A ilha, de Aldous Huxley

Por Pedro Fernandes



O romance de tese é costumeiramente descrito como produto do naturalismo. Trata-se de uma prosa narrativa a serviço da demonstração de um determinado ponto de vista assumido pelo escritor. Mas, atenção! Em menor ou maior grau, toda obra literária, porque construída na e pela linguagem, está interessada em apresentar ou defender certa maneira de compreensão do mundo. Isto é, toda obra literária não está apartada de uma esfera ideológica como foi possível passar acreditar ingenuamente a partir de certo momento da história da literatura. O que, entretanto, favorece o conceito do romance-tese, é que, neste os pontos de vistas são muito transparentes e participam no enforme das personagens, situações e mesmo da atmosfera da narrativa; ou seja, não se trata meramente de uma incursão dispersa através da qual se materializa direta ou indiretamente uma dissertação sobre um tema ou uma questão qualquer. Outra observação pertinente: não se trata de uma forma presa ao período naturalista ou realista ou ainda, para pensar fora dos lugares históricos, às obras designadas de intervenção ou engajadas. 

Todas essas definições respondem por problemas próprios e não vem ao caso enumerá-los, mas elas são aqui apresentadas porque, ao sublinhar o caráter crítico e persuasivo do romance-tese poderá parecer na percepção imediata do leitor que são obras designadamente associadas a esses lugares criativos – o que não é verdade. Um exemplo dos desdobramentos da forma ora apresentada é a relação estreita cultivada por José Saramago em algumas obras suas. Destaque-se aqui, no intuito de ilustrar claramente, aquelas que o escritor denominou por Ensaios: são obras nas quais o leitor logo percebe encontrar-se diante de um esforço coletivo (tudo na narrativa trabalha para tanto) em experienciar uma ideia principal inovadora e que precisa ser colocada em evidência a partir de perspectivas diversas capazes de mantê-la ou refutá-la. 

Quem tiver lido o conjunto de textos críticos de Aldous Huxley reunidos em A situação humana terá percebido a essa altura como o romance A ilha se filia diretamente nessa tradição do romance de tese. Todas as suas ideias sobre o capitalismo e o socialismo como modelos sociais falidos e as críticas construídas em torno de temas como o consumismo, o belicismo, a religião, a imprensa, a miséria, a destruição do meio ambiente, entre outras, aparecem diluídas neste que foi o último romance do escritor famoso por suas distopias. 

À maneira de Thomas Morus, o homem do renascimento autor da famosa Utopia, obra ao mesmo tempo sátira da Europa do século XVI e proposição de um reino imaginário capaz de superar os problemas mais urgentes da comunidade humana, o autor inglês realimenta o sonho desse lugar possível. Profundo observador dos modelos sociais – a selvageria do capitalismo e a inviabilidade do socialismo, agravados um e outro pela mesma razão, o autoritarismo de governos capaz de colocar homens contra homens e favorecer o cerceamento das liberdades individuais – na ilha ficcionada por Aldous Huxley é possível, através de um uso controlado da razão crítica, conviver distante das aflições mais corriqueiras nas diversas ordens sociais. 

Toda obra, aliás, está empenhada em descrever pormenorizadamente a estrutura e o funcionamento desse novo modelo capaz de conjugar o pacifismo, a felicidade individual e comum, a tolerância, a não-violência, as liberdades do corpo, o apagamento da miséria, o desprezo pelo consumo, a integração homem-natureza, o pleno exercício da democracia etc. Esse novo modelo existe graças ao trabalho de estreita relação estabelecida entre os elementos da cultura oriental e a crença de uma ciência capaz de, ao se desvincular dos usos capitais, trabalhar pelo bem-estar e conforto social dos indivíduos. 

Apesar de tantos anos depois o livro ser lido pelo prisma de mais uma obra associada ao gênero que melhor o escritor praticou, a ficção científica, não há nada que responda por esse tipo de narrativa em A ilha. E também a ideia de utopia que antes citamos para conceituar a obra é bastante questionável. É preciso não esquecer que no período quando Huxley escreve este romance, a possibilidade de um modelo social capaz de negar todos os princípios negativistas que agora acentuam o lugar apocalíptico onde habitamos, estava não muito distante. As comunidades do movimento Hippie, a descoberta dos modelos orientais de educação dos corpos e das mentes, e, claro, o milagre cubano visto por grande parte como uma alternativa de sociedade possível (embora essa possibilidade tenha decaído mais tarde) são comprovações de que nem tudo nesta narrativa são elucubrações imaginárias. Apesar das adversidades ferrenhas atravessadas pela humanidade desse período, sobretudo se pensarmos nas sementes espalhadas em toda parte do mundo a partir da coroação do império do mal hitlerista, era um tempo de sonho e projeção, não de ruína e dilapidação da confiança na humanidade. 



