Boletim Letras 360º #367



DO EDITOR

1. Entramos, em definitivo, na região do incerto. Para onde iremos – não sabemos. Este blog quer continuar perto de seus leitores e amigos nesses tempos difíceis, de reaprendizagens. Aí estão nossas redes sociais abertas para se constituírem grandes espaços de diálogo (os links ficam sempre disponíveis no rodapé desta postagem e no final da página). Cuidemo-nos e sejamos solidários com os outros que mais precisam.

2. O BO Letras 360º é uma publicação semanal que reúne informações disponibilizadas (ou não) na página do Letras no Facebook. Obrigado pela companhia e, boas leituras!

Hermann Hesse. Obra inédita do escritor no Brasil ganha tradução.

 
LANÇAMENTOS

Um encontro que põe em movimento a memória da década de 1970 no Brooklyn estadunidense.

Augusta, antropóloga formada por uma prestigiada universidade, volta a sua casa para o funeral do pai. Coincidentemente, seu trabalho de pesquisa acadêmica centra-se em rituais funerários de várias culturas, uma tentativa de desvendar o mistério do luto e a dor quase infinita da perda. Numa viagem no metrô, ela reencontra Sylvia, uma velha amiga — e um caldeirão de reminiscências passa a fervilhar em sua mente e aquecer seu coração. A história de Augusta começa em 1973, quando aos oito anos de idade ela se muda para o Brooklyn — um enclave multicultural de Nova York com uma dinâmica comunidade afro-americana e vastas populações de imigrantes de todo o planeta. Lá, ela descobre o poder e o conforto da amizade feminina, enfrentando a transição da adolescência para a vida adulta. O encontro com a amiga de longa data põe em movimento a memória da década de 1970, transportando-a para um tempo e um lugar onde os laços de afeto representavam tudo para ela. Uma época em que a música pop tocada no rádio dava o tom da vida emocional, e os programas de TV ilustravam, com cores psicodélicas, a paisagem cultural de crianças e adolescentes. Para Augusta e suas três amigas — Sylvia, Angela e Gigi —, que compartilhavam confidências enquanto andavam pelas ruas do bairro, o Brooklyn era um lugar onde garotas bonitas, talentosas, alegres e brilhantes pareciam enxergar um futuro luminoso. Mas sob o verniz da esperança havia um outro Brooklyn, um lugar verdadeiramente perigoso em que homens mais velhos procuravam meninas em corredores escuros de prédios populares, fantasmas assombravam à noite e mães desapareciam de um dia para outro. Um outro Brooklyn, de Jacqueline Woodson, foi traduzido por Stephanie Borges e publicado pela Todavia Livros.

O impostor, novo livro de Edgard Telles Ribeiro.

Um casal mais velho viaja para Nápoles, a poucos quilômetros do Vesúvio, vulcão em que um parente do narrador teria caído. O mistério dessa queda persegue o protagonista até a velhice: esse parente caiu? Se jogou? No mais, a viagem correria tranquila não fosse uma pergunta feita ao narrador e que tira seu chão. De repente, ele está de volta ao Rio de Janeiro: a viagem ocorreu? Está ocorrendo ainda? Neste engenhoso romance sobre memória, afeto e perda, o autor combina o suspense com a mais fina investigação psicológica. O livro é publicado pela Todavia Livros.

O retorno de Marina Colasanti à poesia.

Mais longa vida é um dos livros mais fascinantes de Marina Colasanti, mesma autora de Passageira em trânsito.Nesta obra em que impera a delicadeza, a autora transborda sua ampla cultura literária e sua intimidade com a poesia italiana e luso-brasileira. Ao escrever sobre temas como família, amor, perdas, viagens, saudade e tantos outros que perpassam uma vida plena, Marina reveste de simplicidade o que é altamente complexo e invoca um diálogo raro, nas tramas da alma, da terra e da língua.

As três histórias da vida do andarilho Knulp estão entre os textos mais encantadores de Hermann Hesse.

