O martírio de Joana D'Arc, de Carl Theodor Dreyer



A atuação de Maria Falconetti, como mártir, é considerada uma das melhores do cinema

O cinema do dinamarquês Carl Theodor Dreyer é um dos mais singulares, inimitável e de difícil definição em razão dos vários procedimentos que ele toma para cada filme, planejando para cada trabalho um desenho de cena, um enquadramento e uma abordagem específicos, em obras menos ou mais narrativas. Ele tinha, também, um processo criativo que desprezava as regras da produção cinematográfica, fazendo o seu próprio tempo de planejamento e preparação para um longa, uma dor de cabeça para os produtores - o que muito explica as várias interrupções em sua filmografia. Apesar de ele enxergar os artistas como iluminados, até sagrados, os atores sofriam o diabo em suas mãos, numa espécie de lavagem cerebral que os fazia assumir completamente a persona do personagem. Para a atriz Maria Falconetti, que encarna a santa guerreira de O martírio de Joana D'Arc, esse foi um divisou de águas. Perturbada com a experiência, ela jamais voltaria a atuar no cinema.

O filme realmente tem em Falconetti a sua força, pois é a face da atriz, iluminada, sem maquiagem (algo raríssimo no cinema daquela época) e em ângulos inusitados, que toma a tela do cinema. Em vez de corpos se deslocando, é seu rosto que encena a história, contorcendo-se, arregalando os olhos, chorando. O relato mostra os cinco processos contra essa mulher que se acreditava santa. O tribunal da Inquisição tenta separar sua santidade da carnalidade, e, assim, dessacralizada, legitimar sua execução. Dreyer filma os poros, as rugas e suor de Joana (e de seus algozes também), acentua o lado físico, mas, com a luz branca e a câmera enquadrando de cima para baixo (como se olhasse do céu), aproxima a dor física do significado metafísico.

Dreyer, que morreu antes de concluir seu projeto mais ambicioso (filmar a vida de Jesus Cristo), enveredou por outros campos cinematográficos. Fez Vampiro (1932), seu filme menos narrativo e mais próximo da vanguarda artística que vingou na Europa dos anos 1920. Mais tarde, fez A palavra (1955), um filme mais sóbrio, mas de estética proporcionalmente radical pelo que se fazia na época.

Seu cinema influenciou, como o sueco Ingmar Bergman (Gritos e sussurros, de 1972) e o norte-americano Michel Mann, que, na pauta de O martírio de Joana D'Arc, usa só o rosto dos atores para mostrar seus sentimentos, pensamentos e verdades em Miami Vice (2006).


* Revista Bravo!, 2007, p.57


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

José Saramago e As intermitências da morte

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

Os diários de Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #246