A general, de Buster Keaton



Comediante sério, conhecido por estilo oposto ao de Chaplin, leva público ao riso com seus fracassos

Dos dois ícones da comédia muda, Charles Chaplin foi o que atingiu maior popularidade com a figura de Carlitos. Entre os cinéfilos mais fanáticos, entretanto, seu "rival" (eram amigos, na verdade) Buster Keaton é igualmente celebrado. Para alguns, inclusive, é superior a Chaplin. A verdade é que seus estilos são bem diferentes. Enquanto o ator/autor de Tempos modernos trabalha com o humor de maneira mais escrachada - carregada de mímicas e heróis que não se incomodam de rir de si mesmos -, sempre atrás de gargalhada, Keaton, formado na infância pelo trabalho no circo, raramente ri. Seus personagens se mantêm impassíveis, imóveis, sempre levam seus fracassos a sério. E por isso são tão engraçados.

A general, co-dirigido por Clyde Bruckhman e considerado por Keaton seu melhor trabalho, é baseado em uma história verdadeira, ocorrida durante a Guerra Civil Americana: apaixonado com a mesma intensidade por sua locomotiva General (daí o título) e pela encantadora Annabelle Lee (Marion Mack), o maquinista Johnny Gray (Keaton) não é aceito no alistamento dos Confederados para a batalha. Sua amada passa a considerá-lo um covarde. Ele tem a chance de provar sua valentia quando Annabelle e a General são sequestradas pelo exército da União. Johnny empreende uma perseguição de trem em busca de suas duas paixões.

Esta foi uma produção caríssima para a época, com centenas de figurantes e dublês contratados. O caprichoso diretor sonhava em utilizar a verdadeira General nas filmagens. Não conseguiu: teve de se conformar com outra locomotiva, o que para os padrões da época já era excêntrico o suficiente. Para completar, o trem era completamente destruído na passagem em que a ponte desaba - uma das cenas mais caras da era do cinema mudo.

O longa não obteve repercussão, nem de público nem de crítica. No ano seguinte, o diretor assinou um contrato com a MGM e passou a fazer filmes falados, sem nunca atingir o mesmo padrão de qualidade de sua obra durante o cinema mudo. Caiu na obscuridade, de onde saiu na década de 1950, ao estrelar ao lado do velho companheiro Charles Chaplin o tocante Luzes da ribalta (1952).

* Revista Bravo!, 2007, p.72

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