Morte em Veneza, de Thomas Mann

Por Pedro Fernandes

cena de Morte em Veneza, o filme baseado na novela de Thomas Mann.



Publicado em 1912, Morte em Veneza narra a história do escritor de meia-idade Gustav Aschenbach que, movido pelo desejo de viajante e, em uma viagem para Veneza, apaixona-se por um belo adolescente. A obra, entretanto, não está reduzida a isso; mais que discutir a paixão de um homem mais velho por um adolescente, Mann transforma o erotismo em questão estética - elemento de reflexão em todo correr do texto. Posso dizer mais: que em Morte em Veneza, Mann se beneficia da própria linguagem para compor uma melodia estética que é dada na própria escrita - autorreflexiva e profunda; a cada curva de um parágrafo se acenam imagens de uma plasticidade permissiva a várias leituras.

Em Thomas Mann Anatol Rosenfeld  afirma que “Aschenbach vê no jovem Tadzio [o jovem polaco por quem se apaixona] o reflexo temporal da beleza eterna, do ideal sempre perseguido e de tal modo irresistível na sua encarnação que se acha moralmente desarmado diante da imagem perfeita”. Assim, a imagem do garoto nada mais seria que uma transmutação na matéria do caráter sublime da beleza, que a arte se encarrega por eternizar. Ainda para Rosenfeld, o amor de Aschenbach por Tadzio se é dado como uma paixão narcisista, uma imagem autorreflexiva num espelho da memória, o escritor ama na beleza do menino a sua própria imagem, a própria meta espiritual, o sonho da beleza.

É verdade que o amor platônico entre as duas personagens perpassa todo texto; mas é também uma verdade que Mann burilou e tanto a linguagem, capaz de traduzir pela superfície da narrativa esse plano idealizado do amor. Tal exercício literário não é conseguido apenas através de uma objetivação da linguagem. Morte em Veneza está entre a prosa e poesia. Equilíbrio para sustentar um enredo quase inexistente e tecido à base dos volteios do olhar. Está aqui o tom erótico e sensual do texto, elementos tornados em sublimação do eu em relação ao outro.

Quanto a estrutura, gosto da unidade com que Mann constrói a narrativa. Penso aqui, por exemplo, na quantidade de figuras agourentas (o marinheiro corcunda, o capitão do navio, o velho pintado, o condutor da barca, o violeiro), que compõem uma série de sinais que preveem ao leitor sobre o destino de Gustav. É evidente que, além de antecipar traços do destino da personagem, elas são de um simbolismo revelador: demonstram, como a decrepitude e logo a impossibilidade de realização do eu pela figura desejada é quase um pesadelo, e uma fuga inevitável para Gustav, por mais que anseie o escape pela viajar e por sentir emoções nunca sentidas.

Molda-se aqui uma inquietação do próprio escritor em relação à decrepitude do mundo e a impossibilidade do artista em, por mais que deseje um triunfo do belo, de conseguir alcançar uma totalidade perdida. A relação que mantém o escritor com essa realidade se mostra como pulsão erótica. Não se sobrevive ao caos sem um instante de tesão pela vida. Inscreve-se nesse personagem binário, ora o artista em crise ora tomado pela obsessão da arte, várias possibilidades de alfinetar questões caras ao contexto da obra e tornadas ainda em formas plenamente ativas talvez desde que nos entendemos por humanidade. Eis a grandeza desse texto de Mann.

Ligações a esta post:
Mais sobre Thomas Mann, aqui.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cortázar forasteiro

Dez poetas necessários da nova literatura brasileira

Coral, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Os segredos da Senhora Wilde

Cortázar de A a Z

O que é a Literatura?, de Jean-Paul Sartre

Dez mulheres da literatura brasileira contemporânea