Reunindo temas depois aprofundados nas obras de grande sucesso do escritor — a experiência existencial, a formação da personalidade, a contestação de velhos valores —, Knulp apresenta o herói poético que influenciaria autores tão diversos como Stefan Zweig e Jack Kerouac. Hippie avant la lettre em plena Alemanha do fim do século XIX, um jovem Knulp vagueia de cidade em cidade e se hospeda na casa de conhecidos, que lhe dão teto, comida e algum afeto. Ele evita, no entanto, construir relações mais profundas, estabelecer laços definitivos: é um amante da liberdade, uma espécie de esteta em fuga de um mundo crivado de imposições e crenças antiquadas. À medida que os anos passam, amigos o repreendem por ter desperdiçado seu talento e sua saúde com uma existência vadia, entregue à boemia e ao improviso. O andarilho, ainda que debilitado, não lhes dá ouvidos e segue desfrutando dos prazeres mais simples, aferrado aos breves momentos de felicidade. Uma das mais belas construções literárias de Hermann Hesse, Knulp é um personagem também complexo, que duvida constantemente de suas próprias escolhas. Esse modo de vida marginal levaria Hesse a preconizar: “Se pessoas talentosas e corajosas como Knulp não conseguem encontrar um lugar em seu entorno, o entorno é tão cúmplice disso quanto o próprio Knulp”. Uma declaração que põe em xeque os padrões sociais daquele tempo — e da atualidade. Knulp: três histórias da vida de um andarilho é traduzido por Julia Bussius e publicado pela Editora Todavia.

REEDIÇÕES

Reedição de Infância, de Graciliano Ramos.

Completando 75 anos desde a primeira publicação, Infância retrata os primórdios da vida de Graciliano Ramos, um dos maiores autores da literatura nacional, em um novo projeto gráfico. Literário e autobiográfico, Infância retrata as memórias de Graciliano Ramos dos tempos de menino até a adolescência no interior de Alagoas, ao mesmo tempo que acompanha sua formação como leitor e os primeiros passos como autor. Os textos, relatos independentes elaborados entre 1936 e 1944, não foram escritos na ordem em que se encontram organizados neste volume, o que confere à narrativa um tom folhetinesco típico da narrativa oral. A poética das memórias une a hesitação do narrador ao cuidadoso trabalho de refino do texto, que é característico de Graciliano Ramos, evidenciando porque ele é um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos.

Romance publicado em 1954 por ocasião das celebrações pelo quarto centenário da cidade de São Paulo, ganha reedição.

A muralha, considerado Best-Seller nacional, narra as paixões, a coragem e a violência dos primeiros desbravadores do Brasil no início do século XVIII, com destaque para a força das personagens femininas. Cristina é a jovem romântica que vem de Portugal para se casar com Tiago. Decepciona-se logo ao desembarca do navio: o prometido marido não a aguarda. E, para chegar a Lagoa Serena, a propriedade da família do noivo, precisa enfrentar dificuldades a fim de transpor a muralha da Serra do Mar que separa o litoral da vila de São Paulo de Piratininga. Cristina terá que lidar com muito mais do que as vicissitudes de uma terra selvagem: a indiferença de Tiago e os hábitos tão distintos dos do Reino. O romance vivaz de Dinah Silveira de Queiroz recria habilmente costumes do tempo colonial. O livro sai pela editora Instante no mês de abril.

OS LIVROS POR VIR

Mais da obra de Alejandra Pizarnik e Silvina Ocampo no Brasil.

As duas escritoras recentemente re/descobertas pelos leitores brasileiros voltarão com títulos até então inéditos por aqui. A Relicário, responsável por reapresentar Pizarnik, publicará outros três livros da poeta: Extração da loucura (1968, poesia), O inferno musical (1971, poesia) e a prosa completa da autora (contos, prosa poética, teatro, crítica literária etc.). O trabalho de tradução é conduzido por Davis Diniz (para a obra poética) e Paloma Vidal e Nina Rizzi (para a prosa). De Silvina Ocampo, a Companhia das Letras publica As convidadas (1961), outra antologia de contos.

O trabalho de reedição financiada da obra de Dalcídio Jurandir continua e se estende para trazer à luz obra de outro escritor paraense, Jaques Flores.

