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Mostrando postagens de 2019

“Finnegans wake” para multijogador

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Por Justo Navarro

Se pesquisarmos na internet film noir ou cinema policial talvez acabemos por encontrar com o último romance de James Joyce, Finnegans wake, que apareceu nas livrarias, fez agora oito décadas, em maio de 1939, quase na mesma ocasião quando se publicava O sono eterno, de Raymond Chandler. Não seria devido essa coincidência, nem pelas supostas aventuras detetivescas do taberneiro Earwicker, protagonista do romance, que fez algo num parque de Dublin e acabou ante um tribunal: se pesquisando Finnegan chegou ao cinema policial é porque o inventor em 1946 do conceito film noir, Nino Frank, colaborou com James Joyce na tradução para o italiano de “Anna Livia Plurabelle”, episódio final da primeira parte do romance irlandês.
Nunca terminei de ler Finnegans wake, romance escrito num idioma inventado a partir do inglês. O problema é que sempre começo a ler de novo a vida do taberneiro Earwicker e sua companheira, Anna Livia; seus gêmeos Shem e Shaun, e sua filha Issy, romance-r…

Don DeLillo, o pós-modernista estadunidense

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Por Andrés Olascoaga


A literatura chegou como um hábito tardio para o jovem estadunidense Don DeLillo. Proveniente de um bairro ítalo-americano do Bronx novaiorquino, DeLillo havia passado a maior parte de sua vida na rua, fugindo dos problemas que inundavam o lugar onde morava e buscando um trabalho com o qual pudesse pagar suas contas no futuro. Durante um desses empregos temporários, encontrou nos livros uma forma de escape de sua realidade. Começava a se tornar ali um dos escritores mais importantes para o pós-modernismo.
Apesar do ambiente onde se vivia nas regiões de classe média de Nova York depois da Grande Depressão, a infância de DeLillo, nascido como Donald Richard DeLillo a 20 de novembro de 1936, transcorreu sem maiores preocupações. Sua família, altamente católica, o acostumou a se manter na linha, cumprir todos os requisitos da escola, ir à igreja aos domingos, construir boas amizades e evitar cair em qualquer vício que pudesse toldar seu futuro.
Quase ao fim da adolesc…

Boletim Letras 360º #332

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1. Em meados dessa semana disponibilizamos os primeiros livros de um bazar virtual que a exemplo de outro realizado há um ano servirá para arrecadar recursos para manutenção do registro do Letras in.verso e re.verso. Para saber quais títulos estão à venda e como adquiri-los basta visitar este link temporário em nossa página no Facebook.
2. No início de 2019, o blog renovou parceria com a Globo Livros com interesse nos livros publicados pelo selo de mesmo nome do grupo e o selo Biblioteca Azul, que edita obras mais próximas dos interesses de sua linha editorial. Esta semana chegou dois novos títulos no projeto de reedição da obra de Valter Hugo Mãe no Brasil, como mostrado em nosso Instagram e Facebook; os leitores que acompanham assiduamente estes boletins saberá que a Biblioteca Azul publicou recentemente o livro Contos de cães e maus lobos, uma antologia de contos editada até então só em Portugal e resenhada por aqui por nosso colunista Pedro Belo Clara, reeditou o primeiro romanc…

A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa

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Por Rafael Kafka


Afinal de contas o que é Canudos? Essa é uma pergunta muito repetida, de forma explícita ou subentendida, no magistral romance de Mario Vargas Llosa A guerra do fim do mundo, livro que pela complexidade do tema político deveria realmente ser escrito por alguém como Llosa. Outrora marxista, o autor de Conversas no catedral é hoje em dia um dos grandes expoentes do pensamento liberal conservador e acredita profundamente que a democracia liberal é a chance que temos enquanto sociedade de garantir dignidade e liberdade a todas categorias e classes sociais.
Sendo um caleidoscópio ideológico interessante, Llosa possui uma obra também cheia de textos multiplanares os quais funcionam como fluxos de consciência a misturar passado, presente e futuro em temas repletos de dimensões políticas tortuosas. O romance citado por mim no primeiro parágrafo é um belo exemplo disso, bem como outras obras como A casa verde e A festa do bode. Llosa é um autor cujo objetivo é captar em todas …

