Óxido, de Gastão Cruz (Parte II)

Por Pedro Belo Clara 



O segundo capítulo da obra cuja discussão deixámos em aberto na anterior publicação (ver o final desta post), traz em seu prelúdio elementos antes abordados pelo autor. Embora logo os dilua, lentamente, poema após poema, sem que o capítulo termine antes de revelar o seu real teor.

Denominado A VIDA DOS METAIS, abre com o poema “Um nome”, aquele que irá resolver a questão que em si mesmo embala – resgatada a poemas anteriores, como atrás confidenciámos:

Chamar é um erro: que
nome
dar a alguém senão ninguém?

Porém um nome é tudo o que subsiste
(…)

Torna-se difícil calar a sensação de que o tempo espraiado pelos textos poéticos apresentados é um tempo árido onde um certo metal (coração?) oxida. Ou, pelas palavras do próprio autor, um tempo «onde nenhuma vida / ou morte sobrevive» (“Thriller”). No entanto, importa sublinhar as impressões que “Corda”, mantendo a mesma linha de pensamento, nos lega a respeito do ser e de sua nomeação:

Ninguém tem nome: apenas uma escura
corda de sons que prende o corpo e deixa
queimaduras na pele, esse é o preço
de ser nomeado porque o chamamento

de cada vez se torna mais ardente
até ser casa ou roupa ou outra pele
(…)

Conseguimos assim descortinar, se o olhar estiver devidamente afinado, certas assumpções implícitas nestes versos que outrora, na anterior publicação, havíamos destacado. Contudo, não deixa de ser credível uma linha de raciocínio que defende uma preservação do mais íntimo do homem, aquilo que na verdade é («ninguém»), ainda que manchado pelo peso do nome: «o preço / de ser nomeado». Leva-nos este vazio para uma razão de absoluto? Será uma questão sem resposta à altura.

A partir deste momento de leitura começaremos a assistir à lenta diluição dos temas que tão fortemente marcaram os três poemas de abertura do capítulo, indo desembocar numa pura evocação de juventude.

O poema “Metais” anunciará de modo algo obscuro o que se poderá deixar adivinhar de forma mais aberta páginas adiante ao expor a dúvida do poeta: «Não sei se o ouro oxida». Embora o dito poema também se entenda como um dos centrais a toda a obra: não só pelo nome que ostenta e a sua relação com a epígrafe do trabalho, como pela própria exploração do tema e principalmente pela definição dos metais tantas vezes invocados, o que poderá revelar o porquê de certas escolhas: «extintos astros todavia vivos / num tempo agora inútil». Contudo, há lugar para a resignação: «a vida dos metais é um enigma».

É então neste clima de antecâmara («alguns fantasmas ardem na penumbra», “Num bar”) que chegamos a “Exercícios de morte”. Apesar da evocação antes revelada, cria-se uma atmosfera de desolação donde se exalam aromas de desprendimento em relação à existência que começa a ser encarada quase como uma pena a ser cumprida. Nos primeiros versos, contudo, ainda se denota a inocência dos tempos juvenis:

Corríamos perigo e não sabíamos
corrê-lo: cada noite era um oceano
em que nadar causava maior dano
ao acto de viver (…)

Mas não significará isso que toda a luz sucumbirá diante do avanço das sombras, filhas de uma noite inevitável: «Quase tinha esquecido a primavera». Ainda que, versos adiante, o autor esclareça a contrapartida dessa salvação chamada esperança: «quem a espera / está mais perdido que ela» (“Mudança”). Essa «infinda perplexidade», porém redentora, é a estrela nesse céu enegrecido pelo passar do tempo. Os anos colecionados e a aproximação dum grande abismo denominado morte adensam a textura dos poemas seguintes. Mas não serão neles exclusivos tais veios temáticos. Compreenderemos, de seguida, como há igualmente uma tentação em questionar o passado e uma tentativa de lidar com a eterna e frustrante dualidade de sempre: o que foi e o que poderia ter sido. 

