Fargo, de Joel e Ethan Coen



Em nenhum outro momento de sua carreira, o humor negro dos irmãos Joel e Ethan Coen atingiu tamanha excelência quanto no gelado Fargo, em que o equilíbrio entre o lado "sério" da dupla (Gosto de sangue, de 1984, Ajuste final, de 1990) e o cômico (Arizona nunca mais, de 1987, A roda da fortuna, de 1994) atinge solidez, sempre utilizando o fracasso como mote. 

Fargo é uma pequena cidade do meio-oeste americano, no estado de Minnesota - região definida pelos cineastas como uma "Sibéria com restaurantes familiares". Um vendedor de carros usados (William H. Macy) contrata dois pilantras (Gaer Grimsrud e o hilário Steve Buscemi) para sequestrar sua esposa, pedir o resgate ao sogro milionário e, com isso, escapar da ruína financeira. 

Por uma coincidência, acabam cruzando o caminho da grávida e impassível policial Marge Gunderson, interpretada com brilho por Frances McDormand, mulher de Joel. 

A fórmula de sarcasmo dos irmãos é acumular um grande número de absurdos, o suficiente para que o convencional acabe soando exótico e um punhado de mortes e assassinatos seja visto como fato corriqueiro.

Fargo foi indicado a sete Oscar. Venceu nas categorias Roteiro Original e Atriz (McDormand). Foi ainda um raro sucesso de público da dupla de cineastas, que já haviam levado a Palma de Ouro por Barton Fink (1991): reconhecidamente  talentosos, porém pé-frios na bilheteria. E, ao contrário do que dizem os créditos, Fargo não foi baseado em uma história verdadeira. É apenas mais uma piada dos Coen.

* Revista Bravo!, 2007, p.110 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os segredos da Senhora Wilde

Breve elogio do sexo

Dostoiévski: amor, patologia e desordem

Nenhum olhar, de José Luís Peixoto

Sylvia Plath para crianças

Amor, casais e casamentos em William Shakespeare (1)

Félix Krull e o jogo de identidades

Ler literatura pode ser literatura

Emily Brontë, 200 anos de desafio e vigência de uma autora clássica

O profeta James Baldwin