O Diabo em O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov

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Por Davi Lopes Villaça


Em 2017 a Editora 34 publicou a mais recente edição no Brasil de O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (1891-1940), na bela tradução de Irineu Franco Perpétuo. Escrito entre 1928 e 1940 – período que abrange o início da fase mais severa da censura na URSS e os anos da sanguinária repressão política conhecida como Terror stalinista – esse “Fausto russo”, como foi muitas vezes chamado, trata da visita de Satanás à Moscou dos anos 1920-30. Sátira mordaz da sociedade da época, expondo os interesses mesquinhos, na verdade ainda bastante burgueses, do cidadão comum, não é difícil de entender por que uma versão integral do livro só chegou às mãos do público soviético em 1973 (seu autor trabalhou nele até o fim da vida, decerto sabendo que jamais o veria publicado). Além disso, o livro fala de magia e religião, temas malquistos num tempo em que se preconizava o chamado realismo socialista, a se tornar em 1932 o estilo oficial do regime, em detrimento de todos os out…

Anima, de Paul Thomas Anderson

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Por Maurílio Resende


Anima é um curta-metragem classificado como one-reeler, porque possui duração aproximada de 12 minutos, tempo máximo de filmagem permitida por apenas um rolo de filme. Lançado em conjunto com o terceiro álbum da carreira solo de Thom Yorke (Radiohead, Atoms for Peace), a produção estreia no catálogo da Netflix e explora algumas das ansiedades e melancolias do músico e vocalista, construindo no processo uma miríade de paisagens oníricas assombrosas e encantadoras.
A história é simples: encontramos Thom Yorke em um vagão de metrô, no que parece ser a viagem de volta para casa depois de mais um dia de trabalho. Por através do torpor típico que parece acometer a todos no transporte público lotado, Yorke cruza olhares com uma mulher desconhecida, interpretada pela atriz italiana Dajana Roncione. Percebendo que a moça, ao descer do trem, esqueceu sua maleta de trabalho ao lado do banco em que estava sentada, Yorke dá início a uma jornada caótica para reencontrá-la, ultra…

Sete escritoras italianas além de Elena Ferrante que você precisa conhecer

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Desde a publicação do longo romance dividido em quatro tomos que conta a história de duas amigas, da infância à maturidade, passando por momentos singulares em comum e à distância, revisitando instantes conturbados da história italiana e das transformações de Nápoles, a obra de Elena Ferrante nunca mais foi a mesma: deixou o sucesso no seu país natal para se tornar Best-Seller que agrega leitores de todos os tipos e camadas. A chamada febre Ferrante serviu para que no Brasil se traduzisse e se publicasse em tempo recorde toda sua obra, incluindo as incursões da escritora pelo universo infantil. Como se isso não fosse suficiente, abriu os sentidos para um campo entre nós vasto, mas pouco percorrido, o da ficção publicada contemporaneamente na Itália e, na onda dos novos feminismos, o reencontro com obras de escritora desse país um pouco esquecidas, algumas, aliás, referidas pela própria autora da tetralogia napolitana. 
O rápido interesse pela reedição da obra de Natalia Ginzburg tão …

Joseph Conrad. O mar como uma moral

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Por Manuel Vicent


Numa tarde melancólica, uma criança fantasiosa, deitada de bruços na cama diante de um atlas aberto, para de navegar com o dedo indicador todos os mares azuis para adentrar com absoluta liberdade nas selvas mais perigosas. Com a cabeça cheia de barcos piratas, de baús de tesouro, de leões, presas de elefantes, chega um momento em que o menino coloca o dedo num ponto do mapa, o mais exótico, e pensa: “Um dia, quando for mais velho, irei aqui”. Alguns conseguiram realizar este sonho, mas só um se chamou Joseph Conrad.
Este menino não era filho de um conde polonês nem sua tia era princesa belga nem foi apresentado muito cedo ao imperador Francisco José numa audiência reservada no Hofburg de Viena. Os primeiros anos deste escritor, cujo nome de batismo era Jósef Teodor Konrad Korzeniowski, estão rodeados de sonhos aristocráticos que ele fomentava ou não se preocupava em desmentir, sempre fantasioso e rodeado de silhuetas fictícias. Assim deambulava pelo porto de Marselha…