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Mostrando postagens de 2018

Duzentos anos com “Frankenstein”

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Por César AntonioMolina

Os românticos foram a Genebra atraídos pela estrela de Rousseau. Lord Byron escreveu seu célebre poema “O prisioneiro de Chillon” e dedicou a François Bonivard. Formando ângulo com o Petit Palais (um magnifico museu de arte contemporânea), a rua de Saint-Victor recorda um lugar onde esteve um antigo priorado construído na Idade Média. Em princípios do século XVI foi nomeado prior Bonivard a quem em 1530 os Saboyanos prenderam no castelo de Chillon. Solto em 1536 por seus compatriotas, escreveu uma história de Genebra cuja publicação foi proibida por Calvino porque não gostava de seu estilo. Byron resgatou Bonivard do esquecimento e suas crônicas finalmente foram publicadas em 1831.
Byron e os Shelley hospedaram-se em Vila Moynier que, durante anos foi o conhecido Hotel d’Aglaterre. Inclusive, em 1818, o escritor e político francês Benjamin Constant passou nele sua lua-de-mel com sua antiga amante, Madame Staël. Mas Frankenstein nasceu às margens do lago Leman, …

Ler literatura pode ser literatura

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Por Manuel Vilas 


Com um título um tanto provocativo, El derecho a escribir mal [O direito de escrever mal, sem tradução brasileira], acaba de ser publicada uma antologia dos ensaios do crítico estadunidense Lionel Trilling (1905-1975). Nela se encontram artigos sobre Liev Tolstói, Mark Twain, Rudyard Kipling, Hemingway, Scott Fitzgerald, Isaac Bábel, Vladimir Nabokov, Gustav Flaubert e Edith Wharton, sobre a função social da literatura e, como não, sobre a morte do romance. Em seguida é preciso dizer que Trilling é um ensaísta que eleva a crítica literária a uma categoria próxima à da filosofia moral. Seus interesses são muito variados, mas quase sempre prevalece nele uma interpretação da literatura que une idealismo e sociologia.
O ponto de vista de Trilling sobre a literatura envelheceu um pouco e nota-se, com certa melancolia, que estes ensaios foram escritos no meio do século em uma época desapressada; como denota certa ingenuidade do mundo teórico anterior ao advento das tecnolo…

Amor, casais e casamentos em William Shakespeare (1)

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Por María Méndez Peña




o noivado, o casamento e o arrependimento podem ser comparados a uma giga escocesa, um minueto e uma pavana. Beatriz em Muito barulho por nada
Fazemos aqui uma passagem por momentos e trajetórias na vida de William Shakespeare, vida vinculada à sua família, suas experiências juvenis cotidianas em Stratford, seu casamento e certamente o teatro em Londres. Acompanha-nos uma expressão que há muitos anos compartilho: “Somos admiradores de Shakespeare até à idolatria ou melhor além da idolatria”1 – como dizia James Joyce. Ele é quem mais e melhor se aproximou à vida de Shakespeare e seu romance Ulysses é nesse ínterim uma referência constante. Também os eruditos trabalhos de Harold Bloom e Stephen Greenblatt2 têm sido os fios para atar cabos dada a amplitude e complexidade do tema.

Meu gosto e admiração pelos clássicos estiveram vinculados ao estudo de suas obras em cátedras e seminários realizados em Mérida durante trinta anos contínuos sob a orientação cativante de …

Boletim Letras 360º #283

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Na sexta-feira, 10 ago '18, realizamos o sorteio do belíssimo livro J. R. R. Tolkien & C. S. Lewis: o dom da amizade, de Colin Duriez. E, como lembramos no comentário de divulgação do nome do ganhador e de agradecimentos às leitoras e leitores que participaram desta atividade, em breve sortearemos outro exemplar do mesmo título. Essas atividades fazem parte de uma parceria assumida entre o Letras e a casa editorial HarperCollins Brasil na divulgação da obra de Tolkien que ela passa a reeditar e com novas traduções, sublinhe-se. Já neste Boletim, o leitor lerá sobre o grande inédito que é apresentado este mês aos leitores brasileiros e em simultâneo ao lançamento da obra entre os leitores de língua inglesa. Boas leituras!


Segunda-feira, 06/08
>>> Brasil: O último dos três Grandes Contos Perdidos do legendário de J. R. R. Tolkien
A queda de Gondolin narra a jornada de Tuor rumo à cidade secreta de Gondolin, refúgio élfico do povo do Rei Turgon. Contra a bela cidade, leva…

O profeta James Baldwin

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Por Andrea Aguilar



O improvável sucesso de James Baldwin (Nova York, 1924 – Saint Paul de Vence, França, 1987) no cinema chegou três décadas depois de sua morte pelas mãos do diretor haitiano Raoul Peck. Noite após noite se esgotavam as entradas nos cinemas de Nova York em fevereiro de 2017 e os aplausos unanimes da crítica somavam-se a ovação do público ao final da projeção de I am not your negro (Eu não sou seu negro), o filme que naqueles dias partia como favorito na corrida aos Oscar como Melhor Documentário. O lendário poeta, crítico, romancista, lúcido ensaísta e confesso cinéfilo saudou postumamente uma dívida pendente com a sétima arte desde que trabalhou em finais dos anos sessenta num roteiro do qual acabaram por cortá-lo.
Baldwin golpeou a consciência estadunidense durante três décadas e expôs a ferida racial com uma lucidez atormentadora. Criado nas ruas de Harlem, seu padrasto foi pastor e mesmo na adolescência seguiu esse caminho (“aquela foi a época mais terrível da min…

Hilda Hilst e não outra

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Por Pedro Fernandes




Há pelo menos duas direções comuns às narrativas quando o assunto é a biografia de um artista. Uma delas é tentar acompanhar sua obra na busca por uma compreensão sobre sua personalidade, investigando como determinadas peças estão imbrincadas a contextos da vida pessoal do criador e revelando em simultâneo, por conseguinte, episódios biográficos e criativos, como se uma cartografia combinando vida e obra. Geralmente, esses trabalhos são conduzidos por acadêmicos e ao passo que podem se apresentar como o mais completo também podem se perder no excesso das interpretações infundadas – sobretudo para os casos em que, e é a coisa mais comum, a obra não é produto de um determinado momento da vida de seu criador, mas peça independente.
As situadas na outra direção – e nesta se insere Eu e não outra: a vida intensa de Hilda Hilst, de Laura Folgueira e Luisa Destri – procuram acompanhar à distância, como se um expectador curioso, ou um detetive, a vida do biografado. Este m…