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Mostrando postagens de Dezembro, 2019

É possível ler “A montanha mágica” em nossos dias?

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Por Karl Krispin




“...mas quando olho para trás, em retrospectiva, tenho a sensação de trazer aqui quem sabe há quanto tempo, e que uma eternidade se passou desde o dia em que cheguei e, desde o início, não percebi que já havia chegado e você me disse: ‘Você não vai descer?’”
Thomas Mann, A montanha mágica

Nosso mundo contemporâneo parece ter uma relação um tanto contraditória com os romances de grande extensão. Obras como Dom Quixote de La Mancha, Guerra e paz ou A montanha mágica foram acusadas de serem muito volumosas e, portanto, incompatíveis com a civilização atual que leva um tempo curto. Alguns especialistas pontuam que a leitura que melhor se ajusta à nossa era é a da ficção breve. O que foi exposto nada mais é do que uma falsidade e uma pretensão na mesma categoria daquela que diz “uma imagem vale mais que mil palavras” (por que essa frase tão reciclada nunca foi expressa com uma imagem?).
A literatura do consumo em massa fabricada nos Estados Unidos de escreventes e ghost wr…

Rebecca West, o clássico da literatura britânica ainda por se descobrir

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Por Ana Marcos

Rebecca West conseguiu percorrer parte do século XX desfazendo qualquer possibilidade de que seu nome e obra fossem associados com algum rótulo ou uma ideologia. Conseguiu isso com um olhar particular sobre a história da Iugoslávia, os julgamentos de Nuremberg do regime nazista e sua maneira de entender o feminismo – então concebidos como ódio aos homens. “Eu nunca fui capaz de descobrir exatamente o que é feminismo; só sei que as pessoas me chamam de feminista toda vez que expresso sentimentos que me diferenciam da condição de um capacho”, disse ela. Foi assim, até se tornar uma das figuras mais relevantes da literatura do último milênio.
West nasceu em 1892 em Londres com o nome Cecily Isabel Fairfield que rapidamente mudou para Rebecca West em homenagem à heroína rebelde da obra A Casa de Rosmer, de Henrik Ibsen. Aos 16 anos, ela deixou a escola para se tratar de uma tuberculose e desde então se tornou uma autodidata. Seu pai, jornalista de origem irlandesa, já havia…

Boletim Letras 360º #352

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Outra semana para a conta da nossa história. E as histórias que fizeram a semana em nossa página no Facebook estão disponíveis abaixo com as seções de costume desde certa altura das publicações do Boletim Letras 360º: as dicas de leitura, de materiais extra-blog e ligados aos nossos conteúdos e a revisitação no universo de quase quatro mil entradas nesses já 13 anos online. Boas leituras e obrigado pela sua fundamental companhia. 

Segunda-feira, 2 de dezembro
Editora portuguesa publicará fotobiografia de Jorge de Sena.
O anúncio vem no final do ano do centenário do nascimento do poeta português. Segundo a editora Guerra e Paz, responsável também pela publicação das cartas entre Jorge e e Sophia de Mello Breyner Andresen, a edição é organizada pela pela filha mais velha do escritor, Isabel de Sena. Com este livro se publicará um outro: com a correspondência entre Jorge e o capitão João Sarmento Pimentel, uma das principais figuras do círculo de anti-salazaristas portugueses exilados no …

Sófia Petrovna presa no realismo do cotidiano

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Por Joaquim Serra


“O medo de que pudessem nos ouvir, com certeza nos ouviriam. No meio da conversa alguém sempre olhava rindo para o lustre ou para a tomada: ‘O senhor está ouvindo, camarada major?’. Pelo risco... Pelo jogo... Tínhamos até certa satisfação com essa vida dupla. Uma quantidade insignificante de pessoas se opunha abertamente, mas tínhamos muito mais ‘dissidentes de cozinha’. Falando mal pelas costas...” (O fim do homem soviético, Svetlana Aleksiévitch, p. 35).
Na contramão de outros autores do período soviético, Lídia Tchukóvskaia (1907-1996) opta por um realismo crítico em Sófia Petrovna. A novela, escrita entre 1939-1940, pertence à mesma década que A velha (1939), de Daniil Kharms, mas, ao contrário desta, Lídia não opta pelo absurdo estético para retratar o surrealismo do período do terror, mas, ao contrário, subverte o tema do realismo socialista e conserva sua forma.
Ainda na década anterior, nos tempos da NEP (1921-1928), havia um favorecimento, uma “opção pela s…