Esta continuará por mais algumas páginas, mas não sem antes chegar à sua própria solução («começo a procurar o sinal do silêncio», “Há muito”). A mesma, em prelúdio dada no poema “O mar em agosto”, datado do dia 15 desse mês do ano 2014, aquele que no seu seio embala a mais fulcral das questões («Poderia ter sido diferente?»), define-se pela aceitação do que foi e pela ancoragem daquilo que é, independentemente do que seja. Vejamos os excertos que o sugerem:

O passado não tem alternativa
(…)

Está selado o passado,
agora é só agora (…)

Em “Incursão” tem este pensamento o seu término, ao qual se lhe anexa uma nova ideia: os sonhos. Com maior ou menor ilusão, pois bem sabemos como os sonhos disso se podem facilmente impregnar, são tidos no poema não propriamente como uma nova salvação, mas como um brilho adicional à existência humana – capaz até de a limpar de um extenso acumular de mágoas, de lhe conferir outros sentidos, de lhe conceder diferentes justificações: «Somente os sonhos podem transformar / o passado». No entanto, a questão impor-se-á: prefere-se a ilusão à realidade, ainda que todo o sonho seja desenhado em moldes verosímeis? Mesmo sendo retórica a pergunta, só cada Homem por si poderá encontrar a resposta que intimamente lhe satisfaça.

Assim se desenrolará a vida humana, de pergunta em pergunta, como extenso novelo que ninguém, nem aquele que segura o fio em suas mãos, sabe ao certo em que tempo, lugar ou circunstância encontrará o seu fim. Independentemente da dúvida, será aí que o indivíduo se verá diante do derradeiro (e também o mais incógnito) dos desafios, ou seja, o encontro com a morte – como o poema “O jogo” nos quer sugerir:

Um dia um jogador virá jogar
comigo um jogo que não sei jogar

Terminado este capítulo, logo um outro se anuncia. De nome CAMPO, trata-se de um conjunto de seis breves poemas numerados e sem título, fazendo desta parte da obra a mais diminuta em extensão.

Sobre o conteúdo propriamente dito, teremos diante de nós poemas onde diversas imagens ressurgidas de um passado distante se irão cristalizar num processo lento de evocação. Dadas as referências que são passíveis de se identificarem em determinados versos, e ao imaginário único que sugerem, compreendemos que este capítulo nos remete para a infância do autor no seu Algarve natal: o forno do pão onde «alguma coisa mais crescia e se formava: (…) uma alma que era só corpo ameaçado», o «pó da palha» que «travava a respiração», o armazém que dava guarida a alfarrobas e amêndoas já colhidas, a açoteia onde «secavam figos», entre muitos outros. Tempo e espaço serão condignamente reevocados com o pormenor exigido.

Deixámos para o fim os derradeiros versos do último poema deste capítulo, não só pela sua essência conclusiva para toda a enumeração de retalhos doutros dias, quase consumidos nos fornos das estações, como pela ideia a eles adjacente: a vida está à partida condenada ao abandono. Na verdade, em cada nascimento há um princípio de morte. Não excluindo a evidência do caso, é bela a forma como o autor trata neste poema a implacabilidade da dita questão:

era a vida da casa, e em torno da
nora como um compasso árduo
os animais traçavam uma curva,
o futuro fechando nesse círculo instável

E assim chegamos ao último capítulo da obra em discussão, de nome ADEN. É provável que para muitos leitores o título não desperte qualquer recordação, mas veremos muito em breve como o mesmo serve uma breve homenagem, se assim lida, ao príncipe dos poetas malditos: o famigerado Arthur Rimbaud. Pois Aden foi um dos lugares onde o poeta se instalou durante o seu longo exílio de França, o «rochedo terrível» como o próprio o descrevera numa carta datada de 1880. À época sob domínio britânico, Aden é uma cidade do actual Iémen – que acolheu Rimbaud antes da sua estadia em Harar, na Etiópia, onde se tornaria comerciante de café e de armas.

