Fernando Pessoa por Caetano Veloso

Quase sempre é a obra da juventude de um artista a que se nutre de maior arroubo criativo; quando se diz quase é porque há artes e artistas. Mas, o dito se aplica muito bem ao trabalho de Caetano Veloso. Basta o leitor saber que o compositor esteve envolvido na base de um dos movimentos culturais autenticamente brasileiros e revolucionário para todas as artes, não só a música, onde concentra parte de sua atividade criativa.

A Tropicália é sempre definida como essa virada outra ou reaproveitamento em sua forma integral dos preceitos cunhados pelo movimento modernista de 1922, uma vez se caracteriza como uma estética mantida pela mistura de manifestações tradicionais da cultura nacional e inovações radicais que abrangem não somente a obra, mas a postura do artista ante seu público. Foi quando o compositor, nascido no seio de uma família integralmente dotada da sensibilidade artística, terá produzido o melhor de sua obra.

Em 1969, Caetano Veloso apresentou um disco solo, o seu segundo, onde reunia composições suas e de nomes como Chico Buarque, Gilberto Gil e Fernando Lobo. É nesse disco que aparece "Os argonautas". A peça, que tem sua base no mito clássico (daí o título) encontra com dois elementos da cultura ibérica: um, é o fado, ritmo que inspira a melodia; outro, é a presença histórica do português, como se um argonauta de outro tempo em busca de uma riqueza por vir.

Além do elemento melódico, Caetano se integra a fonte literária de Portugal, através da obra do poeta Fernando Pessoa. E elege o verso "Navegar é preciso; viver não é preciso" como um cerzido de culturas: agora, a clássica, a ibérica e nacional. Clássica porque reabre o sentido para o interesse daquilo que está inscrito na mitologia; ibérica, porque esse mesmo impulso do mito se reanima com os empreendimentos (fatídicos, mas não menos heroico) das Grandes Navegações; e nacional, porque reapropriado pela composição o lema adquire a força de um eterno Carpe diem muito próximo, portanto, dessa necessidade do brasileiro de, antes de tudo, curtir a vida.

Mais tarde, a intérprete Elis Regina gravou essa peça, e transformou-a num fado à brasileira:



Os Argonautas

O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração, o porto, não

Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso

O barco, noite no céu tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco, da madrugada
O porto, nada

Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso

O barco, o automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto silêncio

Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso


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