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Mostrando postagens de Fevereiro, 2019

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A pele, de Curzio Malaparte

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Por Pedro Fernandes


Curzio Malaparte é um homem do seu tempo e este romance é, talvez, a prova mais sincera disso. Formou parte com os soldados que lutaram na Primeira Guerra Mundial, quando foi agraciado com o título de capitão no Quinto Regimento Alpino; membro do Partido Nacional Fascista até meados dos anos 1930, quando os vapores de uma nova guerra pairavam sobre a Itália. Foi nessa ocasião que escreveu vários artigos voltando-se contra Mussolini e Adolfo Hitler, o que levou ao exílio forçado na ilha de Lipari por cinco anos, entre 1933 e 1938; depois disso, ainda foi preso várias vezes e nesse mesmo período que cobre quase uma década da sua vida construiu uma casa na Ilha de Capri que serviu de recepção a várias figuras importantes no fim do segundo conflito. A título apenas de curiosidade, foi esta casa cenário de Le Mépris, de Jean-Luc Godard, filme em que estrelaram Brigitte Bardot e Fritz Lang e baseado no romance de mesmo nome de Alberto Moravia.
A pele cobre o período fina…

Veredas do Grande sertão

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Por Mauro Libertella


Em 1908, enquanto Henri Matisse dava a conhecer Harmonia em vermelho no Hermitage em São Petersburgo, nasciam personagens tão diferentes como Simone de Beauvoir, Atahualpa Yupanqui e James Stewart e se fabricava o primeiro carro Ford T. Nascia também João Guimarães Rosa. A secreta lógica do mundo acertou que o nascimento se produzisse em Cordisburgo, um povoado perdido nas Minas Gerais, no coração do vasto mapa brasileiro. Seu pai, como quase todos ali no lugar, praticava muitas e estranhas profissões: comerciante de aves, juiz de paz, cabeleireiro e contador de histórias. Essa multiplicidade, tão própria do aqui e agora em que se formou Guimarães Rosa, marcaria uma das grandes linhas narrativas que se destaca de sua obra.
Em sua primeira infância, o menino fugia de casa e vagava buscando aqueles lugares onde os trabalhadores e os vaqueiros contavam suas histórias enquanto comiam. Podemos imaginá-lo escondido entre as cadeiras de palha de um casarão, ouvindo asso…

Cortar o barato

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Por Andrea Valdés


Em seu impressionante ensaio sobre Sor Juana Inés de la Cruz, Octavio Paz avaliou com luvas de pelica a relação dela com sua mecenas, amparando-se na comum fórmula sobre “a cumplicidade feminina”, como se seu desejo por ela, que brota e por pouco incendeia seus versos, fosse um espelhismo barroco. Intelectualizando-a a afastou dessa tradição iniciada por Safo e que outras continuaram com maior ou menor riqueza. Às vezes, inclusive, de maneira anônima. Sempre órfãs. Na introdução de Sita, Kate Millett dá conta dessa solidão. “Eu rezava todas as noites a Proust porque queria sua música, sua maneira de entender os matizes e a discrição, essa ousadia sua que insistia na essencial e às vezes terrível verdade, embora tivesse que empregar disfarces. [...] E a Violet Leduc, minha única modelo em todo este caminho de escuridão até chegar a Safo. Não havia existido uma linguagem para este amor; tampouco exemplos”. Pouco antes nos informa sobre a tímida acolhida experimentada p…

Nikos Kazantzákis, sem idade para o espanto

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Por Aglaia Berlutti


Quando um livro é considerado “controverso”, ou sua leitura se torna obrigatória ou o leitor começa a se questionar sobre esse elemento polêmico que torna a narrativa um paradigma. Talvez por esse motivo, à obra de Nikos Kazantzákis só interesse muito mais o elemento controverso que a história que se conta, a que tenta expressar uma ideia complexa cuja polêmica é apenas uma parte do discurso e da ideia que se tenta construir. Não obstante, Kazantzákis, com sua prosa precisa e sua capacidade para construir atmosferas complexas através da sensibilidade, parece muito distante do mito de simples escândalo e mais próximo da ideia profunda de uma obra escrita para refletir situações controversas. Uma sólida estrutura literária capaz de avançar além do espanto e criar algo mais substancial que a mera confrontação.
Trata-se de algo que Nikos Kazantzákis obteve tão logo que assumiu a literatura como uma possibilidade de olhar criticamente o seu tempo – e a opinião cultural…

Boletim Letras 360º #310

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Terminou na sexta-feira, 15 fev. ’19, as inscrições para colunistas do Letras in.verso e re.verso. A partir de agora, vamos ler as propostas enviadas, avaliá-las e tomara alcançarmos novos e interessantes nomes para ampliar a qualidade deste blog. Novidades em torno disso, fiquem atentos, estarão em nossas redes sociais. Por falar sobre elas, as redes sociais, neste final de semana ficará disponível uma nova promoção. Sortearemos um exemplar da nova edição de Grande sertão: veredas preparada pela Companhia das Letras. o sorteio acontece em nossa página do Facebook. Depois disso, estamos preparando um desafio para os leitores que acompanham o blog no Instagram. #Desafio10k sorteará muitos livros bacanas. Aguarde. Abaixo estão as notícias apresentadas durante esta semana no Facebook do Letras.


Segunda-feira, 11/02
>>> Brasil: A super-edição de luxo de Grande sertão: veredas
Além da edição comercial, que já está em pré-venda, a Companhia das Letras publica uma edição de luxo do …

Tribalismo, leituras e debates políticos sem demonização

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Por Rafael Kafka


O tribalismo segue sendo um tema que muito me interessa. Ele começou a chamar minha atenção após as eleições do ano passado, no dia seguinte à eleição do presidente Jair Bolsonaro. Naquele mesmo dia, decidi que passaria a estudar as bandeiras políticas defendidas por gente que o apoiou para poder fazer uma crítica mais substancial e concreta do que estava enfrentando. Lembrei-me de uma expressão usada por Terry Eagleton em seu ensaio sobre marxismo e crítica literária: o significante tem significado.
Nas aulas básicas dos cursos de letras, uma das primeiras coisas que aprendemos é que o signo linguístico, seu caráter convencional, é nascido da fusão entre um significante e um significado, uma imagem acústica e um sentido social usual. A fala geralmente deprava esse sentido, expandindo seus usos e por isso mesmo não é estudada, por si só, pelos linguistas. A expressão de Eagleton mostra como a ligação entre significante e significado muitas vezes é transgredida e subve…