É notória a preferência pessoal de Gastão Cruz pelo poeta francês. Não só todos os onze poemas do capítulo estão encabeçados por excertos de cartas de Rimbaud (a última de 1891, meses antes a sua morte), de cujos assuntos se faz a raiz de cada poema apresentado, como no trabalho de abertura, “O rochedo”, até apoia em gesto compassivo a sua decisão de partida. Ambos os poetas quase se tornam numa só força convergente em ideia, intenção e sentido, embora a essência do poema surja de uma opinião já formulada de modo idêntico por René Char, a qual também acompanha o poema em jeito de inscrição.

Para aqueles que conhecem a história, Rimbaud terá iniciado o seu período mais frenético de viagens quando se separou de Paul Verlain, com quem nutriu uma relação amorosa intensa e tempestiva, após a qual terá decido parar de escrever. É a essa desistência que o começo do poema faz referência:

Fizeste bem em ir, arthur rimbaud:
a morte da linguagem era uma
condenação decerto insuportável

A aridez do lugar que escolhera mescla-se no mesmo deserto que o poeta português consegue compreender no espírito do seu homólogo francês. Coincidência ou não, a escolha parece ter sido propositada. E acrescenta, como quem revela:

fizeste bem em ir-te
embora, e não dizer mais nada:
já não era possível
esperar a esperança, acreditar
(…)
(…) que a vida cansada melhorasse

O sentimento imbuído em tais poemas é em tudo semelhante àquele que polvilhou outros ao longo da obra, conferindo um total direito (e sentido) à inserção de um capítulo tecido em tais modos num livro escrito pelos parâmetros discutidos e com a natureza já descrita. Comprovam-no os versos iniciais de “A fadiga”: «Nada me prende à vida / e se vivo, só vivo de fadiga».

O poema “A língua da europa” assume na sua vez uma dimensão deveras interessante dado o questionar que em si alimenta. E não se trata de colocar em causa banalidades ou eventos do quotidiano de um indivíduo, antes a razão de tanta viagem levada a cabo com traços de carácter fugitivo. O excerto da carta de Rimbaud que acompanha o poema é já de 1883, quando o poeta se encontrava em Harar, e a dúvida que os versos expõem relembra a perda que tais actos comportam. Vejamos:

De que servem idas
e vindas aventuras e fadigas
(…)
(…) correndo atrás
duma empresa longínqua
perdendo cada dia
o gosto pelo clima os modos de viver
e até a língua da europa fria

Curioso, o apontamento: demasiadas viagens tendem a fazer o Homem a desenraizar-se, a diluir-se no mundo e assim esquecer os contornos do berço que, bem ou mal, o amparou.

Podemos ver como os poemas de Gastão assumem reflexões nascidas da leitura de certas passagens das já referidas missivas. Ganhamos uma sensação bastante interessante, enquanto leitores, de assistir a uma conversa tecida por suas vivas vozes, ainda que uma ecoe mais distante nos túneis do tempo. Mas a escrita tem o condão de preservar o discurso, bem se vê.

Retomando a linha de pensamento que parece guiar o leitor e unir os poemas do capítulo, vamos recolhendo indícios sobre a inutilidade da vida material, a sua aridez, os seus incontáveis conflitos sem propósito aparente, o seu enorme manancial de existência que ao Homem parece sempre um sopro tremendo ao qual nunca soube que forma dar. Poderemos sublinhar os últimos versos do “Aden, Harar” – «o que faremos / se nem sequer estar vivos sabemos» – , aqueles que abrem o “Não viemos aqui para ser felizes” – «A evidência é que viver desune / o tecido da esperança» – ou a terrível fatalidade de “Por fim” – «Por fim tocamos só areia e lavas».

