Boletim Letras 360º #317



Entrou abril e com este mês iniciamos a apresentação dos novos colunistas do blog. Estão acomodados para novas viagens, Rafa Ireno e Joaquim Serra. Aproveitamos para reiterar as boas-vindas e avisar aos nossos leitores que durante as próximas semanas, calmamente, chegarão os nomes restantes. Para não perder nenhuma informação é simples: fica atento ao Letras — temos postagens diárias e às nossas redes sociais (os links estão disponíveis no final deste boletim). Também queremos lembrá-lo sobre a nova promoção que realizamos em parceria com Global Editora; no dia 13 de abril, em nossa página no Facebook, sortearemos um exemplar da novíssima edição de Sagarana, de Guimarães Rosa. Avisos dados, vamos às notícias divulgadas esta semana em nossa página no Facebook, às dicas de leitura e outros ricos detalhes encontrados apenas aqui, no Boletim Letras 360º.

Maria Teresa Horta. Foto: Luís Barra. A obra da poeta portuguesa começa a circular em edição brasileira. Mais detalhes ao longo deste Boletim.

  
Segunda-feira, 1 de abril.

A arte de repaginar clássicos da literatura

Em parceria com a Amazon uma nova editora brasileira, a Antofágica. E, do interesse de repaginar clássicos da literatura, o primeiro título que chega na primeira semana de maio é A metamorfose, de Franz Kafka. Essa pequena novela, lançada em 1915, revolucionou a literatura e as artes. De forma agressiva, acessível e inovadora, tornou-se um dos mais importantes e difundidos textos da história. O início da obra está inscrito entre os melhores começos da literatura. "Quando Gregor Samsa, certa manhã, acordou de sonhos intranquilos, tudo mudou. Não só em sua vida, mas no mundo". Ao se encontrar metamorfoseado em um inseto monstruoso, Gregor acompanha as reações de sua família ao perceberem o estranho ser em que ele se tornou. E, enquanto luta para se manter vivo e entender a sua nova realidade, reflete sobre o comportamento de seus pais, de sua irmã e de seu chefe, e de forma ainda mais angustiante, pensa na própria vida até então. A nova edição, além de tradução inédita feita por Petê Rissatti, traz 93 ilustrações exclusivas, por meio das quais o artista e escritor Lourenço Mutarelli interpreta o processo de transformação de Gregor. Inclui-se, por fim, um ensaio de Flavio Ricardo Vassoler, doutor em literatura comparada, sobre a contemporaneidade de Franz Kafka.

A contística de Wolfgang Borchert

Ele foi um dramaturgo e escritor alemão. Teve uma curta existência de 26 anos, marcada por experiências nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial, pela vivência nas forças hitleristas e na luta contra elas que o levou a várias prisões. Contos reunidos de Wolfgang Borchert é uma antologia que apresenta este escritor pela primeira vez no Brasil; seus textos retratam o nazismo e são referência da literatura alemã sobre o trauma pós-guerra. Traduzido por Caio Lindoso e Fernando Miranda, o livro ganha edição no Brasil pela editora Jaguatirica com apoio do Instituto Goethe.

Terça-feira, 2 de abril.

