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Mostrando postagens de Junho, 2019

Boletim Letras 360º #327

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Aos poucos leitores que demonstraram preocupação com nosso futuro no Facebook, depois que revelamos sobre os ataques de censura ao conteúdo sofridos por nossa página nesta rede social, deixamos registrados por aqui nosso agradecimento. Os apoios, por breves que sejam, não é demais repetir, sempre nos dão alguma força sobre a necessidade de seguir e, por vezes, tal estímulo findam por nos oferecer algumas saídas. Nesta semana, sofremos outros dois ataques, devidamente denunciados, enquanto seguimos à espera de alguma satisfação por parte da rede. Agora, diferentemente, das outras posts censuradas, revidamos oferecendo de alguma maneira a garantia da postagem e sua veiculação noutras páginas do blog. É possível, como já buscamos experimentar, que utilizemos mais o Twitter; embora o público nessa rede seja minúsculo, variável, incapaz de crescer, além das limitações com as possibilidades do que trabalhamos, é uma alternativa interessante frente à gulodice dos algoritmos do Sr. Zuck. Mes…

Nietzsche, Pavese e o risco de caminhar sobre a memória

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Por Mario Colleoni


Existem incontáveis formas de andar no mundo. Enquanto para uns é a clara afirmação da liberdade e da vida, para outros pode ser uma das muitas derivas irracionais do ser humano. Certa vez se disse que Platão caminhava cabisbaixo, quem sabe emulando Sócrates; Kant seguia uma ordem firme de pautas e costumes, como uma espécie de caligrafia do movimento; Rousseau, por sua vez, chegou a transformar o passear num autêntico modus vivendi; e Thoreau se atreveu a escrever um dos primeiros escritos que se conhece sobre as qualidades salvadoras do ato de caminhar. Não se contempla, entretanto, que o fato de andar, caminhar ou passear sejam acontecimentos excepcionais, tampouco estúpidos. Mas a verdade é que, cabeça baixa ou queixo erguido, percorrer o caminho de seus próprios passos pode chegar a se tornar um verdadeiro perigo, por várias razões. A primeira de todas elas é resistir o descrédito das certezas incomensuráveis como o poste de luz da esquina ou acabar atropelado …

As mulheres que habitam a Maga, de O jogo da amarelinha

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Por Nancy Paola Moreno





Lucía, ou melhor, Maga, se nega a aceitar o aceitável. É a revelação da desordem a causa do fracasso das leis em sua vida. Desse caos constrói uma ordem misteriosa, inacessível e talvez mágica. É a negação daquelas lições aprendidas e replicadas pela maioria das meninas no mundo: deves ser virtuosa e serás uma grande mãe e esposa. Não era ensinar. Doutrinaram, as meninas cresceram e sofrem por causa dessa sentença imposta.
A Maga é o retrato de uma soma de imperfeições que pode ser luz. Adora a cor amarela e os cigarros Gitanes. Não quis acreditar naquela invenção humana da perfeição. Seu mistério a converteu numa mulher vital e complexa. Numa eterna pergunta que jamais se extingue. Sofre irremediavelmente ao retornar para suas recordações, mas é capaz de nadar extensos rios metafísicos que nenhum homem compreenderia.
Nunca entende o que é ser mãe. Mas, sem nenhuma dúvida, a carta que escreve ao seu filho Rocamadour está repleta de uma ternura e amor transbordan…

A chave, de Junichiro Tanizaki

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Por Joseph Lapidario


Nesta época quando os diários pessoais se tornaram semipúblicos, poderá parecer estranho o ponto de partida para A chave, grande peça da literatura erótica escrita por Junichiro Tanizaki. No romance, um casamento tradicional com vida sexual muito pobre chega em 1956 ao vigésimo aniversário. Ele é um cinquentão de saúde frágil, ela se mantém ativa e bonita aos quarenta e cinco anos. Ele decide começar a escrever um diário e flerta com a ideia de que ela leia, já que sabe perfeitamente onde os escritos estão guardados. Para não ficar por baixo, ela também começa seu próprio diário e estabelece um curioso jogo implícito repleto de ambiguidades, tensão sexual e duplos sentidos. 
Embora os dois se neguem ofendidos em seus respectivos diários, está mais ou menos claro que cada um lê o diário um do outro e aproveita para enviar mensagens, pistas sobre infidelidades mais ou menos consentidas e buscadas, suposições, medos, obsessões.
Até que uma situação irrompe revelando…

O paradoxo da identidade na diversidade

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Por Joaquim Serra


Marshall Berman define e modernidade – e o sentimento da modernidade – como a “experiência do tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida” (p.24). O crítico conclui que para os indivíduos modernos, a alteração de todo o conjunto – que poderíamos chamar de ambiente – e o sentimento de coletividade é que faz com que se manifeste a modernidade. Para o crítico, a modernidade une a espécie humana porque liquefaz as fronteiras e as experiências são coletivas, porém com um paradoxo: as próprias experiências também são liquidadas – como disse o sociólogo Zygmunt Bauman – o que leva a uma não possibilidade muitas vezes material e duradoura da experiência.
De certa maneira, o princípio básico da individualidade, aquilo que nos faz sujeitos únicos também é posto em xeque. E é nesse sentido que nos é apresentado o personagem Tertuliano no romance O homem duplicado (2002) de José Saramago. Assim como Marshall Berman, Saramago também mostra a con…

1984, de George Orwell. 70 anos depois

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Eric Arthur Blair (mais conhecido como George Orwell) não conseguia gostar do título O último homem na Europa. “A ideia do livro é boa, mas a execução poderia ter sido melhor, se não tivesse escrito sob a influência da tuberculose”, advertiu antecipadamente ao seu editor Fred Warburg, que queria um título mais comercial. “Estou inclinado a 1984”, reagiu o autor, “embora poderia pensar em algo diferente nas duas ou três semanas seguintes”.
Mas, não deu mais voltas e quanto entregou o datiloscrito final – escrito numa velha máquina de escrever ora na cama e entre nuvens de fumaça dos seus inseparáveis cigarros – bastou inverter a data de entrega do arquivo dezembro de 1948 por 1984. Embora exista quem defenda que o ano é também uma referência ao centenário da Sociedade Fabiana (fundada em 1884) ou uma homenagem ao seu querido Chesterton, que situou O Napoelão de Notting Hill numa fictícia “realidade alternativa” de 1984 em Londres.
A sorte literária estava lançada; o relógio marcava treze…