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Mostrando postagens de 2018

Sobre bolhas sociais e debates políticos em redes sociais

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Por Rafael Kafka



Ontem me peguei discutindo com um defensor do fascismo. Um defensor eloquente, não o tipo irritante de cada dia que usa das notícias falsas para propagar a defesa de seu candidato. Mas uma mente que sabia disfarçar sua ignorância com o uso bem arquitetado de alguns conceitos econômicos, os quais expuseram a mim brechas em minha formação leitora. Mesmo sendo da área de Letras, comecei a me sentir irritado por não dominar tais conceitos e usar contra aquela pessoa numa tentativa, mesquinha e egotista, de impedir que a mesma espalhe boatos por aí, inverdades tolas baseadas em cortes de direitos sociais e trabalhistas para garantir o bom desempenho numérico do país.
Na mente de pessoas assim, um mercado forte e que se auto regula garante emprego, poder de compra e felicidade a todos. A desigualdade social é algo que deve ser superado por esforço pessoal e pelo Estado deixando as empresas explorarem tal esforço de seus empregados. No afã dos debates acalorados das redes so…

O anel do general, de Selma Lagerlöf

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Por Pedro Fernandes


“Tinham se embebido de medo de malfeitores com o leite de suas mães; tinham sido ninados até dormir com cantigas sobre bandidos. Consideravam todos os ladrões e assassinos como abominações e demônios, que não deviam mais ser considerados seres humanos. Não achavam necessário lhes mostrar qualquer compaixão” – a reflexão é do narrador de O anel do general na altura em que acompanha, pelo levantamento dos ânimos do pequeno povoado de Broby, o julgamento de três acusados de assassinato de um jovem para o roubo da peça de extrema valia que ocupa do título ao núcleo principal da narrativa. O excerto é trazido aqui porque justifica em parte uma compreensão dos elementos motivadores da obra. Noutra passagem, como se num arroubo metanarrativo, o narrador interpõe: “A caneta cai de minhas mãos. Não é inútil tentar escrever essas coisas? Essa história me foi contada ao crepúsculo à luz de uma fogueira”.
Selma Lagerlöf é, por assim dizer, quem se embebeu e foi embalada pelas…

Contra o ensimesmamento: Montaigne e a escrita da leitura

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Por Guilherme Mazzafera


A palavra é metade de quem fala, metade de quem a escuta. Este deve se preparar para recebê-la, segundo o movimento que ela faz. Montaigne, “Sobre a experiência”
Meu encontro com Montaigne se deu em circunstâncias precisas. A seleta d’Os ensaios acumulava pó na estante há mil dias, comprada unicamente pelo encanto causado pela leitura, na faculdade, do ensaio sobre “Os canibais”. Livros comprados enfrentam sinas diversas: alguns são lidos antes de encontrar alojamento; outros, maturam-se por anos de espera e resignação. Ao saber da morte de meu avô, da iminência da viagem e dos dias difíceis que se seguiriam, coloquei-o na mochila e parti rumo a Minas Gerais. Sua leitura incutiu-me um sabor pessoal de descoberta.
Momentos profundos de perda instilam uma necessidade estranha de tudo repensar, em uma tênue linha contemplativa que avoeja da experiência íntima, individual da morte, ao conforto (ou terror) de um feraz reencontro, como fato inelutável da condition hu…

Madame Bovary: erotismo e sensualidade

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Por Nesfran Antonio González Suárez



Madame Bovary é considerado por uma unanimidade de vozes o romance mais refinado no âmbito literário. É um manual de indução, um curso intensivo do gênero escrito de meados do século XIX e cuja vigência não se vê ameaçada com transcorrer dos anos. Mario Vargas Llosa faz alusão em seu estudo A orgia perpétua a um ponto principal no qual coloca Flaubert; para o escritor peruano, o francês é o primeiro romancista moderno, seguindo a opinião de Ernst Robert Curtius no ensaio Reencontro com Balzac: “Balzac sente um ardente interesse pela vida e nos contagia com seu fogo; Flaubert, com sua náusea”.
É por causa de Madame Bovary que Gustave Flaubert (Ruan, 1821; Croisset, 1880) enfrenta em 1857 um processo judicial por ofender a moral e bons costumes; depois de sua absolvição o romance é publicado e obtém enorme êxito. A obra narra a experiência de Emma Rouault, uma jovem provinciana que, depois de se casar com Charles Bovary, um médico de família, se vê env…