Nova edição de uma das obras mais lembradas na cena da crônica brasileira

As crônicas de A borboleta amarela foram publicadas em diversos jornais entre janeiro de 1950 e dezembro de 1952, época em que Rubem Braga já era considerado um expoente da crônica na imprensa brasileira. Graças ao seu lirismo e ao seu raro dom para captar e transmitir aquilo que parece sem importância, Rubem não se furta a destacar em suas crônicas o que pode haver de misteriosamente belo nas angústias e incertezas que a vida apresenta, como também sinaliza para a fugacidade da plenitude, sentimento desejado por muitos em nosso planeta. Neste jogo em que expectativa e realidade se digladiam, as visões e experiências mais prosaicas são cozidas pelo cronista de maneira a conceber textos os quais apontam que ao fim não deve ser dada tamanha importância, mas sim ao percurso, ao conjunto de experiências vividas. Os leitores têm aqui uma amostra vigorosa da potência narrativa do autor, qualidade que conduziu nosso cronista maior a despejar elementos latentes da alma humana em sua prosa marcada pela minúcia. É exatamente neste livro que Rubem Braga faz uma de suas mais conhecidas e características afirmações sobre a crônica, gênero que o consagrou: Há homens que são escritores e fazem livros que são como verdadeiras casas, e ficam. Mas o cronista de jornal é como o cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha, e vai. A crônica que dá título ao livro comprova como Rubem estava sempre pronto a captar a simplicidade das coisas e a ser tocado de forma comovida por todas as manifestações de beleza que o cotidiano lhe reservava: "Reparei que nenhum transeunte olhava a borboleta; eles passavam, devagar ou depressa, vendo vagamente outras coisas — as casas, os veículos ou se vendo —, só eu vira a borboleta, e a seguia, com meu passo fiel". A reedição da obra é da Global Editora, que tem se dedicado na repaginação de toda a obra de Braga.

Uma completa edição de Eugênio Onêguin, o romance em verso escrito por Aleksandr Púchkin

É unanimidade que Eugênio Onêguin é considerado um clássico e seu homônimo protagonista tem servido como modelo para uma série de heróis da literatura russa. Publicado em série entre 1825 e 1832, a primeira edição completa foi publicada em 1833, e a versão atualmente aceite é baseada na publicada em 1837. Nele, a vida em São Petersburgo se apresenta como uma enxurrada de influências estrangeiras, tanto material, na conformação de um cavalheiro cheio de apetrechos vindo de Londres, e culturais, influências de romances de língua inglesa e francesa de sentimento burguês como as obras de Samuel Richardson. A nova edição em duas partes da obra de Púchkin sai pela Ateliê Editorial; inclui notas do escritor e dos tradutores Alípio Correia de Franca Neto e Elena Vássina. Na segunda parte do volume, além da tradução dos Capítulos 5-8 do Eugênio Onêguin, o leitor tem um apêndice que apresenta a tradução de variantes textuais do romance, bem como dos fragmentos da "Viagem de Onêguin", não utilizados por Púchkin; outro apêndice apresenta ensaios paradigmáticos sobre tópicos de interesse relativos ao romance; e um terceiro apêndice inclui textos dos tradutores sobre princípios teóricos e técnicas que nortearam a tradução da obra. Dedicada a Boris Schnairderman que orientou os passos dos tradutores, esta é a edição mais completa do clássico russo entre nós.

Antologia reúne novas traduções para poemas de Paul Valéry

Paul Valéry é um dos grandes nomes da literatura francesa e autor de poemas que estão entre os mais significativos que o século XX produziu, ao lado de obras como as de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rilke. O catálogo da Ateliê Editorial, que já dispõe de títulos como Meu Fausto (2011) e Fragmentos do Narciso e outros poemas (2013), publica agora O azul e o mar. A antologia organizada por Eduardo de Campos Valadares, autor também da tradução e apresentação do livro, reúne poemas de Charmes, poemário editado em 1922, do qual se destaca a publicação de "Le Cimitière Marin" (Cemitério Marinho) e "Ébauche d’un Serpent" (Esboço de uma Serpente), apresentados um ano antes. O azul e o mar reúne ainda outros poemas esparsos e "La Jeune Parque" (A jovem Parca), de 1917, texto que marca seu retorno à poesia por influência de André Gide.

