador, em 18 de dezembro de 1697, aos 89 anos. Sua vida é uma grande epopeia. A começar pelo tempo de vida, numa época em que viver tudo isso era sinônimo de eternidade. Personagem intrigante pela não menos intrigante rede de influências em que esteve metido, a ponto de ser condenado pe

Um fragmento de "As intermitências da morte" e dois solos de violoncelo

Eram onze horas quando a campanhia da porta tocou. Algum vizinho com problemas, pensou o violoncelista, e levantou-se para ir abri. Boas noites, disse a mulher do camarote, pisando o limiar, Boas noites, respondeu o músico, esforçando-se por dominar o espasmo que contraía a glote, Não me pede que entre, Claro que sim, faça o favor. Afastou-se para a deixar passar, fechou a porta, tudo devagar, lentamente, para que o coração não lhe explodisse. Com as pernas tremendo acompanhou-a à sala de música, com a mão que tremia indicou-lhe a cadeira. Pensei que já se tivesse ido embora, disse, Como vê, resolvi ficar, respondeu a mulher, Mas partirá amanhã, A isso me comprometi, Suponho que veio para trazer a carta, que não a rasgou, Sim, tenho-a aqui nesta bolsa, Dê-ma, então, Temos tempo, recordo ter-lhe dito que as pressas são más conselheiras, Como queira, estou ao seu dispor, Di-lo sério, é o meu maior defeito, digo tudo sério, mesmo quando faço rir, principalmente quando faço rir, Nesse cas

Afonso Bezerra

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Afonso Ligório Bezerra nasceu em 9 de junho de 1907, em Carapebas (hoje, Afonso Bezerra-RN), filho de João Batista Alves Bezerra e Maria Monteiro Bezerra. Fez os primeiros estudos onde nasceu e depois mudou-se para Natal, onde fez o secundário no Colégio Marista e no Atheneu; em 1928, ingressou na Faculdade de Direito no Recife, mas não chegou a concluir os estudos porque contraiu tuberculose e morreu vítima da doença em 8 de março de 1930. Começou a escrever publicamente tinha só 16 anos quando apresentou, na revista carioca  O Beija-Flor o conto "O orvalho"; a partir de então passou a colaborar com frequência para os jornais como A Imprensa , Diário de Natal , A República , Letras Novas  e a revista Cigarra . No curto período que esteve no Recife, colaborou com o Jornal do Recife , A Tribuna , Ilustração , Gazeta Acadêmica  e o Diário de manhã . No Rio de Janeiro, além do periódico onde estreou sua escrita teve textos editaods por jornais como  O momento   e Exc

Milan Kundera

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O nome de Milan Kundera não mais estranho ao leitor brasileiro. Sua obra tem livre circulação no país e a permanência da adaptação cinematográfica de A insustentável leveza do ser pelo cineasta Philip Kaufman no centro das obras do chamado círculo Cult, são elementos que justificam essa afirmativa. Além disso, o nome do escritor está em todas as listas de aposta para o Prêmio Nobel de Literatura, inscrevendo-o no rol dos nobelizáveis quais foram da nossa cena João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado ou Guimarães Rosa. O que isso significa? Significa que, venha o prêmio ou não, Kundera é já um dos expoentes da literatura universal. Afinal, não foi o fato dos brasileiros citados ou qualquer outro escritor que mereça a honraria algo que os destitua do lugar alcançado por sua obra. Milan Kundera é o típico escritor nascido e criado numa cultura erudita e faz dela uso na composição de uma simples na forma e profunda no conteúdo evocado. O pai Ludvik Kun

Monteiro Lobato

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Por Pedro Fernandes Monteiro Lobato não é um autor apenas de publicações infanto-juvenis como, infelizmente o mercado editorial o reduziu. Como uma das figuras que mais apostaram no livro como aparelho de renovação cultural, intelectual e frente à ignorância, é bem verdade que ele explorou (e bem!) a base necessária para a formação de uma geração de leitores. E isso tem muita importância, certamente. Só me pergunto é se, na atual conjuntura, com tantos meios concorrentes com os livros de papel, como se portaria o escritor? É uma pergunta que vem de outra curiosidade futurista: como se comportaria Fernando Pessoa, um dos criadores da revista Orpheu , marca singular no modernismo em Portugal, nos dias de hoje. Enfim, não sabemos. Podemos supor que Lobato travasse uma luta no meio virtual, mas prevemos também que pudesse combatê-lo. Que os meios virtuais podem significar como instrumentos fundamentais à educação leitora, podem. Mas, o livro impresso ainda é o veículo  que me

