Olympia, de Leni Riefenstahl




Registro de jogos olímpicos durante o nazismo persegue ideais de beleza e perfeição num balé de corpos em movimento na tela

A história que envolve o documentário Olympia, sobre a Olimpíada de 1936, em Munique, é, em grande parte, o relacionamento da jovem cineasta Leni Riefenstahl com o alto comando do regime nazista. Além deste filme, ela foi encarregada também da gravação de reuniões políticas do partido na Alemanha, o que resultou no impressionante O triunfo da vontade, sobre o Congresso do Partido Nazista, em Nuremberg (1934), uma das grandes peças cinematográficas de propagando política da história. Desde essa época até sua morte, em 2003, Riefenstahl foi acusada e bombardeada de perguntas sobre seu envolvimento com a cúpula de Hitler. Ela costumava responder que apenas fazia filmes para eles, apelando para conceitos discutíveis de objetividade e isenção na produção artística.

Em Olympia, obra apresentada em duas partes (Glória do Povo e Glória da beleza) não é fácil distinguir o quanto o filme é um produto da ideologia nazista ou o retrato de um evento planejado por Adolf Hitler para a afirmação dos seus valores. Os jogos olímpicos de 1936 estavam integrados à política populista do governo alemão. Hitler e seus assessores mais próximos estavam o tempo todo em cena perto dos atletas. Não seria simples produzir um filme sem que eles tivessem destaque. Poderia dizer que os pontos de vista escolhidos pela diretora não excluem as imagens das vitórias de homens e mulheres considerados não arianos.

O recorte dos fatos não foi feito pelo critério da contagem de medalhas, dos recortes ou das vitórias (embora o filme não o exclua), mas pelo critério da beleza plástica. Para o espectador, têm impacto as imagens que ignoram tal reação política, como as dos longilíneos nadadores japoneses, ou aqueles que confrontam a figura política do "patrão" Hitler, como as veias pulsando na testa de Jesse Owens, negro e norte-americano, vencedor de quatro medalhas de ouro diante de uma tribuna com diversos representantes da cúpula nazista. Os defensores da cineasta costumam apontar o close no rosto do líder alemão durante as vitórias de Owens como um dos maiores exemplos de sua isenção na direção dos documentários. Resta a dúvida se a busca da beleza e da perfeição privilegiando os corpos e as acrobacias não guarda os valores de superioridade proclamados pela ideologia dos nazistas.

* Revista Bravo!, 2007, p. 59

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Os diários de Sylvia Plath