Fernando Pessoa desfigurado*



Fernando Pessoa. Pintura de Julio Pomar

Todo e qualquer estudo – grande ou pequeno – está suscetível a erros. Ainda mais se o pesquisador for um tanto ganancioso e confiar plenamente nas suas suposições. É sabido que suposições e mentiras quando lapidadas ao extremo volta-se para o seu mentor e passa a atuar como verdade e, pronto, o desastre, depois disso, poderá está feito.

Quando saiu por aqui o catatau Fernando Pessoa – uma quase autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho, ainda o peguei nas mãos com afoito interesse em comprá-lo. O preço, entretanto, me fez recuar. Depois, estive lendo algumas críticas em que o próprio autor proclamava não sei quantos heterônimos, a revelação de que Fernando Pessoa havia sido homossexual, pelo menos até certo tempo de sua vida e depois havia desistido da ideia; nunca praticou sexo com outros homens, mas algumas atitudes, como patrocinar com próprio custo a edição de materiais de amigos seus homossexuais, como António Botto e Mário de Sá-Carneiro – o primeiro, gay assumido – e ainda um dos heterônimos, tudo atestaria isto. E outra, a mais cri-cri e, supostamente atribuída a António Botto, a de que Fernando Pessoa teria um pênis muito pequeno, o que lhe afastou do envolvimento com mulheres: E toda essa fofoca de beira de esquina que andou correndo os jornais e revistas do Brasil inteiro se complementam com uma entrevista embaraçosa que vi com o próprio na emissora portuguesa RTP, por esses dias. Bastam! O disse-me-disse de Cavalcanti Filho extrapola o âmbito do biográfico, do autobiográfico (pretenso título para o arremedo de obra que produziu) e não tem nada de crítica fundamentada que dê para lê-lo seriamente. O lado fanático do autor cumpre o interesse de reduzir a figura idolatrada ao nível mais baixo possível para que ele então prevaleça sobre a imagem do poeta. E isso é, no mínimo, atitude merecedora de reprovação.

Agora, Teresa Rita Lopes num texto de lucidez impecável publicado no dia 27 de maio no caderno português Ípsilon dispõe o livro de José Paulo Cavalcanti Filho no lugar que ele realmente pertence: um calhamaço de besteiras que nunca deveria ter saído das gavetas de seu autor. Rita Lopes foi professora na Sorbonne e lá defendeu a tese de doutorado Fernando Pessoa et le drame symboliste – héritage et création, nos idos de 1975; desde 1981, tornou-se professora catedrática de literatura comparada na Universidade de Nova Lisboa, onde dirige o Instituto de Estudos sobre o Modernismo. Ensaísta, poeta e teatróloga premiada, ela trabalha sobre Fernando Pessoa num grupo de estudos fundado desde 1964, tendo publicado vários estudos e textos inéditos do poeta português em França, Portugal e Brasil.

Em torno do sucesso estrondoso que o livro de Cavalcanti Filho tem causado em Portugal, onde foi lançado recentemente, Rita logo pergunta – “Os que aplaudem, leram? As 710 páginas? Eu li. Quantos desses poderão silabar estas 4 letras?” E acresce: “Como tantos falam de Pessoa dele sabendo tão pouco, este ‘simples guia para não iniciados’ (p.13) arrisca-se a modelar o saber de incautos e incultos leitores” – passando discorrer sobre as falácias do livro em questão: Fernando Pessoa, apesar dos problemas com alcoolismo no fim da vida, nunca teria se deixado reduzir pelo “deprimente retrato do bêbado louco megalômano, aspirante a Prêmio Nobel”;  a extensa lista de heterônimos é falsa – “não sabe o que heterónimos quer dizer: Fernando Pessoa, Fernando António e F. Nogueira Pessoa contam na lista como 3 heterónimos! Na sua sôfrega caça ... até contabiliza assinaturas casuais em livros ou papéis soltos ... Outro erro é listar pseudónimos ocasionais, que P. [Pessoa] inventou às dezenas ... pseudónimos de charadistas ... nomes casuais ... personagens de ficção ... amigos imaginários de infância de que não há rasto escrito ... pessoas reais”. Para Rita Lopes “este livro é uma montagem de textos pescados a esmo, de P. e seus ‘outros’, mas sem atribuição, tudo misturado com a prosa de B. [biógrafo] que quis – e ingenuamente o declara – imitar o estilo de P. Aqui e ali introduziu, sempre sem dar o seu a seu dono, afirmações alheias. Ficamos assim a braços com uma tremenda amálgama de citações – estropiando, inúmeras vezes, não só palavras, mas frases inteiras. Resulta um ‘coquitéu’ ... com pedaços de poemas , que cita como prosa e mistura com outras prosas que não diz de quem são.”

Alguém de nome como o autor pernambucano e de dinheiro como ele que se aventura a compor um rito de basbaquices deve ter uma obra do tipo redefinida: um calhamaço de fofocas gratuitas. A pergunta é, como uma editora se aventura a publicar isso ao redor do mundo? E a resposta vem fácil. As editoras estão todas sanguessugas, sedentas por sangue-dinheiro e têm gosto acurado pela frivolidade. Acho que tomei a atitude certa em economizar quase R$80 por um livro que não me agregaria em nada.




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* texto publicado no dia 24 de junho, no caderno DOMINGO, do Jornal De Fato.




 

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