Crônica de um leitor de O jogo da amarelinha (2)

por Juan Cruz Ruíz



Em seu livro Los nuestros (sem tradução no Brasil), que é a bíblia maior do boom latino-americano, Luis Harss explica seu encontro com Julio Cortázar, que o havia deixado maravilhado com O jogo da amarelinha. Harss publicou sua coleção de entrevistas e encontros (com Guimarães Rosa, com Borges, com García Márquez, com Carlos Fuentes, com Mario Vargas Llosa, com Onetti, com Cortázar...) em 1966, três anos depois que havia aparecido o livro mais importante da bibliografia de quase um autêntico argentino (Harss nasceu no Chile, mas se criou em Buenos Aires, como Clarín nasceu em Zamora). Esse livro insuperável, mítico e até um ano depois quase que não encontrável foi publicado outra vez pela Alfaguara, e é de novo um gozo mergulhar nele para redescobrir, por exemplo, que exaltação espanhola rayuelita (a palavra é de Harss) que todos os leitores dessa novela encontro em nós em muitos casos até agora. Todos os ruyelitas quisemos viver dentre desse livro e Harss desfrutou da circunstancia de dizer isso diretamente ao seu autor.

Na reedição de Los nuestros Luis Harss conta que ele mesmo quis ser Cortázar, que “esperava reconhecer-me no seu olhar”. Não havia visto nenhuma foto sua, acredita, assim que não lhe colocava nenhuma cara... “E me surpreendeu... Era um ruivo pálido, magro, sardento, quase sem pelos”. Tinha “algo de professora de província que havia sido, esses professores que à noite escapam para ser poetas. E algo também desse transeunte secreto de corredores que era na UNESCO, onde trabalhava como tradutor. Era de uma amabilidade que colocava distância. (...) Um expatriado de alma, que era outra maneira de ser argentino”.

Como disse Harss, nesse momento Cortázar já era “uma figura na imaginação da gente”. Todos queríamos ser como ele, falar como ele, caminhar com suas personagens, e acreditávamos, além disso, que a literatura tinha outros modos de fazer-se, mas que ninguém podia ser melhor que aquela que havia sido abordada por Cortázar. Nos propúnhamos à literatura, como em O jogo da amarelinha, e precisamente disso fala Harss com Cortázar, como uma consequência da vida e também como a vida mesma, sem palavras ou somente com as palavras que escutávamos em nossas varandas escuras em que ocorriam acontecimentos estranhos como os que sonhávamos como se vivêssemos no tempo que nos contava Cortázar. Como se a nossa leitura sucedesse o livro e este não existisse antes de tê-lo nas mãos.

Esta conversa de Harss com Julio Cortázar é, mais que provavelmente, a mais literária do livro; parece um paradoxo, mas não é: é também, a mais experiente do livro, a que a substância maior da vida é a palavra. Em algum momento Cortázar lhe diz que em seus livros anteriores (Bestiário, As armas secretas) ele não havia chegado ainda à alma humana, ao osso mesmo da vida, e que isso começou a ocorrer em Os prêmios e terminou de acontecer em O jogo da amarelinha. A vida, a liberdade e o humor, esses são ingredientes máximos do romance; os percebeu Harss e dele falaram. A princípio, nessa conversa, Julio foi o homem tímido que seu entrevistador descreve; como se entre eles dois começasse um combate de tímidos, um vai seguindo o discurso do outro com quem dança num arame (ou numa mesa sobre a qual Oliveira vê vir o vazio, a mulher que lhe traz os objetos de que precisa para sua obra doméstica), dois seres humanos que foram escalados para explicar O jogo da amarelinha como se este livro fosse um ser humano.

“Me dei conta”, diz Harss, “que nos habitava a todos”. Julio nos habitava a todos, Cortázar nos fazia escrever a todos, todos nós bailávamos, sentíamos, caminhávamos para imitar os passos da amarelinha. Inaugurou essa saga da bailarinos, Luis Harss; ele comprovou um elemento que não tem porque está no livro de Cortázar, mas que se insinua aí e é evidente nas cartas que agora seriam lidas para ter as chaves de como se fez o boom: Cortázar se alegrava dos prêmios internacionais, sugeria os nomes de outros para que não apenas Harss os fosse buscar, mas que abria caminho aos que ele considerava merecedores de figurar na história literária, não fechou portas nem entradas, nem deixou ninguém de fora. E, além disso, havia escrito um livro que pôs a respirar todos os rayuelitas. Agora há que agradecer ao grande Harss, autor da melhor reportagem que mereceu Cortázar.

Abaixo, deixamos um trecho do texto sobre Cortázar em Los nuestros, de Luis Harss, Editora Alfaguara.




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