Se a sociedade de A ilha é uma proposição de um mundo possível cujas marcas estão impressas na consciência do tempo da obra então não meramente como utopia que este romance merece ser lido. É uma demonstração em grande parte de que a realidade possível só não é exercida porque os modelos sociais – sobretudo os governos – são executados fora do ideal de coletividade e pensados sempre em favor do domínio individual. Notável é a ocasião em que o dr. Robert, figura que acompanha o intruso Will Farnaby depois de resgatá-lo de um acidente próximo a Pala, disserta sobre o temperamento comportamental de Adolf Hitler e Stálin ou ainda a maneira como se projeta os ideais de quem será o futuro governo na ilha. 

Tal como a Utopia, de Morus, o romance de Aldous Huxley investe numa crítica ferrenha aos modelos baseados na não partilha do poder mas na submissão de um grupo a único líder, no qual são-lhe depositadas todas as confianças possíveis. Os habitantes de Pala estão todos fora da idealização, porque, notadamente, precisam passar continuamente pela experimentação do mundo a fim de tratar dos impasses antes mesmos de se tornarem dimensões fora do controle. Não situada numa geografia suspensa mas integrada ao mapa-múndi conhecido, Huxley não se descuida de estabelecer uma reflexão, dentre as diversas propostas pela obra, a partir da crítica ao modelo da idealização platônica, sobre os perigos que rondam uma sociedade assim, réplica do paraíso genesíaco. Trata-se do fator especulativo e o império então em ascensão da globalização; cite, para efeito, o flerte de Murugan, futuro chefe de Estado em Pala, com os modelos ditatoriais e do consumismo, uma vez que o jovem não foi educado em nenhum dos preceitos da ilha e tem verdadeira ojeriza pela maneira como o lugar se mostra desprovido das ambições das outras nações. 

Por sua vez, a presença possivelmente casual de Farnaby em Pala, representa concretamente a ameaça ao paraíso já que tem acesso a toda organização social, política e das relações de poder entre os ligados à cultura local e os possíveis dissidentes. Farnaby é apresentado como jornalista e espião de uma figura muito importante interessada na exploração de petróleo na ilha. Signo do homem cuja existência foi frustrada pelo modelo social ao qual pertence – violentado pelo pai na infância, preso na culpa pela morte repentina de sua companheira depois que esta descobre suas traições, essa personagem desenvolve a compreensão expressa em certa altura do romance acerca da colonização e os danos irreversíveis por ela produzido: a história de Pala é capaz de se orgulhar de não ter passado pela presença, no passado, de nenhuma nação dominadora e exploradora. Esses dias, entretanto, parecem beirar o fim. A ilha reafirma-se, portanto, como ilustração. 

Mas ao dizer do seu fim, alcançamos outra compreensão igualmente importante para esta obra de Huxley: se um por lado se evidencia uma sociedade possível, por outro entende-se que Pala, talvez por ser apenas ficção, é este paraíso em suspenso. Uma possibilidade. Nada prevê que seu futuro – tão logo Murugan chegue aos dezoito anos e assuma o poder – signifique a manutenção da condição paradisíaca do lugar. Aos olhos do jovem, Pala merece concorrer de igual com as outras nações: entrar na corrida armamentista, na exploração em alta dos recursos naturais e propiciar aos habitantes a possibilidade de não permanecerem presos aos modelos estabelecidos por seus antepassados. Ou seja, tudo ao contrário do que a ilha é no presente. E o pior: com a presença de um infiltrado, nada garante que os desejos desse jovem possam ser sufocados pelo seu povo. A ilha até nisso é realista: se existisse um lugar perfeito na terra, esse lugar estaria condenado a sucumbir porque as forças que governam são mais fortes que qualquer sonho. Há nessa constatação um certo tom pessimista. Sobre isso, respondemos com uma frase de José Saramago em resposta a acusação repetida reiteradas vezes contra sua visão de mundo: “Não sou pessimista, o mundo que é péssimo”. Não sou pessimista, o mundo que é péssimo – parece dizer também Aldous Huxley. Talvez A ilha, portanto, e assim desconstruímos outro lugar-comum aqui reiterado, não destoe tanto assim da atmosfera distópica de outras narrativas suas. O leitor agarre-se com a conclusão que lhe parecer melhor.


Comentários

Blog Zonacurva disse…
Estou lendo o livro é seu texto é muito bom!

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