Controle, de Natalia Borges Polesso

Por Amanda Lins




Natalia Borges Polesso recebeu o prêmio Açorianos 2013, na categoria contos, com seu primeiro livro, Recortes para álbum de fotografia sem gente. Amora, seu segundo trabalho, lançado em 2016, foi vencedor do prêmio Jabuti e novamente do prêmio Açorianos, ambos na categoria contos – também recebeu o prêmio Jabuti na categoria “escolha do leitor”, neste mesmo ano.

Agora, em 2019, a Companhia das Letras publica o seu primeiro romance – Controle. Maria Fernanda, a protagonista da história, se arrebenta numa queda de bicicleta. O leitor se arrebenta ainda mais, do começo ao fim, porque o livro trata, com a leveza característica da narrativa da autora, sobre vários dilemas existenciais que se seguem à queda. E, aqui, nem falo sobre o diagnóstico de epilepsia, porque não é apenas isso. Aliás, na escrita de Natalia, nunca é apenas isso.

 “A música mastigada na fita it’s a strange day and the people around me o mofo e uma colônia de bactérias, ouvi a voz da professora na aula de ciências, eu era o chão, ânsia de vômito, estava feliz com todas as coisas animadas e inanimadas da face da Terra, que era mesmo um planeta fascinante girando num vasto nada cheio de outros planetas, estrelas e sujeira, no fim éramos todos e tudo the noise that surrounds o vômito de Deus, girando em direção a um ralo existencial, buraco negro ao contrário, éramos um grande nada girando no tudo, o movimento incessante de cada célula reproduzido ad infinitum por todas as galáxias, o mesmo movimento que ia e vinha do meu estômago pulsando energia cósmica, such a strange day uma descarga de mundo na minha cabeça.”

Maria Fernanda, após o diagnóstico, pouco a pouco vai se percebendo enclausurada, distante, presa – e pouco a pouco precisa reaprender a ser uma Pessoa, viva, com uma existência real e que abraça tantas coisas além de sua condição médica – além de sua orientação sexual, além da superproteção de seus pais. Maria Fernanda precisa, como eu e como você, assumir o controle do que se passa ao redor e dentro dela mesma.

Maybe I’ve forgotten the name and the address of everyone I’ve ever known it’s nothing I regret save it for another day it’s the school exam and the kids have run away. Tirei meu diário da gaveta, um caderno velho de capa verde, todo amassado, joguei no saco. Boca seca, língua grossa, fui tomar um copo d’água que desceu pesada, me inundando dentro. Peguei o caderno de volta. Escrevi em letras grandes: ‘FUGA’”.

Em Controle, o leitor se vê preso junto à personagem, entende com ela que é preciso encarar a fuga, encarar a si mesmo. Você canta junto com Maria Fernanda she’s lost control again, ou we’re like crystal, ou ainda hoje tô feliz!, matei o presidente (aliás, a playlist da obra no Spotify deixa a experiência da leitura ainda mais completa – obrigada por isso, Natalia). Você sente os medos e as angústias, as felicidades, as paixões e os receios de Maria Fernanda. E de seus pais. E de Joana, e de Alexandre. E as suas próprias mesmas angústias e seus próprios mesmos medos.

“Ninguém perguntava como eu me sentia. Eu não sabia responder com precisão. E as pessoas acreditavam na precisão dos sentimentos. Estou feliz. Estou triste. O que aquelas palavras queriam dizer, afinal? Estou com três quilos de areia molhada no estômago.”

Natalia passeia por gêneros literários como passeia por crises existenciais das personagens, como passeia pelos anos de Maria Fernanda, como passeia por depressão, ansiedade social, automedicação, medicação prescrita, abuso de remédios, enterro de sentimentos, enterro de remédios e dificuldades nas relações interpessoais, como passeia pela descoberta da própria sexualidade, paixões, ciúmes, amor, tesão&música. Passeia pelo medo de ser algo mais.

“E ele me perguntou se eu não sentia tesão, se não gostava de ninguém, se não tinha borboletas na barriga. Eu ri. Eu poderia ter borboletas que bagunçavam tudo e depois regrediam para a forma de casulos até que estes eclodissem soltando um monte de lagartas feiosas, perigosas, que deixariam um rastro de queimadura por tudo.”

Há algo de Macabéa em Maria Fernanda. Macabéa assim, menos Macabéa, se é que esta é uma descrição possível. Macabéa em revolta por suas próprias decisões, Macabéa da qual se escuta o grito por-favor-tire-me-daqui, que cansa de encarar o silêncio. Macabéa que precisou vivenciar o luto de si mesma até ouvir novamente seu coração e perceber que não, não morri. É uma Macabéa mais próxima a mim e a você porque, às vezes, estamos inertes em tantos pontos. Porque precisamos descobrir-nos.

Fui estraçalhada pela narrativa; quis, eu mesma, tomar o controle: da doença, dos remédios, de mim mesma, de minhas relações. O livro me trouxe essa sensação, muito específica, de claustrofobia: porque quis romper com paredes que Maria Fernanda ainda não estava preparada. Porque precisei entender que assim mesmo acontece a vida, aos poucos, com angústia, rasgando paredes hoje sim e amanhã não, amanhã não e hoje sim. É essa claustrofobia necessária que faz o livro tão importante, tão intenso, tão urgente.

Na contracapa, está escrito: “Controle é antes de tudo um livro sobre a solidão”. No texto de sinopse, é “uma narrativa impactante sobre relações homoafetivas entre mulheres, sobre o poder do desafio e, acima de tudo, sobre as escolhas que precisam ser feitas para que as pessoas se tornem quem elas querem ser”. Eu gostaria de ter lido e estar pronta para dizer-lhes sobre o que se trata o livro, acima de tudo, mas não posso. É que, na verdade, não sei mesmo se gostaria. É que, na verdade, em Controle, Natalia lhe fala sobre tudo isso & um pouco mais. E é leve e impactante como música. É a busca de si mesmo, apesar e além de qualquer rótulo. É descoberta e redescoberta e reredescoberta. É um romance recém-nascido e já essencial.

Ainda estou caída no chão, e ficarei por muito tempo. Estejam preparados.


Comentários

Naidí Lins disse…
Gostei muito da percepção da colunista Amanda Lins. Fomentou o desejo de ler esse e outros livros.

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