Serotonina, de Michel Houellebecq chega às livrarias brasileiras em julho

Florent-Claude Labrouste tem 46 anos, detesta seu nome e se medica com Captorix, um antidepressivo que libera serotonina e que tem três efeitos adversos: náuseas, desaparição da libido e impotência. Seu périplo começa em Almeria — com um encontro num posto de gasolina com duas mulheres que teria acabado de outra maneira se protagonizassem um filme romântico ou pornográfico —, segue pelas ruas de Paris e depois pela Normandia, onde os agricultores estão em pé de guerra. A França se afunda, a União Europeia e a vida sem rumo de Florent-Claude também. O amor é uma enteléquia. O sexo, uma catástrofe. A cultura - nem mesmo Proust ou Thomas Mann — não é uma tábua de salvação. Florent-Claude descobre escabrosos vídeos pornográficos nos quais aparecem sua namorada japonesa, deixa o trabalho e vai viver num hotel. Deambula pela cidade, visita bares, restaurantes e supermercados. Filosofa e diverte-se. Também repensa seus relacionamentos amorosos, marcados sempre pelo desastre, às vezes cômicos e noutras patéticos (com uma irlandesa que trabalhava em Londres, com uma aspirante a atriz que não chegou a triunfar e acabou lendo textos de Blanchot para o rádio...). Reencontra-se com um velho amigo aristocrata, cuja vida parecia perfeita mas já não é porque sua mulher o abandonou por um pianista inglês e levou consigo suas duas filhas. É esse amigo que o ensina a manusear um fuzil. Niilista lúcido, Michel Houellebecq constrói uma personagem e narrador desbragado, obsessivo e autodestrutivo que perscruta sua própria vida e o mundo que o rodeia com um humor áspero e uma virulência desgarradora. Serotonina demonstra que o escritor continua sendo um cronista desapiedado da decadência da sociedade ocidental do século XXI, um escritor incômodo e totalmente imprescindível.

Quarta-feira, 3 de abril.

A edição de Deus-dará, de Alexandra Lucas Coelho

Este é um livro de fôlego, que reconfirma o nome da escritora portuguesa como incontornável ficcionista. Depois dos romances E a noite roda, galardoado com o Grande Prêmio de Romance e Novela APE, e O meu amante de domingo, Livro do Ano Público / Time Out, (inéditos no Brasil), chega pela Editora Bazar do Tempo Deus-dará. Sete dias na vida de São Sebastião do Rio de Janeiro, ou o Apocalipse segundo Lucas, Judite, Zaca, Tristão, Inês, Gabriel & Noé. Um romance passado no presente, que atravessa quinhentos anos de história entre Portugal e Brasil: a história do Rio de Janeiro desde a sua fundação à atualidade, ilustrando a presença portuguesa, o caráter carioca, as contradições e complexidades de uma metrópole imensa e vibrante. Este livro é ao mesmo tempo palco histórico e cenário de uma trama irresistível protagonizada por sete personagens ao longo de sete dias.

A Biblioteca Azul, selo da Globo Livros, apresenta mais uma edição de luxo para outro clássico de Monteiro Lobato

Em A chave do tamanho Dona Benta está desconsolada com os rumos da humanidade. Enquanto Pedrinho lê as notícias da guerra no jornal, a matriarca do Sítio do Pica-pau Amarelo fica cada vez mais entristecida com os horrores que os homens promovem no mundo. Essa tristeza toma conta de todos e põe Emília para pensar. A boneca resolve tomar uma decisão das mais drásticas: vai até a Casa das Chaves e tenta abaixar a Chave da Guerra para que os conflitos cessem. Por acidente, acaba abaixando a Chave do Tamanho, e reduz a estatura de todas as pessoas — e também de si mesma. Agora todos precisarão aprender a conviver com um mundo novo, em que animais e objetos são gigantes diante da pequenez humana. "A maior reinação do mundo", como definia seu autor, foi escrita e publicada durante o auge da Segunda Guerra Mundial. Nesta história está expresso todo o desencanto de Monteiro Lobato com seu tempo, e sua tentativa de mostrar aos homens quão pequenos eles podem se tornar — em todos os sentidos. Aqui, Emília vai ficar frente a frente com Hitler e Stálin, visitará a Casa Branca e liderará um plebiscito. Em A chave do tamanho, a estupidez e a ignorância são combatidas com as armas da inteligência e da imaginação.

