Crimes e pecados, de Woody Allen



O cineasta consegue tocar em assuntos fortes, passando longe do humor, mas sem perder a levez de suas grandes comédias

Fanático por Ingmar Bergman, Woody Allen sempre sonhou em fazer dramas profundos na linha do cineasta sueco. A primeira tentativa, não muito convincente, foi com Interiores (1978), em que deixava de lado a ironia predominantemente em seus trabalhos anteriores. No final da década de 1980, o diretor voltou a se arriscar em territórios bergmanianos e os resultados foram os fracos Setembro (1987) e A outra (1988). Mas com Crimes e pecados ele acertou no tom: a mistura de drama e humor, em histórias alternadas. De um lado, o correto oftalmologista Judah Rosenthal (Martin Landau) se vê na obrigação de pedir ao próprio irmão que mate sua amante de longa data, Dolores (Anjelica Huston). De outro, Cliff Stern (Allen), um cineasta fracassado obrigado a dirigir um documentário sobre seu cunhado famoso e egocêntrico, Lester (Alan Alda), apaixona-se por uma produtora (Mia Farrow), que se envolve com o tal cunhado.

O dilema de Judah Rosenthal, após o assassinato da amante, ganha traços filosóficos e existencialistas, com clara influência de Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski. Como Raskolnikov, Rosenthal se questiona onde está Deus, que não o puniu pelo crime brutal que cometeu. Allen é até mais pessimista que o romancista russo, que oferece o arrependimento e a redenção a seu herói. Judah, em seu desencantado monólogo final, chega à conclusão de que o importante é continuar a viver, deixando de lado a culpa. A visão ateia e humanista do filme se completa com a percepção de mundo do professor Levy, sobre quem o personagem de Woody Allen planeja fazer um documentário. "Somos feitos das nossas escolhas morais, independentes de Deus", diz ele. Esse lado sombrio é contraposto com o bom humor da trama paralela. Seu personagem é cheio das sacadas tipicas do diretor - "A última vez que estive dentro de uma mulher foi quando estive na Estátua da Liberdade". E sempre que Alan Alda entra em cena é garantia de gargalhadas. Seu Lester é um dos personagens mais completos que Allen já escreveu.

Maduro e amargo, Crimes e pecados foi indicado a três Oscar, mas não levou nenhum. Allen revisitou, com sucesso, temas semelhantes no recente Ponto final (2005).

*Revista Bravo!, 2007, p.88.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

José Saramago e As intermitências da morte

Visões de Joseph Conrad

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Não adianta morrer, de Francisco Maciel

Os diários de Sylvia Plath