Ausente, de Marco Berger



Por Pedro Fernandes



As expressões amorosas não teimam em se tornar apenas na sua força contrária. Isso nos diz que o amor é coisa de natureza muito mais complexa que a mera conjunção dicotômica com o ódio e com o mal. É que entre esses dois limites operam-se sutilezas de ordem diversa e quase-sempre não capturadas à primeira vista. Haverá circunstâncias, por exemplo, que o amor pode virar culpa. E é essa uma das principais lições que podemos apreender sobre o filme de Marco Berger. Começar a falar sobre Ausente a partir de um tema aparentemente transversal não é uma tentativa gratuita de se afastar dos dilemas mais complexos que se formam ao longo da narrativa; é, antes de tudo, encontrar uma alternativa capaz de perceber a questão-problema por outro ângulo, diferente daquilo que nossa condição moral tem imposto ver as coisas.

É bem verdade que, tal condição opera como restritivo que nos impossibilita avançar sobre a ideia que lançamos sem deixar de atravessarmos tais apetites. E, no caso de Ausente a questão mais sensível está tão centralizada que é mesmo impossível não trazer para a mesa o debate ético-moral sobre o que vemos. E o que vemos, ou melhor supomos ver, é um abuso sexual entre um professor de Educação Física e um aluno, jovem menor de idade. Os que preferem apenas a corredeira da polêmica não deixará de se sentir incomodado com o tema e praticar abjuração contra a peça antes mesmo de vê-la. Mas, examinemos algumas sutilezas propositalmente colocadas pelo cineasta capazes de não reduzir o debate a uma negação sobre a questão.

A principal delas, é a natureza livre do adolescente. Martin encarna o papel masculino da ninfeta, o capaz de engendrar toda uma situação que possibilite visgar o adulto seduzido para a realização de seu desejo. É óbvio que a autoridade da pessoa madura deveria funcionar aqui com a principal força capaz de assegurar a preservação do jovem, de preferência a conversa aberta e livre sobre a situação no intuito de esclarecer ao possuído do instinto carnal seus limites. Mas, e aqui se apresenta a primeira provocação de Ausente, nossa sociedade foi educada a silenciar sobre o corpo e o desejo homoerótico se reveste ainda de outras camadas mais grossas que o tabu sobre o sexo. A liberdade de Martin não é outra se não aquela depositada pelos pais e pela sociedade de que o homem se realiza naturalmente sozinho de acordo com balanço da maré da vida; isto é, à criatura do sexo masculino é dada a autonomia e com ela a transformação do corpo em objeto silente, levado para o instinto. Se em casa não se percebe quaisquer possibilidades de integração familiar capaz de propiciar a Martin uma reflexão sobre si e suas pulsões, na escola, tais questões também não estão na pauta do dia: o menino faz-se sozinho e com os amigos.

Em parte, as situações forjadas pelo adolescente só chegam ao limite que chegam devido a esse carretel de silenciamentos que socialmente se impõe para e entre homens; a outra parte se apresenta como um excesso de zelo assumido pelo professor. Não sobra espaço para que o espectador faça acusações a essas duas personagens, porque, afinal, o interesse do cineasta não está em apontar culpados. Obviamente que vigora, todo tempo, uma suspeita sobre Sebastian; que este suspeite da sucessão de acasos que forçam a todo tempo o aluno a permanecer no seu convívio. Mas ele está integralmente enredado pela mesma força dos silenciamentos imposta ao homem: assim, como compreender o enredo proposto por Martin se o professor não tem ciência sobre a natureza do outro, nem sobre sua natureza ou, ainda, se encontra no desejo do aluno uma suspeição sobre si próprio?

Aos olhos mais sensíveis, uma revelação: podem ver Ausente de olhos bem apertos porque não encontrará nenhuma situação capaz de fazê-los não avançar na história. Daí, fica-nos sempre a interrogação sobre as razões que levaram à crítica a ler o filme como uma narrativa sobre violência sexual. A resposta está bem diante de nosso próprio nariz e foi dada aqui mesmo: só interpretamos as movências do corpo desejante presos a padrões e determinações ético-morais. Este filme argentino lida especialmente com a corrosão de modelos. Sua narrativa, à medida que avança numa investigação quase detetivesca sobre o destino das duas personagens, mais se mostra como possibilidade e suspeição.

O que há de verdadeiro entre professor e aluno é a troca de olhares, a proximidade dos dois pelas invenções de Martin e somente. Não tardará percebermos que estamos transitando pelo interior de uma consciência que volteia em torno de desejos, silêncios, pulsões, imaginações. Quando sabemos da ausência física de Martin é que percebemos a maior complexificação da narrativa; é quando todas as verdades que vínhamos construindo, incluindo a possibilidade do imbróglio sexual, são colocadas no ponto-limite da verdade ou da pura ficção. Marco Berger é pontual, sensível e, o melhor, consegue envolver-nos na mesma órbita dos delírios de suas personagens. A revelação da ausência do aluno é a que nos esclarece sobre o ponto inicial que dissemos sobre o filme: é esta, repetimos, uma narrativa de quando o amor se torna culpa.

O vazio de Martin presentificado em Sebastian em situações diversas – da lista de chamada nas aulas, cena que atua como um refrão que liga as situações do fim às do começo da narrativa, ou as recordações dos breves instantes forjados por aquele – produzem uma série de modificações na existência da segunda personagem só reveladas numa situação das mais verdadeiras do filme: o reencontro de Sebastian com sua própria camiseta de juventude que outrora tinha sido usada por Martin. Aqui, percebemos o que poderíamos compreender como uma descoberta de identidade, mas é sobretudo a materialização definitiva de uma culpa que perpassa toda a narrativa. Não é o dilema ético-moral da sexualidade ou do envolvimento entre um adulto um menor de idade, é, primeiro, o dilema sobre a impossibilidade de saber que se ama e, segundo, a impossibilidade de dizê-lo.

Marco Berger finda, assim, por colocar em debate uma questão para revelar outra. O cineasta não romantiza a pedofilia; ao contrário, tem ciência, do mal ao ponto de se utilizar das mesmas artimanhas do romance clássico quando lidava com situações presas aos limites ético-morais de seu tempo. Mas, quer nos chamar para o debate: quais os limites do desejo e é mesmo possível regulá-los através de protocolos jurídicos que depositam no adulto toda a responsabilidade sobre relações de afeto. Mais que isso, se este é um tema complexo em sua natureza, então por que não se discute abertamente na sociedade ou por que o transformamos em silêncio e preferimos continuar subjugando a força de nossa própria natureza, negando-nos como corpos desejantes. E, por fim, o que fazermos para lidar com os amores que não revelam seu nome e só se notam na ausência.

Não sobram respostas, porque o trabalho de toda obra de arte é, antes de tudo nos colocar inquietações, transformar obviedades em dilemas, silêncio em vozes; o que fazemos com isso é coisa que ainda não aprendemos a administrar porque preferimos sempre a leitura mais rasa e mais simples, pelos códigos que inventamos e temos como verdade absoluta. Ainda estamos muito longe de sabermos, clara e abertamente, nossas possibilidades como sujeitos desantes e do desejo.


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