Dia Mundial do Livro

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Por Pedro Fernandes Nota:  as ideias aqui apresentadas são notas de um texto em elaboração, e se os jornais colaborarem, poderá aparecer sob forma acabada de texto. 1.  Pela data quero retomar aqui algumas discussões que venho travando noutros espaços acerca de uma questão um tanto quanto delicada para o estágio atual do livro: uma "massificação" (o termo é esse porque não achei outro que o valha) da obra literária. E isso começou numa comunidade no Orkut dedicada ao escritor português José Saramago em que um orkuteiro entrou para postar um link para baixar livros online e eu me manifestei contrário à ideia: "Baixar um livro que não encontramos de modo algum por aqui pode ser, mas as obras do Saramago, todas, acho um desrespeito para com o escritor... Se ainda fosse um "crepúsculo", um "lua nova", "lua cheia", "lua minguante", "lua quarto-crescente", tudo bem, é comercial, não vale nada mesmo..." Ironizei. A

Um cão andaluz, de Luis Buñuel

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A carreira do espanhol Luis Buñuel passou por várias fases distintas - a mexicana, do realismo brutal de Os esquecidos  (1950), a espanhola, de Viridiana  (1961), e a francesa, de impiedosas sátiras sobre a burguesia. Nenhuma delas, entretanto, sintetiza tão bem sua obra quanto a surrealista, que compreende os curtas Um cão andaluz  (1929) e A era do ouro  (1930). É neles que aparecem as características que levariam o espanhol a ser considerado por Alfred Hitchcock o melhor diretor de todos os tempos: o humor provocador, algo grotesco, a ironia destilada contra a hipocrisia da igreja católica. Um cão andaluz , escrito em parceria com o artista plástico Salvador Dalí e inspirado em sonhos dos dois, é o exemplo máximo da adaptação para as telas do movimento criado por André Breton. Não existe uma trama definida conduzindo o filme, apenas mergulhos no inconsciente, uma compilação não-linear de imagens aparentemente desconexas (o próprio diretor dizia que não significavam na

Entrevista a João Ubaldo Ribeiro

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O Caderno Viver do jornal Tribuna do Norte publicou hoje uma entrevista ao escritor João Ubaldo Ribeiro. Na entrevista o escritor fala do convite e de sua participação no I Encontro de Escritores de Língua Portuguesa que terá início no próximo dia 28 de abril. No mais lê-se o já despojamento do escritor que foi à sua posse na Academia de Letras de bermuda: ** A sua presença nos eventos literários em Natal havia sido cogitada em anos anteriores, o que parece não ter dado certo. O fato de ser este um encontro de representantes da literatura de Língua Portuguesa no mundo, interferiu em sua decisão? Não me lembro bem desses convites. Eu sempre estou pensando em ir a Natal, porque gosto muito de Natal. Eu e minha mulher temos uma ligação forte com a cidade. Temos muitos amigos, compadres e assim por diante. Sempre estou pensando em ir à Natal, mas dificilmente eu posso. Eu não me lembro desse último convite. Não interferiu em nada o fato de ter representantes da língua port

A maior flor do mundo, de José Saramago

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Por Pedro Fernandes Não tenho muito o que falar sobre livros para crianças. E por um motivo apenas: não fui uma criança leitora. Meus pais mal tinham condições de por comida dentro de casa, livro, então, foi sempre um produto de luxo. Além de que, semi-analfabetos, um livro nunca lhes fez nada e nunca lhes faria nada. Depois, as escolas pelas quais passei, essas é que poderiam ter me incentivado à leitura, nunca sequer souberam o que era uma biblioteca, coisa que eu só vim saber na adolescência quando fui para a cidade e entrei num cômodo velho invadido por alguns clássicos da literatura nacional e uma centena de Best-Sellers desses que já vem com um enredo pré-fabricado antes mesmo da sua composição. Os livros infantis que vim ler foram na adolescência para a fase adulta. Li poucos, é verdade. E dos poucos que li, está, por ossos do ofício, A maior flor do mundo , de José Saramago, publicado no Brasil pelo selo para publicações infantis da Companhia das Letras. A edição b

Uma iconografia de Machado de Assis

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Por Pedro Fernandes Vários nomes da nossa literatura reuniram a condição de, mais tarde, oferecer aos pesquisadores o a possibilidade de ter suas vidas reconstruídas por um itinerário feito de fotografias. Penso aqui na magistral coleção realizada pelas Edições Alumbramento que reuniu fotobiografias de gente como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge Amado, e Mário de Andrade. São livros realizados para um tempo em que a imagem se constituiu registro de memória e culto. Agora, que a foto beira à banalização pelas possibilidades digitais oferecidas, receio que se prevalecer o critério memorial ainda valha alguma coisa. Agora, se repararmos nos nomes que compõem a coleção referida acima, notaremos uma coisa, além da figura de culto. São figuras que pertencem a uma geração de consolidação dos registros fotográficos para além do estúdio; integram parte da democratização da imagem, esta que deixa de ser captar o retrato para adquirir movimento ou captar o in

