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Mostrando postagens de 2017

A noite da espera, de Milton Hatoum

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Por Pedro Fernandes



A primeira referência que saltará aos olhos do leitor diante o nome do protagonista do romance de Milton Hatoum é a personagem de Iracema, de José de Alencar. É possível que não haja quaisquer determinações propostas pelo romancista, mas na tessitura textual, ou mesmo no nosso imaginário literário, essa relação, tal como a dos irmãos Yakub e Halim que remetiam aos irmãos Esaú e Jacó de Machado de Assis, não deve ser desprezada. No romance do escritor cearense, que trata sobre a formação do ideal de nação no Brasil, Martim refere-se à figura histórica do primeiro colonizador da colônia do Ceará e significava a presença do colono português e suas tradições na constituição desse ideal – do que muito mais tarde chamaremos de identidade.
É cedo para apontar relações mais concretas entre a personagem de Milton Hatoum e a de José Alencar. A noite da espera é o só o primeiro dos três volumes de O lugar mais sombrio. Este lugar mais sombrio, entretanto, é possível de ident…

O outro Drácula de Bram Stoker

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Por Bruno Pardo Porto

Durante mais de cem anos passou despercebido, descansando num idioma que não era o seu, parecendo que era o mesmo de sempre, esse que passou pelo mundo literário em 1897 e inaugurou a febre pelos vampiros. Mas não. O Drácula que chegou à Islândia era diferente do de Bram Stoker. Mas além do título – ali se chamou Makt Myrkranna –, o livro era diferente, com uma estrutura nova, personagens desconhecidas e fragmentos de mitologia nórdica salpicados por suas páginas. Na tradução algo ficou pelo caminho e outro tanto floresceu, mas ninguém levou em conta até que Hans Corneel de Roos a cotejou com o original, despertando assim o morto, que apenas estava hibernando. Agora, esta outra versão do mito reaparece com um novo nome – Ospoderes da escuridão* – e assinada por Bram Stoker. Mas como?
A história é complexa e talvez existam mais perguntas que respostas. Estamos ante um relato diferente, que altera por completo a narrativa e a concepção do texto clássico. A tradução…

Visões de Joseph Conrad

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Por Antonio Muñoz Molina



Quanto mais o tempo passa, mais contemporâneo nosso é Joseph Conrad. Vivemos num mundo de identidades culturais tão heterogêneas que o último escritor que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura é um japonês que escreve em inglês e é autor de um dos romances mais densos e premeditadamente ingleses que alguém poderia escrever – Os vestígios do dia. Mas, essa tradição de entrecruzamento a que pertence Kazuo Ishiguro quem a iniciou foi Joseph Conrad, o primeiro romancista transnacional de que temos notícia: nascido na Ucrânia, filho de pais poloneses, educado em alemão, francês e russo – só começou a mergulhar na língua inglesa a partir dos 20 anos, quando se alistou como marinheiro num batalhão britânico. Um dos filmes mais universais das últimas décadas, Apocalipse Now, procede de O coração das trevas. O romance de Conrad é tão poderoso que se deixa adaptar sem perder nada de sua atmosfera nem de seu sentido desde o rio Congo nos primeiros anos da colonização belg…

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

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Por Neiva Dutra

Mário de Andrade, referindo-se a Cecília Meireles, disse que ela passou – não necessariamente incólume – pelas diversas experiências do Modernismo, mas com uma resistência firme a qualquer tipo de adesão passiva. Esta serenidade com que sua sensibilidade se moveu talvez explique a sobrevivência do pós-romantismo (muito mais simbolista que parnasiano) de sua poesia.
Esta poesia, que não se enquadra nos movimentos literários pelos quais transcorreu, conserva o culto às abstrações e à beleza incorpórea, uma profunda e refinada visão da vida, os efeitos musicais e pictóricos da palavra. Propõe uma nova forma de espiritualidade, com um desapego expresso na intuição de uma realidade que transcende o afastamento, tendendo a enunciar sempre uma verdade que apenas pode ser expressada através do que não é, inclinando-se a desestabilizar os mecanismos pelos quais se compreende o sagrado.
Essa forma de arte poética, baseada no desapego da superficialidade e no dizer o que se entre…

Boletim Letras 360º #245

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Muito próximos de atravessar a porteira dos dez para os onze anos online, temos notícias. Os que acompanham este blog desde há muito (e leram nosso histórico) sabem que é a porta de entrada para um amplo território de ideias que aqui nasceram e estão livres na web, fazendo história. Uma das iniciativas nascidas daqui (e sempre com o intuito de chegar a mais leitores e da melhor maneira possível) foi o Selo Letras in.verso e re.verso. Era 2010, e o que primeiro editamos foi um catálogo (muito primitivo — as limitações sempre foram diversas) com fotografias do autor de Ulysses, James Joyce. Revisitamos esta ideia do selo reiteradas vezes interessados em encontrar um nome mais breve que nos representasse e agora chegamos a uma possibilidade; não é muito criativa e é, possivelmente, uma saída um bocado técnica, mas com ela continuamos essa história. Saiba mais aqui. No mais,  terão percebido os mais atentos que o endereço de morada é novo: estamos agora em blogletras.com. A entrada é nov…