Opinião de uma leitora que não gostou da Valderez

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Por Flaviana Silva



Ler uma obra da Elvira Vigna é sempre um prazer, primeiramente porque sua escrita é construída nas bases de um riso irônico, o que agrada bastante, e porque é importante considerar que as questões sociais envolvendo suas personagens saltam aos olhos do leitor. Em Por escrito, a narradora Valderez fala sobre os acontecimentos banais do seu dia para o amante; todo o romance é um relato direcionado para esse homem que nunca foi capaz de satisfazer suas vontades e sempre mantém com ela uma relação de distância.
A personagem, apesar de ser a protagonista da história, não tem muita ação diante da sua própria vida: ela trabalha em uma empresa que não gosta, participa de encontros sociais que não a deixam confortável; vive, enfim, uma rotina cheia de obrigações que não a agradam e a todo tempo busca uma razão para ser e não encontra. Apesar de tudo, ela apenas segue, narrando detalhes dos seus dias vazios sem nenhuma intensidade.
Se tem algo que não se encontra nesse roman…

Notas sobre Aquele que é digno de ser amado de Abdellah Taïa

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Por Rafa Ireno




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Em 2018, Aquele que é digno de ser amado de Abdellah Taïa foi publicado em São Paulo. É a primeira tradução para o português do escritor marroquino e uma escolha promissora da Simone Paulino, responsável pela direção editorial da Nós, uma vez que a voz de Taïa, ainda que mergulhada em suas questões particulares, pode dialogar intimamente com parte da produção literária brasileira contemporânea. Esta narrativa estrangeira tem a qualidade de se referir ao mesmo tempo a algo próximo e distante da gente, o que constitui uma experiência enriquecedora para o público do Brasil.

Trata-se, pois bem, de um romance epistolar dividido em quatro partes: duas delas o personagem principal é o destinatário e nas outras, ele é o destino das cartas. Ao todo, as correspondências acompanham vinte e cinco anos da vida de Ahmed, relatando um complexo percurso do Marrocos até a França. A primeira delas é de 2015. Ele escreve para a mãe, Malika, falecida há cinco anos. São linhas duras, amar…

Theodor Kallifatides. Outras vidas e uma viagem de retorno à língua materna

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Por Zita Arenillas



Theodor Kallifatides nasceu na Grécia em 1938 e vive na Suécia desde 1964. Além de emigrar do país, emigrou da língua: até Outra vida por viver¹ sua obra literária, que inclui romance, ensaio, teatro e poesia, é originalmente escrita em sueco, o idioma que escolheu para desenvolver sua carreira como escritor. Em 1980 ele filmou, com a ajuda de Ingmar Bergman uma adaptação de seu livro Amor, que foi um fracasso. Ele conta sobre isso e outras coisas no início deste maravilhoso livrinho que se lê numa sentada.
Por um lado, ele fala sobre a vida do emigrante quando se deixa conquistar inteiramente por sua terra de adoção. Isso implica que alcance um momento de dúvida: será essa a existência errada? Teria sido melhor a outra? (Falo do emigrante voluntário, é claro.) “Mas você não pode fazer nada. Apenas esperar o momento em que a vida que vive recebe mais presença do que a vida que você não viveu”, responde Kallifatides.
Inseparável da emigração é a mudança de idioma. Po…

Alda Merini. Vida de santa

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Por Martín López-Vega


Aos oito anos de idade, Alda Merini (Milão, 1931-2009) perseguia o pai para explicar o significado da Divinacomédia de Dante. Décadas depois, faria o mesmo com Pier Paolo Pasolini para revelar a riqueza de seus versos. É o que se conta em Delito de vida uma biografia em fragmentos construída por uma conversa com Luisella Veroli e publicada em espanhol pela Vaso Roto com tradução de Jeannette L. Clariond).
Um dos capítulos mais famosos da vida de Merini, uma das poetas fundamentais do século XX italiano, é sua passagem pelos tratamentos psiquiátricos, contada em A outra verdade (1986). No prólogo que Giorgio Manganelli (talvez o grande amor de sua vida) escreveu para a primeira edição, ele afirma que “não é um documento ou testemunho de uma década passada ​​pela escritora no manicômio. É um reconhecimento, mediante epifanias, delírios, estrofes, canções, revelações e aparições, de um espaço – e não de um lugar – no qual no vazio deixado pelos costumes e sagacidade…