As cidades invisíveis, de Italo Calvino

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Por Pedro Fernandes Algumas obras são sempre marcantes. As cidades invisíveis  está entre elas. Não consigo (talvez pela minha limitação de ainda um leitor ingênuo) captar aqueles paradigmas elegidos pelo próprio Italo Calvino em Por que ler os clássicos  (livro do qual só li a primeira parte), que possa inscrever esse título no rol do clássico. Mas, há um experimentalismo de raio fantástico  motivador para se firmar essa condição de marcante. Não apenas isso: o livro foi um dos que me serviu de porta de entrada para a obra de Calvino. Quando fui dia desses à livraria e encontrei com o progresso da reedição completa da obra do escritor italiano oferecida pela Companhia das Letras, foi que me lembrei dois importantes livros que li (além do que comento aqui, Seis propostas para o próximo milênio , numa roda de leitura que me serviu de introdução à obra de Calvino). Recentemente (isso depois de sobejar as três primeiras páginas) coloquei mais um para a lista de leituras: cham

Relendo A revolução dos bichos

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Por Christopher Hitchens  A revolução dos bichos , como escreveu seu autor mais tarde, “foi o primeiro livro em que tentei, de forma plenamente consciente, fundir intenção política e intenção artística num todo”. E certamente, suas páginas contêm uma síntese de muitos dos problemas que sempre chamamos de “orwellianos”. Entre eles, o ódio à tirania, o amor pelos animais e o campo ingleses, e uma profunda admiração pelas fábulas satíricas de Jonathan Swift. A isso pode acrescentar o desejo de Orwell de ver as coisas desde o ponto de vista da infância e da inocência dessa idade: sempre desejou ser pai e, temendo ser estéril, adotou uma criança pouco antes da morte de sua primeira companheira. O meio irônico subtítulo do romance é “Um conto de fadas”, e Orwell se sentiu satisfeito quando ouviu amigos como Malcolm Muggeridge e Sir Herbert Read lhe contar que seus próprios filhos haviam desfrutado do livro. Como grande parte de seu trabalho posterior – mais conspicuamente o mu

O mundo está gritando por Deus ou a Igreja grita por fiéis

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Por Pedro Fernandes Em artigo recente publicado no jornal Correio da Tarde o padre Matias Soares deu ao leitor sua profissão de fé. Respeito e admiro os que tem essa fé. Não consigo alcançá-la. Por que? Não sei. Defeito? Também não sei. Pode ser também uma qualidade. Depende do ângulo que você enxerga a questão. O fato é que essa crença cega - epíteto para fé - tem algumas afirmativas que carecem de ser revistas, afinal as coisas não são apenas o que parecem ser, mas são também aquilo que não parecem. Não existe absolutismo em nada. E se viver de relativismos nos tira do eixo de fixidez, problema nenhum, nunca fomos possuidores mesmo desse eixo de fixidez e a verdade não passa de uma invenção que pode no dobrar da esquina se transformar em mentira. Fazendo relações entre "uma pessoa que tem uma experiência de Fé, no sentido teológico-cristão" e "um solipsista do vazio falando sobre sua existência no mundo e para o mundo" o artigo do padre dizia em rela

Os homens preferem as loiras, de Howard Hawks

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Duas amigas, Lorelei  Lee (Marilyn Monroe) e Dorothy Shaw (Jane Russell), embarcam num cruzeiro rumo a Europa à caça de um marido rico. A loira é louca por diamantes; a morena, por músculos. Por meio da história das garotas, o filme deixa subentendido um ideal desejo de libertação feminina: nessa trama, são os homens que - movidos pelo desejo - ocupam o lugar de meros objetos, gravitando em torno das protagonistas. Em sua extensa carreira, o diretor Howard Hawks transitou entre vários gêneros, do filme de gângster ao anti-bélico, das comédias malucas aos faroestes clássicos, do noir aos épicos históricos e às fitas de aventura. Além da versatilidade, o que mais se destaca nos longas de Hawks é a presença, mesmo em universos aparentemente tão heterogêneos, de uma visão de mundo pessoal, de um olhar particular que põe em destaque os mecanismos morais que regem os homens (e as mulheres).  Foi essa unidade sobre a profusão de gêneros que levou os críticos franceses (entre os

Faz-me rir, mundo caduco (de como não se pode ler a poesia-puta de Hilda Hilst)

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Por Pedro Fernandes O reizinho gay Mudo, pintudão O reizinho gay Reinava soberano Sobre toda nação. Mas reinava... APENAS.... Pela linda peroba Que se lhe advinhava Entre as coxas grossas. Quando os doutos do reino Fizeram-lhe perguntas Como por exemplo Se um rei pintudo Teria o direito De somente por isso Ficar sempre mudo Pela primeira vez Mostrou-lhes a bronha Sem cerimônia. Foi um Oh!!! geral E desmaios e ais E doutos e senhoras Despencaram nos braços De seus aios. E de muitos maridos Sabichões e bispos Escapou-se um grito. Daí em diante Sempre que a multidão Se mostrava odiosa Com a falta de palavras Do chefe da Nação O reizinho gay Aparecia indômito Na rampa ou na sacada Com a bronha na mão. E eram ós agudos Dissidentes mudos Que se ajoelhavam Diante do mistério Desse régio falo Que de tão gigante Parecia etéreo. E foi assim que o reino Embasbacado, mudo Aquietou-se sonhando Com seu rei pintudo. Mas um dia... Acabou-se da