Como tem sido habitual, poucos pensamentos, por mais que a sua teia se prolongue, são propostos sem a devida solução ou válido caminho (um entre muitos, claro está). Ou seja, não deixa de irromper uma manhã para cada noite que se convoca. Aqui, é o poema “O movimento” que vem firmar a luz da elucidação: «Começo a entender a importância / de deslocar-me nos caminhos / naturais». Curiosa, uma vez mais, a constatação, dado certas reacções obtidas de poemas anteriores. Mas a revelação torna-se mais forte, talvez por intenso ser igualmente o medo do fim, ou melhor, da morte antes do fim (lembra-se o caro leitor do que referimos sobre os primeiros poemas deste livro?). Daí a defesa da realização: «a vida é a liberdade / de usar o corpo».    

Poderíamos pensar findo o livro neste momento. Mas equivocar-nos-íamos. Anuncia-se ainda “Existir”, um poema de fundas considerações. É aqui que o pedaço da carta de Rimbaud data de meros meses antes de sua morte, fragmentos que dão azo às inquietações do poeta simbolista. É ele, inclusive, que formula as questões sobre as quais o poema de Gastão versa. Referindo-se à vida humana como uma «miséria sem fim», questiona a sua própria existência – respectivas razões e finalidades, claro.

É igualmente desse modo que o poema principia: «Existimos?». Quase que o poema inteiro se poderia resumir a essa questão deveras ribombante, mas o autor espraia o seu raciocínio por mais algumas linhas: «A ilha do silêncio / é habitada pela voz dos mortos». Não é a vida feita de uma infinda rede de recordações, prova da vivência do indivíduo que ainda escuta esses «sons mudos / antes vivos»? A segunda parte do poema confirma a questão e afirma-se de modo mais sentencioso, conferindo a este Óxido, e levando em conta os principais temas desenvolvidos, os discursos formulados e as palavras elegidas, o desenlace digno da sua própria proposta poética:

Existimos: os mortos são os nossos
nomes próprios de vivos
no ensaio buscando a luz mortal que cresce
enquanto atrás do pano afinal já descido
o fogo amadurece

É um livro de vida vivida ou, se preferir, amadurecida, uma obra sólida contendo experiências, memórias, saudades, revelações e incertezas – esta que Gastão Cruz colheu como fruto da sua mais recente produção poética. Um trabalho perfumado por quem viveu a fundo o que a existência lhe pôde dar, mas igualmente uma prova do constante apuro a que os autores estão sujeitos. Tem a difícil tarefa, sublinhamo-lo agora, de suceder a Fogo, obra que lhe valeu a conquista do Prémio PEN em 2014 na categoria de Poesia.

O autor que se lançou durante a profícua década de sessenta do século vinte português, a mesma que assistiu à afirmação de nomes como Herberto Helder, Ruy Belo ou Fiama Hasse Pais Brandão, que viria a ser sua esposa, lega-nos assim um importante testemunho poético, tanto ao nível do tema como da execução do género que o assiste, pronto a ser desbravado pelos seus mais íntimos leitores, já acostumados ao traçado e ao teor poético do autor em causa, sendo de modo idêntico uma boa aposta para todos os apreciadores de poesia com funda substância e sólida propriedade. À semelhança de muitas outras ocasiões, fica lançada a proposta.

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Pedro Belo Clara é colunista do Letras in.verso e re.verso. Por decisão do editor do blog, nos textos aqui publicados preservam-se a grafia original portuguesa. Nascido em Lisboa, Pedro é formado em Gestão Empresarial e pós-graduado em Comunicação de Marketing. Atualmente centrado em sua atividade de formador e de escritor, participou, com seus trabalhos literários, em exposições de pintura e em diversas coletâneas de poesia lusófona, tendo sido igualmente preletor de sessões literárias. Colaborador e membro de portais artísticos, assim como colunista de revistas e blogues literários, tanto portugueses como brasileiros, é autor dos livros A jornada da loucura (2010), Nova era (2011), Palavras de luz (2012), O velho sábio das montanhas (2013) e Cristal (2015). Outros trabalhos poderão ser igualmente encontrados no blogue pessoal do autor – Recortes do Real (artigos e crônicas diversas).



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