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Mostrando postagens de 2019

Boletim Letras 360º #349

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Alcançamos um novo sábado. Com a mesma rapidez com que se alcançam todos os dias quando entramos na corrida pelo fim do ano. Mas, até o fim de 2019, ainda temos datas importantes para destacar. E uma delas é o 27 de novembro. Foi nesse dia, em 2007, que se apresentou online a primeira post de um blog que seria apenas o espaço particular de um professor para divulgar suas atividades e leituras acadêmicas e acabou por ser um distrito virtual coletivo que hospeda 3.478 textos (sete dezenas ainda em revisão) que alcançaram a base de quase 3 milhões de acessos. Os números nos animam, porque este trabalho se desenvolve voluntariamente com a colaboração de muitas mãos. São pessoas que dedicam frações importantes de sua vida para pesquisar, ler, escrever, atrair novos leitores. Gesto nobre num país marcado pela desvalorização da cultura, pelo não-reconhecimento dos que lidam com as Ciências Humanas, e já agora fundado na ignorância e sua celebração. Não é gratuito, nem simples alcançar algum…

Coringa e o olhar sobre o que não queremos ver

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Por Rafael Kafka


Coringa é daqueles filmes necessários de se chegar ao mainstream que esperemos não seja esquecido em suas provocações centrais. Como obra de arte, não devemos cobrar do longa de Todd Phillips uma mensagem pronta, acabada e muito menos otimista para ser entregue ao público, por mais que seja isso o esperado de boa parte da indústria hollywoodiana. Coringa é uma interessante reflexão fílmica de nossos tempos e por isso merece demais nossos olhares e nossos pensamentos.
Mais do que um nascimento de uma personagem específica, o vilão do universo DC, o que o filme transmite para o telespectador é como a convulsão social que são nossos tempos pode deixar qualquer um louco a ponto de surtar. Quando o surto ocorre, vem outro dilema bastante ambíguo: seria o surto uma reação anormal ou uma forma de agir racional diante de um universo perturbador? Arthur Fleck em dado momento decide fazer de sua loucura trágica uma comédia e fazer da existência um universo surrealista no qual o …

Por Saramago, Anabela Mota Ribeiro

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Por Pedro Fernandes



A obra de José Saramago, como toda grande literatura, não se enquadra confortavelmente nos conceitos estabelecidos pelas teorias a justificarem o fenômeno da criação. Assim é que, a literatura saramaguiana se constitui paradigma1. Os indícios disso não estão demonstrados apenas pelas inovações com a forma romanesca situada nas linhas limites com a variedade de expressões da prosa de intelecção – o ensaio de reflexão filosófica, a crônica histórica, o relato de viagem etc. – e na reaproximação com o modelo original do romance pelos estreitamentos entre o erudito e o popular. Esses indícios estão em algumas provocações oferecidas por um escritor que ensaiou algumas proposições teóricas, como a leitura acerca das implicações entre autor e o narrador; enquanto a Teoria da Literatura designa-os enquanto instâncias de enunciação distintas, uma da obra e a outra da narrativa, para o escritor português essas distinções são, em alguns casos, no seu especificamente, improcede…

Marina Tsvetáeva. A vida é um lugar onde não se pode viver

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Por Reys García Burdeus


Considerada, juntamente com escritores da estatura de Boris Pasternak, Ósip Mandelstam ou Anna Akhmatova, como uma das autoras russas mais relevantes do século XX, Marina Tsvetáeva não se deixou prender por nenhuma corrente literária da época, criou seu próprio estilo. A sua escrita é complexa por seu caráter conciso, ao mesmo tempo em que sonora e impregna tudo com uma grande riqueza e heterogeneidade estética, provenientes de sua extensa e variada formação cultural.
“A prosa do poeta é uma tarefa diferente da prosa do prosador, nela a unidade do esforço (da diligência) não é a frase, mas a palavra, e muitas vezes a sílaba”.
Uma mulher de espírito rebelde, transgressora em tudo, na vida e na escrita, fiel a si mesma, consequente e ao mesmo tempo contraditória, sensível e apaixonada.
Tzvetan Todorov, o grande filósofo francês, linguista e sociólogo de origem búlgara, dizia: “Quando estou cansado, só consigo ler a prosa incandescente de Marina Tsvetáeva, porque …

O sujeito preso no absurdo do cotidiano: “A velha” e uma tradução do conto “Sonho”, de Daniil Kharms

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Por Joaquim Serra



Daniil Kharms (1905 – 1942) foi um escritor soviético da primeira metade do século XX, sendo o responsável por introduzir novas facetas do absurdo na literatura russa. Fez parte do grupo de poetas que se autodenominavam Oberiúty (de OBERIUT: Obediniénie Reálnovo Iskústva — Sociedade da Arte Real). Mais tarde a crítica o compararia com Franz Kafka e Eugène Ionesco. Poucos anos depois de escrever A velha, de 1939, foi preso e acabou morrendo de fome na prisão em 1942.
A epígrafe da novela A velha traz uma lacuna que acompanhará o texto todo. As palavras retirada do romance Mistérios, de 1892, escrito por Knut Hamsun – norueguês conhecido por seu Fome (1890) –, dizem: “... e entre eles trava-se o seguinte diálogo” (p. 19). A citação é o chamariz para a primeira cena de A velha e a entrada também do primeiro elemento que servirá de base para toda a narrativa. Ao pedir informação sobre as horas para uma velha, o narrador percebe que seu relógio não tem ponteiros, mas, ao…

A fascinante vida da família Mann: homossexualidade, drogas, exílio e gênio literário

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Por Paula Corroto







A imprensa estadunidense deu a eles o nome da “família incrível”: a família incrível ou impressionante. Liderado pelo patriarca, o escritor Thomas Mann, os Mann deram um ar fresco no país que nos anos 1930 enfrentou a saída da grande crise de 1929 graças às políticas do New Deal de Franklin Roosevelt. No exílio, o pai tornou-se um oponente feroz de Adolf Hitler e do Nacional Socialismo, com várias conferências por todo os Estados Unidos; a filha mais velha, Erika, era uma estrela com seu jogo político de ideias progressistas; o filho mais velho, Klaus, foi reconhecido como o escritor mais talentoso de sua geração e suas provocações libertinas chamavam atenção; a filha mais nova, Elisabeth, seria anos depois uma grande defensora dos oceanos e do meio ambiente. Vestidos por Agnes Ernst Meyer, esposa de Eugene Meyer, proprietário do Washington Post, eles eram considerados a família alemã mais legal da época, quando apenas más notícias vinham da Alemanha. E os Mann, cujo…