Lydia, de Pedro Belo Clara

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Por Maria Vaz




Lydia encontra as suas reminiscências mais profundas no poema “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, de Ricardo Reis. Neste heterónimo de Fernando Pessoa encontra parte do seu espírito filosófico. Contudo, do supra mencionado poema herda apenas a imperatividade em enlaçar as mãos, presente na primeira estrofe. Nas palavras do autor, pelo início da obra, podemos ler que “a noite morre aqui”. Nesse sentido, toda esta obra é construída pela luz que traz a esperança, como a inevitabilidade de um sol que ascende todas as manhãs.
A consciência da transitoriedade da vida está sempre presente: tudo é efémero e tem o seu tempo; todo o zénite solar fora sonhado na noite, qual Inverno da alma que dá lugar ao calor. Aos dias sucede a noite, às estações quentes segue-se o frio; os meses correm com uma gradação natural. Também o encanto e o calor das paixões cede pela satisfação do desejo. Destarte, do espírito epicurista também se vislumbra a simplicidade da natureza: os vocábu…

Boletim Letras 360º #292

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Está disponível a edição do Boletim Letras 360º desta semana. Aproveitamos a ocasião para lembrá-los que as inscrições para a promoção que sorteia uma edição de J.R.R. Tolkien: uma biografia, de Humphrey Carpenter continuam a valer até o dia 22 de outubro. Mais detalhes, aqui.


Segunda-feira, 08/10
>>> Brasil: Uma antologia que reúne a prosa curta de Fernando Pessoa
Pela primeira vez no Brasil é publicada uma antologia dedicada apenas às narrativas curtas de Fernando Pessoa. O aclamado poeta de tantas faces mostra aqui que sua excelência não se resume apenas aos versos. O banqueiro anarquista e outros contos escolhidos traz 24 textos, 21 de sua autoria, o primeiro deles escrito originalmente em inglês, e três traduções. Nesta obra o leitor vai encontrar vários inéditos, ao menos entre nós, além de uma apresentação aguda e detalhada do pesquisador Alexei Bueno. A edição é da Nova Fronteira para a coleção Clássicos de Ouro.
>>> Brasil: As traduções de Fernando Pessoa e‎…

O “Jogo do Senhor e do Servo”, de Paulo Leminski, na visão de Serguei Eisenstein

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Por Wagner Silva Gomes


No "Jogo do Senhor e do Servo", poema criado por Paulo Leminski, o olhar do senhor sobre o servo é a própria autonomia, sua margem de emancipação, que o senhor vai adquirindo quando se vê humildemente como servo, aprendiz, em busca do êxtase da apreensão do conhecimento ou da sabedoria contida na relação com o outro; ao viver e entender o estado de ser relativo, vai então dominando a perda do absoluto até tornar-se o próprio estado de ser senhor, feito de autonomia e emancipação, numa dinâmica infinita da liberdade e seus pequenos pontos, suas pequenas percepções dos lugares, os pequenos olhares fundantes.
Nessa história de um mestre zen do poeta, o budista é um engenheiro das almas que domina a engenharia ocular como servo e senhor. Como Eisenstein que, estudante de engenharia e aluno de Levkuleshov, professor da Escola de Filme de Moscou (VGIK), ao ver no experimento do mestre que um plano cinematográfico só tem sentido ligado ao posterior, vislumbro…

As crônicas de Clarice Lispector

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Por Pedro Fernandes


Boa parte das frases que circulam na internet atribuídas a Clarice Lispector é produto de um gênio capcioso que sem qualquer valor pela memória de quem quer que seja dá-se ao trabalho de falseamento dos dizeres. Na outra ponta repousam os que cegamente acreditam no falso e reproduzem ad infinitum a barbárie. Fora isso, a outra parte dessas frases são provenientes dos textos que a escritora publicou em jornais – ainda que tais excertos agora repousem entre as linhas de algum dos seus contos ou romances.
Se desde a aparição do mundo virtual Clarice Lispector tem sido vilipendiada pelos detratores, antes foi ela própria vítima de si mesma. A sua obra sempre foi um extenso canteiro e esteve, enquanto viveu, aberto à experimentação. E pela contínua atividade de refazimento dos textos terá introduzido modificações ao ponto de um texto original passar a ser outro, tornando o anterior, por vezes, falso texto, ou a escrita de outra que não Clarice.
O texto, para Clarice Li…