Dois títulos apresenta as duas primeiras décadas da poesia de Maria Teresa Horta

1. A poeta portuguesa inicia seu percurso literário no início da década de 1960 e, sem interrupção, continua sua trajetória até os nossos dias, o que representa praticamente 60 anos de poesia e de ficção de uma qualidade irretocável, uma trajetória poucas vezes realizada na história da literatura com o vigor e rigor da que temos, como leitores e estudiosos, a alegria de presenciar. Pela primeira vez, uma publicação reúne os primeiros volumes da obra de Maria Teresa Horta: Espelho inicial (1960), Tatuagem (In Poesia de 61, 1961), Cidadelas submersas (1961), Verão coincidente (1962), Amor habitado (1963), Candelabro (1964), Jardim de inverno (1966) e Cronista não é recado (1967). O volume conta com os estudos de Ana Maria Domingues de Oliveira e de Luís Maffei, ambos estudiosos de poesia portuguesa, que em publicações anteriores se dedicaram à leitura da obra de Maria Teresa Horta. 

2. Depois do volume que recolhe a poesia da poeta portuguesa apresentada na década de 1960, um segundo traz ao leitor brasileiro a obra neste gênero apresentada durante a década seguinte e contempla alguns dos títulos mais conhecidos e talvez mais emblemáticos e polêmicos de Maria Teresa Horta: Minha senhora de mim (1971), Educação sentimental (1975) e Mulheres de Abril (1977). Como o primeiro volume, neste se apresentam dois estudos: o de Tatiana Pequeno, poeta e estudiosa de poesia, e de Michelle Vasconcelos, uma das organizadoras desta coleção juntamente com Marlise Vaz Bridi. Os dois volumes são editados pela Editora LiberArs.

A nova edição de um dos maiores romances de Graciliano Ramos

No declínio de um atribulado percurso de vida, Paulo Honório, poderoso fazendeiro do sertão alagoano, conta a sua história. O narrador revisita dramas da sua vida e conflitos internos que permanecem inexplicáveis até o momento em que suas memórias estão sendo escritas. Nem a fazenda S. Bernardo, que Paulo Honório comprou por preço irrisório, nem a professora Madalena, a quem contratou para alfabetizar as crianças do seu empreendimento rural e com quem acaba se casando, deram-lhe o sossego que tanto buscava. A escrita, então, é o que lhe resta, na tentativa de ter de volta a paz desejada. Da elaborada teia existencial desenvolvida ao longo da trama — com os conflitos entre as visões de mundo incorporadas pelos personagens —, destaca-se um texto riquíssimo, principalmente nas falas de Paulo Honório, construído em metáforas surpreendentes, ainda que disfarçadas pela concretude das palavras. A nova edição de São Bernardo integra o projeto de renovação gráfica proposto pela Editora Record.

Quinta-feira, 4 de abril.

O primeiro romance da editora e escritora francesa Teresa Cremisi até agora inédito no Brasil

Em A triunfante, um livro de memórias, a autora narra sua infância no Oriente Médio, a mudança para a Europa e faz reflexões sobre ser mulher e estrangeira; esta é a história de uma criança do Oriente sonhando com a Europa, a cavalgada de uma estrangeira cuja única pátria é a literatura, o humor, a ironia; é o retrato de uma aventureira: a odisseia, bem-sucedida ou fracassada, no fim é o que conta. A tradução de Sandra M. Stroparo sai pela Editora Âyiné.