Paulo de Tarso Correia de Melo: poeta-maior

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Por Márcio de Lima Dantas


A obra reunida do poeta Paulo de Tarso Correia de Melo (Talhe rupestre: poesia reunida e inéditos. Natal: EDUFRN, 2008) comprovou o que a crítica mais especializada, não impressionista, e exigente, já sabia: é o nosso poeta-maior. Claro que temos bons poetas, oriundos das melhores cepas, porém muitos carecem de um fôlego lírico mais denso, capazes de manter a mesma alta voltagem estética em cada livro que publica, bem como a capacidade de manusear formas poéticas advindas de múltiplas tradições da literatura ocidental. Eis dois dos principais atributos do nosso poeta: tanto manuseia com propriedade o verso de fatura tradicional quanto as formas livres e brancas, desprovidas da sintaxe normativa.
Acrescenta-se a isso uma notável capacidade de transfigurar por meio do discurso poético o prosaico do cotidiano, elevando as coisas ditas banais a uma categoria no qual se inscreve o primado do digno, da beleza e do lugar no qual se pode extrair um conteúdo sentencio…

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

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Por Pedro Fernandes


A coisa mais bonita de ressaltar na relação entre os homens é uma amizade – seja qual for seu nível. Não falo sobre a amizade por puro e gratuito interesse, que essas são súcubas, mormente daninhas, porque em parte estão alimentadas por um sentimento muito doentio chamado inveja. Também não é o caso de a inveja ser estritamente danosa. Não é isto. Como todos os sentimentos têm dupla face e são fundamentais para o equilíbrio das pulsões do mundo, este é sumamente necessário porque é uma força motriz ao ser e ao fazer dos indivíduos. Tanto é verdade isso que as obras literárias são, desde sempre, para citar um exemplo, produtos de uma inveja. Qual escritor não traz consigo uma certa ponta de frustração quando descobre uma obra sublime e depois de constatar “ah, como eu gostava de haver escrito isso” se vê motivado a “eu posso escrever algo como ou melhor que isso”? Se é verdade que assim não se sente faltam-lhe algumas necessidades indispensáveis ao gênio criador com…

Os noivos, de Alessandro Manzoni

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Por Pedro Fernandes


O romance Os noivos forma, juntamente com outros livros do seu século, parte na extensa quantidade de obras que contribuíram para a consolidação desta forma narrativa. Esta afirmativa considera uma estirpe nascida nos anos de 1600 com obras como Dom Quixote, a grande novela de Cervantesque para alguns inaugura uma forma moderna de narrar, As aventuras de Tom Jones, de Henry Fielding, ou Moll Flanders, de Daniel Defoe. Isto é, integra o rol dos chamados romances realistas, estética que depois terá se tornado escola, e de pretensa forma superada à forma ainda em alta na tradição da forma romanesca.
Para a Itália, este romance assume ainda outro papel, o de ter sido aquilo que as obras acima citadas e que o antecederam foram: um precursor da forma moderna de narrar. O que surpreenderá – e nem tanto se nele o leitor entrar sabendo que entra num clássico – é sua atualidade em várias das opiniões destiladas pelo narrador. Esta figura é fabricada à maneira do recurso rea…

A relevância atual de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos

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Por Maria Vaz


Graciliano Ramos dispensa apresentações – já foi alvo de muitos textos publicados pelo Letras in.verso e re.verso. Nessa medida, com este texto temos apenas a pretensão de furtar uma obra que assume carácter autobiográfico para, a partir daí, expor a sua relevância atual para o meio jurídico e artístico brasileiro na atualidade.
Em Memórias do cárcere o autor disserta sobre o azar existencial que o levou à prisão, motivado pela suposição de que estaria envolvido numa tentativa de golpe contra o governo autoritário de Vargas – episódio que ficou conhecido na história como Intentona Comunista. Contudo, a obra de Graciliano Ramos em questão é extensa, dividida em quatro volumes, e a sua publicação teve lugar apenas a título póstumo, sendo que o autor não chegou a terminar o último capítulo.
Em torno da publicação da obra em questão geraram-se muitos rumores de que poderia ter sido alvo de censura ou, por outras palavras, que houvera exigência de eufemismos ou suavizações daq…