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Mostrando postagens de 2019

Um romance sobre horror nazista recuperado depois de oito décadas

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Por Juan Carlos Galindo

Por volta das onze horas da noite do dia 29 de outubro de 1942, Ulrich Alexander Boschwitz morre junto com outros 361 refugiados, a maioria judeus, a bordo do Abosso, naufragado a 700 milhas náuticas dos Açores pelo submarino alemão U-575. Tem 26 anos. Finda assim uma odisseia iniciada com as leis raciais de Nuremberg em 1935 e que havia levado este escritor nascido em Berlim de um lugar a outro, perseguido e odiado pelos que foram seus compatriotas e repudiado pelos europeus aos quais pedia acolhida.
Mas, sem saber, Boschwitz havia lançado uma mensagem que teria grande repercussão em seu país oito décadas depois. Quando morreu carregava consigo a nova versão manuscrita de seu livro O passageiro [tradução livre a partir do título em espanhol, El pasajero], publicado na Suécia, Reino Unido e Estados Unidos entre 1938 e 1940 e totalmente ignorado na Alemanha. Dois meses antes havia escrito para sua mãe pedindo-lhe indicações sobre o que fazer com sua edição. Tud…

Boletim Letras 360º #315

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Só na sexta-feira, 22 de março de 2019, conseguimos finalizar o sorteio de um exemplar de A queda de Gondolin, de J. R. R. Tolkien, em parceria com a HarperCollins Brasil, editora que tem trabalhado na reedição integral da obra do escritor britânico. Sobre promoções, aproveitamos a ocasião para dizer que, não tarda e faremos outro sorteio com a nova edição de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Esta segunda promoção será em nossa unidade no Instagram, já que a outra foi realizada no Facebook durante o período de pré-venda do livro. Segue as notícias apresentadas durante a semana em nossa página no Facebook, as dicas de leitura e outras recomendações.


Segunda-feira, 18 mar.
Às vésperas, de Ivan Turguêniev
Elena Stákhova é filha de uma mãe hipocondríaca e um pai ocioso e supérfluo, uma típica família aristocrata da Rússia do século XIX. No auge da juventude, divide sua atenção cotidiana entre dois jovens: o escultor de espírito livre Pavel Chúbin e o reservado estudante Andrei Be…

Outra volta do cânone

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Por Elena Medel


Olhe sua biblioteca – não importa se é apenas uma estante, uma prateleira, se várias paredes de um quarto – e concentre-se nos livros que decidiu ter consigo. Se tem algum tempo e interesse, desarrume tudo volume a volume e amontoe de um lado aqueles escritos por homens, e do outro os escritos por mulheres. Depois conte: doze aqui, trinta ali, ou mesmo nenhum. Repita o exercício tendo em conta a origem da autora ou do autor: África, América – e aqui distinga entre os países da América Latina e os do norte do continente –, Ásia, Europa, Oceania. Outra vez, esforce-se em revisitar suas leituras segundo a raça de quem as escreveu, o idioma em que pensaram. Existem outras classificações possíveis para sua biblioteca baseadas em dados menos evidentes, que poderá extrair de uma leitura atenta da obra, ou aprofundando-se em biografias, que talvez nunca conhecerá: orientação sexual, classe social, ideologia política etc.
Se a desordem não lhe agrada, sente-se e enumere as lei…

Anatomia do ócio, de R. Leontino Filho

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Por Pedro Fernandes



As discussões sobre o texto poético quase sempre partem de um jogo de relações que dissociam, às vezes por oposição e exclusão, os elementos que distinguem a prosa narrativa. O que podemos chamar de submissão do poema a tais limites deve-se a um ponto impossível de deixá-lo de fora quando tocamos no assunto: o amplo lugar alcançado pela prosa e sua penetração no cotidiano comum faz este gênero ocupar a posição de partida ou grade de leitura para a compreensão da poesia. Esta, por sua vez, ampliou, no tempo dos exageros, sua condição de à margem. Dizemos isso, evidentemente, porque se considerarmos, no âmbito da história da literatura (e mesmo de sua teoria), sempre encontramos a poesia como a mais insubmissa das formas e consequente a que deve, por sua condição, prevalecer no lugar-qualquer; na Poética, Aristóteles não lhe dedica interesse e elege a tragédia como o gênero mais significativo no âmbito das criações com a palavra, enquanto na República, Platão prefere…

Cinco livros para conhecer a obra de Iris Murdoch

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Quando publicamos a tradução do texto de Antonio J. Rodríguez sobre Iris Murdoch (veja o final desta post), alguns leitores do Letras, chamaram atenção para o silêncio quase total sobre o nome da escritora no Brasil, principalmente no ano quando se comemora o seu centenário: aliás, 2019 assinala também os vinte anos da sua morte. Mas, uma visita às livrarias e aos sebos responde que, mesmo não colocada entre os interesses principais das editoras, ao menos até agora, não é motivo para dizer de um desconhecimento da literatura da escritora irlandesa no nosso país. Se algumas de suas obras principais ainda não foram traduzidas por aqui, é possível encontrar traduções em Portugal*, onde, ao que parece, Iris tem uma melhor recepção.
Enquanto visitávamos livrarias e sebos, encontramos com uma homenagem proposta pelo caderno Babelia, do jornal El País. O periódico espanhol sublinhava, no âmbito do centenário de Iris Murdoch, o legado da obra da autora de O mar, o mar; em língua espanhola, …

Günter Grass e seu pior segredo

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Por Hermann Tertsch


NoVerão de 2006, um grupo muito seleto de críticos literários e amigos de Günter Grass recebia os exemplares de uma pequeníssima tiragem de apresentação de seu novo e muito esperado livro: Beim Häuten der Zwiebel (Nas peles da cebola). “Apenas para uso pessoal. Críticas suspensas até 1º de setembro”, advertia-se na capa. Era, ninguém negou mesmo nos debates mais duros que seguiram durante os meses seguintes, um novo e grande livro do escritor de língua alemã mais famoso, lido e influente desde Thomas Mann. Semelhante ao autor de Os Bruddenbrook, Grass havia conseguido juntar sua celebridade e glória como autor ao seu prestígio como intelectual comprometido e uma aura de autoridade moral que carregava o levava a emitir opiniões com grande repercussão sobre muitas questões políticas, sociais, econômicas e morais.
Várias gerações de alemães foram educadas e cresceram com os livros e as opiniões de Günter Grass, especialmente no que se refere ao passado nacional-social…

A França contra Marie Curie

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Por Rocío P. Benavente





Paris, princípios de novembro de 1911. Uma multidão enfurecida se aglomera em frente a uma casa para o que hoje chamaríamos escracho embora então essa palavra ainda não existisse. Gritam insultos e acusações, jogam pedras, querem invadir o lugar. Há uma luz acesa na casa e os revoltosos acreditam que o motivo de sua ira está aí e não se atreve a sair. Mas não: ela regressa nesse momento da primeira conferência de Solvay, em cuja histórica foto (possivelmente terão visto, aqui colorizada) ela é a primeira e única mulher. É Marie Curie, volta para casa para encontrar a terrível cena. Suas filhas de sete e catorze anos, assustadas, estão em casa.
Vocês já ouviram falar sobre Marie Curie? Quem não, não é mesmo? É a única mulher cientista que muitos serão capazes de logo lembrar. A primeira que ganhou um Prêmio Nobel. A que descobriu o rádio. A mártir da radioatividade. Uma mulher pequena, magra, sóbria e séria que nos olha em preto e branco a partir de seu simples l…