Céu noturno crivado de balas, de Ocean Vuong

Um Vietnã dilacerado pela guerra e pelo comunismo; Nova York - o símbolo da América - ferida pela violência e pela intolerância; a homossexualidade como condição de diversidade e marginalização. Trinta e cinco composições poéticas, inspiradas na experiência desse jovem autor vietnamita que emigrou para os Estados Unidos ainda criança. Céu noturno crivado de balas é animado por uma nova linguagem, de fusão e criação, na qual o amor pelo classicismo — o mito, a estética, a harmonia, a fé na ordem e na simetria — funde-se com a busca por novas formas, sempre fiéis ao verso livre e a um diálogo, surpreendente e vital, entre a prosa e o lirismo. A tradução é de Rogério Galindo e a edição da Editora Âyiné.

Dois novos títulos integram a coleção Biblioteca Áurea 

1. A reedição de Todos os homens são mortais, de Simone de Beauvoir. Questionando o poder, a cobiça, a morte, o prazer, o destino e a transcendência, este ensaio em forma de ficção é visto como uma porta de entrada para a filosofia existencialista de Simone de Beauvoir, além de ser considerado um de seus romances mais fascinantes. A nova edição reapresenta a tradução de Sérgio Milliet e conta com prefácio inédito da premiada escritora Adriana Lisboa.

2. E de um dos textos clássicos de Virginia Woolf para o pensamento feminista. Em Um teto todo seu, ensaio que veio a se tornar um texto feminista fundamental, Virginia Woolf discute a necessidade de as mulheres escritoras conquistarem seu espaço, tanto literal quanto metafórico, dentro de um universo dominado por homens. Se Shakespeare tivesse tido uma irmã, dotada dos mesmos talento e inteligência, poderia ela edificar o mesmo legado do famoso bardo? Ideias como essa afluem neste livro com a liberdade inerente a todo pensamento. Esta edição,  que conta com um contundente prefácio da escritora Ana Maria Machado, reapresenta a tradução de Vera Ribeiro. A Biblioteca Áurea é uma coleção da Editora Nova Fronteira.

Novo título nas reedições da obra de Graham Greene: O cerne da questão.

Scobie é um major inglês que trabalha em uma colônia africana durante a Segunda Guerra Mundial. Após a partida de sua esposa para a África do Sul, ele participa do resgate de um naufrágio, e ali presencia a morte de uma criança. Este episódio o faz reviver a morte de sua filha, que falecera poucos anos antes. Enquanto revive o luto, conhece Helen, uma das vítimas do naufrágio, que se torna sua amante. Depois de ser chantageado e se envolver em ações corruptas para o tráfico de diamantes, o major passa a viver dividido entre o dever e a culpa. Ao construir uma trama de viés ético-religioso com o pano de fundo de um país colonial durante a guerra, Graham Greene se afasta do dos clichês da literatura de viagem. O cerne da questão é, sobretudo, um romance sobre culpa e provação, expiação e suicídio. A tradução de Octacílio Nunes sai pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros. Este o quinto título das reedições apresentadas desde há dois anos; antes, saíram Nosso homem em Havana, O americano intranquilo, Um lobo solitário e Um condenado.

A Editora 34 reúne numa caixa os cinco grandes romances de Dostoiévski

Entre 1866 e 1880, Dostoiévski publicou uma sequência de cinco grandes romances que são hoje reconhecidos como uma das maiores realizações do espírito humano. Crime e castigo (1866), O idiota (1869), Os demônios (1872), O adolescente (1875) e Os irmãos Karamázov (1880) trazem o escritor russo no auge de sua potência criativa. Personagens como Raskólnikov, o príncipe Míchkin, Nastácia Filíppovna, o "demônio" Piotr Stiépanovitch, o adolescente Arkadi Dolgorúki e os irmãos Dmitri, Ivan e Aliócha Karamázov são mais do que invenções literárias: são encarnações das forças conscientes e inconscientes da humanidade. Modos de, pela via da literatura, acessar o que há de mais profundo em cada um de nós.

