Camilo Pessanha




O texto mais significativo de crítica literária que li sobre o poeta português Camilo Pessanha é da Leyla Perrone-Moisés e está no livro Inútil poesia e outros ensaios breves, “Camilo Pessanha e as miragens do nada”. Depois dei com a edição de Clepsidra – única obra de Camilo – que no Brasil foi reeditada numa edição promocional da Ateliê Editorial organizada pelo professor Paulo Franchetti que assina também um ensaio crítico e notas explicativas ao longo do livro. Tive interesse, logo, em comentar sobre o autor por aqui. Mas, acossado ainda pelo texto da Leyla, achei por bem não tocar no assunto. Agora, descubro que a Biblioteca Nacional de Portugal ao modo do que fez a outros escritores também disponibilizou na web uma página com informações sobre Camilo Pessanha e seu espólio. Incentivado por tanto aparato textual arrisco essas notas, que mais que informativas são caminhos para uma apropriação da leitura da obra do poeta.

O espólio de Camilo Pessanha dispersou-se por volta de 1926, quando da sua morte. Segundo Daniel Pires, quem assina o texto de apresentação da ideia da BNP, “sabe-se que João Manuel Pessanha, dias depois do óbito do pai, iniciou a venda dos objectos de arte chinesa que o poeta naquele ano não doara <...> No que particularmente concerne aos seus manuscritos, a avaliar pelo depoimento de Sebastião da Costa, que visitou o poeta dois anos antes do seu falecimento e testemunhou o seu quotidiano caótico e a sua incúria, sofreram a usura do tempo e do acaso, sendo de lamentar o desaparecimento, por exemplo, da correspondência de Ana de Castro Osório, de Wenceslau de Moraes, quiçá do primeiro Presidente da República chinesa, Sun-Yat-Sen, com quem o poeta aparece em pelo menos duas fotografias, bem como aquela que se prendia com a sua actividade no seio da Maçonaria. Os poucos manuscritos que resistiram à insensibilidade de João Manuel Pessanha foram recolhidos em 1931, na sequência da sua chegada a Macau, por Danilo Barreiros”.

Aventuras de pesquisadores à parte, que isto poderão ler quando forem à página criada pela BNP, o que faz o difícil acesso ou mesmo a impossibilidade de acesso a integralidade da obra de Camilo Pessanha se atribui a várias questões: uma parece ser o fato de que o poeta não era muito afeito ao que produzia, outra é que também os familiares não fizeram muito caso de juntar aquilo que não foi consumido pelo tempo ainda em vida do escritor.

Camilo passou boa parte de sua vida em Macau, porto chinês que esteve sob domínio português até 1999, e lá, desempenhou varias atividades públicas importantes. Influenciado por outros do seu tempo o poeta contrai o vício do ópio. Envolve-se com sua governanta e com ela, tem um filho. O desregramento e o consumo do ópio adicionado a já frágil saúde do poeta que há certo tempo já contraíra tuberculose reduziu-lhe à miséria até sua morte.

Tido pela crítica como o maior poeta do simbolismo português uma vez que sua obra se marca pela irresolução de ambiguidades, alusões difusas e pela sonoridade musical. E, insere-se como autor até então inédito no movimento porque diferentemente de outros simbolistas, Camilo Pessanha não nutriu simpatia pela sensibilidade romântica, ainda que em alguns poemas, tal sensibilidade se faça aí presente.

Os primeiros poemas de Clepsidra viram a lume quando por influência de Ana de Castro Osório, “mulher eleita pelo escritor para partilhar a sua vida havendo correspondência entre ambos relativa a um pedido de casamento que foi declinado em 1893”, em 1916, na revista Centauro. Quatro anos mais, a obra tinha sua primeira edição de Clepsidra publicada quase que à revelia do próprio autor já que a recolha de mais de 98% dos poemas aí publicados foi procedida por Ana de Castro. Em edições posteriores o filho de Ana acrescentou algumas recolhas que conseguiu ao seu tempo salvá-las.

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