Postagens

Mostrando postagens de Outubro, 2019

Carlos Drummond de Andrade e as tentativas de ser outro

Imagem
Por Pedro Fernandes




Em 1925, Carlos Drummond de Andrade editou o primeiro número de A revista. Era ainda um jovem desprovido de qualquer ambição literária como terá admitido mais tarde. Embora essa condição seja facilmente questionável não deixa de ser aceitável. Apesar de ser filho de família de posses, seu destino parecia fadado ou à vida pacata da minúscula Itabira ou na tímida Belo Horizonte. As estadias fora do interior de Minas Gerais, primeiro na capital, e depois em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, para concluir os estudos básicos, terão contribuído decisivamente para a formação de um espírito totalmente alheado ao destino – este que poderá ter sido visto, como ainda é para a maioria dos jovens dos interiores desassistidos do Brasil ou de lugares silenciados pela prepotência dos grandes centros, como uma desbragada fatalidade.
A mudança da família para Belo Horizonte em 1920 serviu de alguma maneira para suavizar no jovem esse sentimento. Mas, o casamento com Dolores de Mora…

Joker

Imagem
Por Davi Lopes Villaça


Parece inevitável comparar o Coringa de Joaquin Phoenix em Joker com o Coringa de Heath Ledger em Batman: the dark knight, embora as propostas das duas personagens sejam completamente diferentes. O Coringa de Phoenix parece ser, na verdade, o perfeito antípoda de seu antecessor. No dizer de algumas pessoas na internet: “o coringa do Ledger era um fodão. Esse aí é um perdedor”. Acho interessante refletir sobre essas categorias.
Em português, coringa significa indivíduo versátil, capaz de desempenhar múltiplas funções; daí o nome da carta do baralho, que pode substituir qualquer outra. Esse sentido cai bem à personagem dos quadrinhos, mas mais ainda versão de Ledger: um homem sem identidade, que não é ninguém mas pode ser qualquer um. O vilão se define menos pela loucura e pelo sadismo do que por sua astúcia. É a expressão de um poder caótico e demoníaco, que dificilmente pode ser agarrado ou previsto. Nós o amamos e torcemos a seu favor em parte porque o vemos co…

Livros para ampliar o Boom Latino-Americano

Imagem
A lista a seguir foi apresentada na edição do caderno Babelia editado semanalmente no El País espanhol. A ideia de um conjunto de escritoras a construir uma sequência de obras literárias escritas por mulheres no intuito de ressaltar a presença delas no âmbito universo da criação literária latino-americana é apresentada numa ocasião marcada por uma sorte de divergências e avanços tal como sublinha Laura Fernández em “Um novo mapa literário”, texto que acompanha a lista em questão. Recentemente, a Cátedra Mario Vargas Llosa esteve envolvida numa polêmica por ocasião da realização da 3ª Bienal do Romance; o evento reuniu um número muitíssimo superior de escritores, escolhidos então, exclusivamente pelo critério da “qualidade literária”, motivo vago às vistas de outros escritores e escritoras que aproveitaram a ocasião para divulgarem o manifesto “Contra o machismo literário”. O documento assinado por personalidades como Rosa Montero e Juan Villoro destaca que “é inadmissível que no sécu…

Gertrude Stein, feita de vínculos

Imagem
Por Sofía Viramontes



Gertrude Stein é um dos nomes mais importantes da história da arte moderna. Sua literatura e mecenato mudaram a maneira como a arte era percebida no início do século XX. Sua biografia pode ser contada a partir da arte, da literatura (escreveu romances, poesia e teatro) e das ideias (do feminismo, sua posição sobre invasão nazista da França ou libertação sexual). Mas todas as etapas de sua vida também foram marcadas pelos relacionamentos – emocionais, intelectuais e de trabalho.
Gertrude nasceu depois de quatro irmãos em 3 de fevereiro de 1874, em Allegheny, Pensilvânia. Aos três anos, a família se mudou para Viena – todos falavam inglês e alemão por causa da ascendência judaico-alemã do pai – e logo em seguida para Paris. Naqueles anos, os pais Daniel e Amelia Stein trabalharam para incutir nos filhos os modismos culturais europeus.
Depois, voltaram para os Estados Unidos, para a Califórnia. A mãe morreu em 1888 e o pai em 1891. Michael, o irmão mais velho, perman…

Boletim Letras 360º #346

Imagem
Para o universo editorial do livro o fim do ano começa agora em novembro, quando pouco ou quase nenhuma nova edição é anunciada; de agora, o Boletim Letras 360º começará a aparecer mais magro e com mais pautas sobre os livros por vir. E, como o mundo literário não se resume ao mercado editorial, o que o mantém em rotação todos os dias do ano, e esta é uma publicação que perscruta vários dos seus lugares – seguimos. Com matérias e dicas de leitura. Obrigado pela companhia e boas leituras!

Segunda-feira, 21 de outubro
De olho no centenário de Clarice Lispector, editora publica edição especial para três romances da escritora.
1. O lustre
Apesar de sua absoluta beleza, O lustre talvez seja, entre as excepcionais obras de Clarice Lispector, a menos comentada. Dele, quase não se pode falar (e sim absorvê-lo), pois não contém aquelas matérias de que se servem os romances para auxiliar-nos a fixar os acontecimentos. Embora bem pouco ocorra, sabe o leitor que algo terrivelmente forte e de grand…