Carlos Drummond de Andrade

É verdade que relutei, não uma vez somente, a publicar uma nota ou uma linha sequer acerca do material biobliográfico do poeta Carlos Drummond de Andrade. Quando adquiri um número da extinta revista Entrelivros que trazia um dossiê sobre o poeta, pensei (na época este blogue ainda respirava muito os ares dos dossiês e das cópias de leituras minhas), pensei em digitar os textos, pelo menos um, da edição em questão. Afinal os nomes de Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto já haviam sido apresentados por aqui nesse formato. Pois bem, concluía eu um curso sobre a constituição do moderno texto poético na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e o dossiê para este blogue acabou sendo descartado. Fui dedicar a escrever o ensaio de conclusão desse curso que, adivinhem, se debruçava sobre a obra poética de Drummond.

O ensaio foi escrito e continua ainda meio que inédito ou à espera de publicação. Isto porque os anais do evento em que foi apresentado até hoje não foi publicado de fato, muito embora se diga que ainda deverá sair. O tempo dirá. Depois desse encontro com o poeta o reencontro num dos seminários no mestrado. Foi o tempo que concluí integralmente a leitura de A rosa do povo (livro sobre o qual postei uma nota aqui). Mais tarde, para ser mais exato, em março desse ano, um terceiro e quarto encontros: o primeiro com a abertura de um espaço para publicação de poesia, o versos à boca da noite. Antes, outro espaço já fora criado tomando dos ventos drummondianos, o caderno-revista 7faces. E o quarto encontro, é que recebo num sorteio de concurso o nome do poeta mineiro. Fato é que, depois de tudo isso, o leitor já terá chegado à conclusão de que, Drummond ocupa na minha vida uma dimensão importante. E é verdade. Ele e o poeta João Cabral de Melo são para mim duas referências importantes. E não venha cá bradar os chamados pós-modernistas que querem a todo custo sepultar nomes tão badalados com o desses escritores.

O fato é que, hoje, devo dizer, venceu-me a vontade de postar uma nota acerca do poeta Carlos Drummond de Andrade para que venha integrar a galeria d'os escritores deste blogue, já habitada por tantos importantes nomes. 

Carlos Drummond em seu apartamento no Rio de Janeiro. Foto de Rogério Reis. Divulgação.

Pois bem, Drummond é de Itabira. Disso sabemos. Itabira foi cantada em muitos dos poemas do poeta. Itabira é uma cidade mineira. E a data que marca o início de sua vida é o dia 31 de outubro de 1902. Veio, como muitos à sua época, de uma família de fazendeiros em decadência. Fez seus estudos em Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Neste último espaço se dá o curioso fato de expulsão do menino Carlos por "insubordinação mental". Antes que isso pareça o grande crime ou um estranho ato de rebeldia o que ele fez foi discordar de uma posição do seu professor de gramática. Mais tarde o poeta virá escrever alguns textos que refletem sobre esse ato como a crônica "Carta a uma senhora" em que o leitor se depara com uma garotinha às voltas para escolher um presente para sua mãe e tudo vem registrado numa carta composta de uma linguagem familiar que aflora como uma afronta à voz da instituição escolar representada pela sua professora.

Bem, insubordinações à parte, depois do Rio, Drummond volta a Belo Horizonte. E de então dá início sua carreira de escritor. Carreira que se inicia como a da maioria dos escritores brasileiros, como colaborador para o jornal Diário de Minas. Mas não diplomou-se escritor. Não há, pelo que sabemos, na época, cursos preparatórios para escritor, como hoje têm se alastrado. Diplomou-se, sim, como farmacêutico. E em Ouro Preto, 1925. Pela época fundou A revista, periódico que já trazia a marca da brevidade dos periódicos modernistas. Durou poucos números mas foi um importante veículo de afirmação do modernismo no estado mineiro. Também pela época Drummond ingressou no serviço público. E nele fará toda sua vida. Conduzindo a escrita como um ofício paralelo ao trabalho oficial. 

De novo no Rio foi chefe de gabinete do governo Capanema, ministro da Educação, servidor no Patrimônio Histórico Artístico Nacional, pelo qual se aposentou em 1962. A condição de funcionário público permitirá ao poeta a composição de um cenário do comum, do prosaico, seja para os seus textos poéticos, seja para os da prosa. Como exímio cronista que também foi, Drummond colaborou com importantes jornais, como o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil.

Seu primeiro livro vem a lume financiado com recursos próprios em 1930. É o Alguma poesia. Depois, em 1934, vem Brejo das almas; outros mais importantes da sua poética, Sentimento do mundo, 1940, José, 1942, e A rosa do povo, 1945. Este último obra-prima da sua carreira de poeta por condensar o encontro da história contemporânea e da experiência pessoal e coletiva como materiais temáticos para sua composição.

Drummond também traduziu importantes autores, como Balzac, Marcel Proust, Federico García Lorca e Molière. Bem como compôs uma extensa obra em prosa e textos para a literatura infantil. Deixou inéditos que foram publicados postumamente pela Editora Record: O avesso das coisas, 1987, Moça deitada na grama, 1987, O amor natural, 1982, e Farewell, 1996. Em breve, a Cosac Naify trará Os 25 poemas da triste alegria, outro inédito do autor. O escritor morreu no Rio, em agosto de 1987.

Ligações a esta post:
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