Sexta-feira, 5 de abril

O novo romance de Manoel Herzog: Boa noite, Amazona

O narrador desta "saga" amazônica é um economista de esquerda que trabalha para um grande banco privado. É contra o aborto e a pena de morte, mas se recusa a dar os mínimos direitos trabalhistas ao caseiro do sítio em que mora. Participa de confrarias e seitas, é membro da maçonaria. Se diz humanista, mas perde a cabeça quando um mutuário de empréstimo consignado não consegue pagar as dívidas. Agora, aos 49 anos, passa por uma crise aguda. Divorciou-se da mulher, o pai morreu. Queria ser escritor, não consegue produzir nada digno de nota. Pelas madrugadas, acorda chutando os lençóis, e é diagnosticado com a chamada Síndrome das Pernas Inquietas. Uma "bruxa-espanhola" lê seu destino no tarô e lhe diz que sua salvação está na floresta. É a partir daí, guiado pelas cartas, que ele decide empreender uma viagem ao coração da Amazônia, onde espera se perder — e se reencontrar.

Há uma maneira de ajudar a Moçambique e é esta

Nos próximos dias chega às livrarias portuguesas uma edição especial de O conto da ilha desconhecida, de José Saramago, exclusivamente dedicada à angariação de fundos para apoiar o trabalho da Cruz Vermelha Portuguesa na assistência às vítimas do Ciclone Idai. Esta é uma iniciativa conjunta da Porto Editora, da Fundação José Saramago e herdeiras do Escritor, que envolve também as Livrarias Bertrand, a Fnac Portugal e várias livrarias independentes, sendo que todas as receitas e direitos de autor relativos à venda deste livro serão doadas a favor daquela instituição. Pilar del Río, Presidenta da Fundação José Saramago, afirma, a propósito desta iniciativa, que esta é uma maneira mais de tornar efetiva a ética da responsabilidade, que José Saramago defendia como norma fundamental de convivência. Esta edição exclusiva de O conto da ilha desconhecida, que José Saramago acabou de escrever a 27 de março de 1997, i.e., há 22 anos e alguns dias, como deixou registado no Volume 5 dos Cadernos de Lanzarote, estará disponível nas Livrarias Bertrand, na FNAC e em várias livrarias independentes, devidamente identificada com uma mensagem alusiva à iniciativa. Publicado, pela primeira vez, em 1997, pelo Pavilhão de Portugal – Expo 98 e pela Assírio & Alvim, este conto narra uma história de otimismo e perseverança na concretização dos sonhos, protagonizada por um homem que procura um barco para navegar até uma ilha que ninguém sabe existir. O conto da ilha desconhecida foi por diversas ocasiões alvo de edições especiais para apoiar a Cruz Vermelha em campanhas de reconstrução de países afetados por catástrofes naturais, como em El Salvador ou na Colômbia. Em 2010, em resposta ao forte terremoto que destruiu o Haiti, a Fundação José Saramago colaborou também com a Cruz Vermelha, então com uma edição especial de A jangada de pedra, cujas receitas reverteram, na totalidade, para apoiar a reconstrução do país.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

O dia 2 de abril foi escolhido pela International on Books for Young People em 1967 para celebração do Dia Internacional do Livro infantil. A data é alusiva a Hans Christian Andersen. O escritor nasceu nesse dia em 1805 e escreveu extensa variedade de histórias para crianças. Títulos como O soldadinho de chumboA pequena sereiaA pequena vendedora de fósforos e O patinho feio, parte no imaginário cultural da literatura ocidental são do escritor dinamarquês considerado, assim, precursor dos livros para crianças. Então, as recomendações desta semana nesta parte do Boletim estão dirigidas ao público infanto-juvenil.

1. Para embalar a imaginação, uma raridade: Alice no País das maravilhas, filme de 1903. Esta é a primeira versão da história de Lewis Carroll. O arquivo que foi restaurado pelo BFI National Archive, da Inglaterra, trata-se de uma peça composta apenas 37 anos depois de Lewis Carroll escrever seu livro e oito anos após o nascimento do cinema. A adaptação foi dirigida por Cecil Hepworth e Percy Stow, e foi baseada nas ilustrações originais de John Tenniel. Veja aqui.



