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Mostrando postagens de Agosto, 2019

Joseph Conrad no coração das trevas (Parte 1)

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Por Rafael Narbona


O coração das trevas apareceu em 1902. Uma estadia de seis meses no Congo dizimado na época pela ganância de Leopoldo II da Bélgica inspirou Joseph Conrad, um oficial da marinha mercante britânica, a escrever um pequeno romance que inclui uma versão sombria sobre a natureza humana e uma reflexão sobre o mal a partir de uma perspectiva metafisica e simbólica. O coração das trevas não é um romance histórico e sim uma poderosa metáfora que transcende as épocas revelando as limitações da linguagem e da inteligência humana para expressar a complexidade do mal. O ódio ao outro, ao marginalizado, ao diferente, nasce de um impulso sombrio que Freud considerava um elemento essencial de nossa vida psíquica.
Não surpreende que Francis Ford Coppola tenha se inspirado no trabalho de Conrad para recriar a crueldade da guerra em Apocalypse Now (1979), mostrando que a violência homicida obedece a certos lugares da política e da história, mas, em último termo brota de um impulso irr…

A descoberta da realidade em O Aleph, de Jorge Luis Borges

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Por Candido Pérez Gallego


As duas citações apresentadas na abertura de O Aleph indicam ao leitor as duas dimensões entre as quais se move este conto. A referência a Hamlet, com uma alusão ao infinite space se liga com uma menção ao Leviatã onde se fala sobre Infinite gretnesse of Place. As duas coordenadas mantêm com O Aleph uma espécie de oportuno prólogo e ambas frases, a de Shakespeare e a de Hobbes, nos oferecem um testemunho sobre a infinitude. Daí que devemos entrar em O Aleph com um vago pressentimento de que esconde algo marcado de eternidade. É assim que Borges se comunica com o futuro. Suas narrativas, tão rodeadas muitas vezes do presente com centenas de referências e suportes bibliográficos, se perdem no que seja o tempo porvir; são como projetos improváveis, hipóteses incertas. O Aleph não é uma exceção.
A história que Borges nos conta está centrada numa figura pertencente a esse plano ambíguo real-ideal que se chama Beatriz Viterbo. Os heróis da obra do escritor são como…

Boletim Letras 360º #326

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Bem-vindo leitora e leitor do Letras in.verso e re.verso! Esta postagem reúne todas as informações de interesse de nossa linha editorial que foram apresentadas durante a semana em nossa página no Facebook. A ideia para o Boletim Letras 360º que chega à sua semana n.326 nasceu quando aquela página começou a limitar a quantidade de acessos das publicações aí apresentadas. O registro no blog se mostra como uma garantia de acesso aos leitores que perderam a notícia divulgada. Boa leitura!


Segunda-feira, 12 de agosto
Depois da reedição de A sucessora, novo título de Carolina Nabuco volta às livrarias pela Editora Instante.
Em Chama e cinzas, Carolina Nabuco mais uma vez faz um retrato da posição da mulher burguesa, agora no final da primeira metade do século XX, apresentando os valores e os tabus que orientavam o lugar social da mulher, mas trazendo também uma nova voz feminina que parece emergir desse contexto. Há, com isso, um distanciamento significativo de A sucessora, seu romance anter…

O esforço de assimilação em Pastoral americana

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Por Rafael Kafka


Em seu Modernidade e ambivalência, Zygmunt Bauman fala de regimes totalitários, em especial o nazismo movido por ideias de pureza racial, como um sistema de pensamento ligado à ideia moderna de homogeneidade. Para o pensador polonês, sistemas como o nazismo encontram suas fontes nos ideais de harmonização de intelectuais como Kant, obviamente em uma interpretação motivada por ressentimento, complexo de inferioridade e desespero.
O nazismo e outros totalitarismos, inclusive o soviético, são formas de eliminação do outro. O desejo aqui, mesmo que contido apenas no campo da ideologia mais rasa para disfarçar interesses mais profundos, é criar um ambiente social em que a ambivalência não existe, a contradição e o choque de ideias deixem de ser uma problemática para os sistemas políticos. Nesse sentido, elementos como o nacionalismo, já tão destacado por Stuart Hall em seu curto, porém seminal, A identidade cultural na pós-modernidade”, são formas que o sujeito encontra d…

A uruguaia, de Pedro Mairal

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Por Pedro Fernandes


“Conto isso porque ultimamente andei pensando bastante no tema família e casamento. Pode parecer que estou dando uma de liberado, mas te digo com toda a sinceridade: precisamos pensar de um jeito novo. Crescemos imersos numa ideia de família que nos encheu de angústia quando vimos as rachaduras.” Este excerto integra a segunda parte de A uruguaia. Está situado nos instantes finais da narrativa e o seu estilo é o de uma assertiva resultada de uma ampla investigação sobre o tema discorrido; o desfecho do romance assume propriamente o tom de uma crônica conclusiva sobre a extensa parte das ações registradas por esse narrador/ cronista. Mas, o leitor não está diante de um romance-tese ou de um ensaio sobre uma questão e sim de uma história que recria um drama recorrente desde sempre para os literatos: o das relações amorosas falidas.
A uruguaia se constitui por pelo menos três principais linhas viandantes: uma viagem de ida e volta da Argentina ao Uruguai; trânsitos de…

Elena Garro, uma escritora contra si mesma

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Por Jan Manrtínez Ahrens


Elena Garro (1916-1998) nunca encontrou a paz. Hipérbole de si mesma, sedutora e delirante, a vida da mais enigmática escritora mexicana do século XX é ainda uma ferida aberta no México e na América Latina. Falar sobre ela é sempre falar de quem o foi o lado contrário, obsessivo e doloroso, de Octavio Paz. Ela viveu contra ele e contra ele escreveu. Mas não reduziu sua biografia na luta contra o totem. Sua aproximação com o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e seu serviço secreto e, sobretudo, seus enganos ante à matança de Tlatelolco, não a transformaram numa escritora maldita. Romancista, dramaturga e poeta, Garro fez de sua existência um conto fantástico, mas deu ao mundo uma literatura que só agora começa a ser contemplada em toda sua imensidão.
Há um dia na vida da escritora que marca toda sua vida. Foi o 24 de maio de 1937. Ante quatro testemunhas, Elena Garro, uma estudante que sonhava em ser bailarina, casou-se com o poeta Octavio Paz. Estavam …