Preencha o formulário para participar da promoção. Se você não chegou aqui pelo Facebook, não deixe de findar sua inscrição cumprindo o restante do regulamento desta promoção.

Miacontear - O homem cadente

Por Pedro Fernandes

ilustração: Nikolaus Heidelbach
Este é o segundo conto de O fio das missangas. Misto de sonho kafkiano, o conto dá contas de um fato insólito: Zuzé Neto, amigo do narrador, 'cisma' e de um hora para outra, já no início do conto, "está caindo". Vale dizer que a linguagem, nesse conto, é seu ponto de reflexão maior. Ao usar o 'caindo' como expressão de um fato e para uma forma verbal - cair - que,  pelo sentido que carrega, supostamente não lhe permite um gerúndio, o narrador acaba por ressaltar o poder demiúrgico da palavra. "Aquele gerúndio era um desmando nas graves leis da gravidade: quem cai já caiu" ¹ A palavra que rege o mundo e o constitui também é capaz de por em xeque as próprias leis fechadas das ciências exatas.

E Zuzé Neto flutua no ar, "como água real", em artes de aero-anjo". O fato é suficiente para instaurar o espaço inominado no centro dos interesses. Em torno da forma aero-angelical que se torna um evento discursivo se inaugura toda a sorte de atividades - reitera-se a balbúrdia dos discursos religiosos e políticos, reegendram-se novas assuntos para conversa dos desocupados, montam-se novas formas de comércio... E num parágrafo tudo se desfaz. O narrador assume o posto de comando da narrativa e aproveitando da atmosfera da história reduz tudo a um sonho. Quem está caindo e todo esse conglomerado que se forma em torno do acontecimento se desfaz num ponto: "ponto um ponto. Nem me alongo para não estigar engano. Pois tudo o que vos contei, o voo de Zuzé e a multidão cá em baixo, tudo isso de um sonho se tratou. Suspirado fiquemos, de alívio. A realidade é mais rasteira, feito de peso e de pés na terra." ²

O voo de Zuzé além recobrar o espaço de concretude da palavra e sua capacidade de moldar o real sensível é uma bela metáfora de que os sonhos pairam sobre a realidade rasteira e por esse fato são eles necessários ou materialidades da qual devemos, sempre que possível, tomar posse, dado o poder que tem de interferir no curso da nossas existências.


___________
¹ COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.15
² idem, p.18.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os segredos da Senhora Wilde

11 Livros que são quase pornografia

Os muitos Eliot

Uma entrevista raríssima com Cora Coralina

Além de Haruki Murakami. Onze romances da literatura japonesa que você precisa conhecer

Boletim Letras 360º #308

Boletim Letras 360º #309

As melhores leituras de 2018 na opinião dos leitores do Letras

A necessidade humana de expressão artística – parte I

Os melhores de 2018: prosa