DICAS DE LEITURA

1. O patinho feio e outras histórias. A Editora 34 publicou uma coletânea das histórias de Hans Christian Andersen em 2017, quando se passava nove décadas da apresentação de uma edição ilustrada por Olaf Gulbransson para a obra do escritor dinamarquês. A edição brasileira com tradução de Heloisa Jahn, aliás, saiu com essas ilustrações originais. As histórias de Andersen são de primeira grandeza, cheias de nuances no tom, ritmo e ponto de vista, certeiras no desenho das personagens e da trama, e de uma imaginação inesgotável, que sempre surpreende e dá o que pensar. A coletânea aqui recomendada reúne cinco contos: “Polegarzinha”, “História de uma mãe”, “A roupa nova do imperador”, “A menina dos fósforos” e “O patinho feio”. Na época a editora divulgou que esta era o primeiro título de uma série chamada Obras escolhidas que reapresentaria a literatura de Andersen.

2. O mágico de Oz. Quando L. Frank Baum escreveu este livro sabia que renovava a magia dos contos de fadas, mas talvez não tivesse em conta que se tornaria um clássico e uma das histórias mais conhecidas no mundo. A vida do Homem de Lata, de Dorothy e seus amigos pela longa estrada de tijolos amarelos é uma obra-prima da literatura infanto-juvenil. Dorothy é órfã e mora com seus tios em uma casa modesta da zona rural dos Estados Unidos. Um dia, é carregada por um ciclone que a leva a um reino encantado: a Terra de Oz. Durante sua aventura, a garota encontra três grandes amigos – o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde. Por aqui, há várias edições. Recomendamos a editada pela Editora Zahar.

3. Alice no País das Maravilhas. Publicadas pela primeira vez em 1865, as aventuras da menina Alice pelo País das Maravilhas logo mostraram a que vinham, conquistando crianças, adolescentes e também os leitores adultos. Este é outro clássico infanto-juvenil incontornável, cheio de vida e de verve; romance repleto de alusões cifradas e de humor sutil; fonte de inspiração para escritores, artistas e filósofos; matéria-prima de adaptações literárias, versões cinematográficas e assim por diante. Também há muitas edições disponíveis no mercado. Por gosto e porque sabemos que aqui se preservou a forma integral e mesmo as ilustrações originais de John Tenniel recomendamos a edição apresentada pela Editora 34 que tem tradução de Sebastião Uchoa Leite como Aventuras de Alice no País das Maravilhas. A mesma casa editorial reuniu numa caixa, em 2005, para marcar os 150 anos da primeira edição, o que se tem como espécie de continuidade Através do espelho e o que Alice encontrou lá.

BAÚ DE LETRAS

1. Para quem quiser mais dicas de leitura para a formação leitora infanto-juvenil recomendamos a leitura de uma lista que preparamos em 2012. Reunimos nesta post doze títulos. 

2. Há muita coisa sobre os autores infanto-juvenis e o trabalho de outros autores voltados para este público editada no Letras. O arquivo está aí para ser explorado, mas não deixaríamos de recordar outro conjunto de posts, também de 2012; editamos uma série de catálogos com ilustrações das mais famosas para o livro de Lewis Carroll; a série foi chamada então de "As várias faces de Alice" e formada por sete posts acessíveis aqui.

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Comentários

Anônimo disse…
pessoal,
a pré-venda do livro da Alexandra já começou?
obrigada!
Pedro Fernandes disse…
Oi, ainda não. Mas, é coisa para breve. A nota da Bazar do Tempo diz que o lançamento do livro será em maio, então é possível que da próxima para, o mais tardar, a semana seguinte iniciem a pré-venda.

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