Desde 2017 a Pará.grafo Editora, de Bragança, realiza campanhas de financiamento coletivo pela internet para arrecadar fundos a fim de reeditar as obras do romancista Dalcídio Jurandir; a maioria de seus livros estava esgotada havia décadas. A editora realizou três campanhas e conseguiu reeditar cinco livros dos 11 que o autor escreveu: Ponte do galo (em 2017), Três casas e um rio e Os habitantes (2018), e Chove nos campos de Cachoeira e Chão dos lobos (2019). Com o sucesso do projeto até aqui, a editora inicia agora nova edição de Ribanceira, último livro do escritor e que teve uma única edição, de 1978, pela Editora Record. Este é o décimo (e último) livro do Ciclo do Extremo-Norte (série de romances de Dalcídio iniciada com o premiado Chove nos campos de Cachoeira). Nesse romance, Dalcídio nos apresenta como ambiente a cidade de Gurupá, decadente após o fim do período de ouro da borracha na Amazônia, uma cidade morta em que os sobreviventes são de uma poderosa, grotesca e trágica autenticidade. A iniciativa é dos editores Dênis Girotto de Brito e André Fellipe Fernandes, e se estende a outro autor paraense: Jaques Flores. Do autor, a ideia é publicar Panela de barro; o livro teve sua primeira edição em 1947 pela editora carioca Andersen Editores e reúne 34 crônicas que marcaram a literatura paraense. Seus textos, carregados de humor e ironia, traçam um retrato da sociedade paraense das primeiras décadas do século XX, seus costumes, cultura, culinária, geografia e política. Mais detalhes aqui.


DICAS DE LEITURA

Neste 21 de março de 2020, celebramos outra vez o Dia Mundial da Poesia. E, para este boletim, as três dicas de leitura são, portanto, livros para esta data e os dias vindouros.

1. Poesia, de Jorge Luis Borges. Um persistente equívoco pode levar o leitor de Borges a dar mais valor a seus contos e ensaios do que a seus poemas. Porém, no princípio, no meio e no fim de sua carreira, ele foi sobretudo poeta e assim se julgava. Durante os anos 1920, publicou três livros de versos cuja importância histórica e estética vai muito além da vanguarda ultraísta de que zombaria mais tarde. A partir dos anos 1960, volta maduro à poesia, e escreve grandes poemas em que o pensamento se casa à emoção num sereno discurso rítmico, cuja complexidade se mantém com clareza, precisão e elegância clássicas. Nos sete últimos livros de poesia, escritos de 1969 até 1985, reunidos neste volume, uma sutil música de câmara confidencia os sentimentos mais íntimos na forma contida, límpida e exata das surpresas tranquilas. O elogio da sombra que se parece à cegueira, o fascínio de ouro dos tigres, a luz inacessível da rosa profunda, a moeda de ferro feito um espelho mágico do eu e do mundo, o caos que é a cifra de uma secreta ordem, tudo são poemas conjurados como verdadeiros dons da escuridão, dos sonhos, das alvoradas. O poeta que sempre amou a filosofia e os labirintos da reflexão repassa o vivido e se prepara, com lucidez e calma, para a morte. O livro foi reeditado pela Companhia das Letras.

2. Sobre isto, de Vladímir Maiakóvski. Um dos maiores nomes da poesia do século XX, conhecido como “Poeta da Revolução” por seu engajamento na construção da nova sociedade soviética, Vladímir Maiakóvski foi também um grande poeta lírico. Publicado em 1923, este livro é fruto de sua relação amorosa com Lília Brik, interrompida em dezembro de 1922 por uma briga entre o casal. “Sem você, eu paro de existir”, escreve Maiakóvski numa carta da época, desobedecendo o pacto de silêncio e separação que eles haviam estabelecido. Nos dois meses de afastamento, o poeta redige este que é um de seus poemas mais longos. Partindo da dor e da angústia da separação, Maiakóvski termina por abarcar e revisitar toda sua obra anterior, seus sentimentos e reflexões mais profundos sobre a revolução, o amor e o futuro, num voo lírico extremamente pungente. Criticado à época por tratar de um tema individualista como o amor (o que explica o título cifrado ― Sobre isto), o poeta defendeu a sua liberdade de criação nesta que considerou sua obra-prima e que deu origem, entre nós, à canção de Caetano Veloso interpretada por Gal Costa, “O amor”. A obra teve sua primeira tradução integral por aqui e foi publicada em edição bilíngue com apresentação, notas e estudo crítico de Letícia Mei, além das fotomontagens originais de Aleksandr Ródtchenko e de uma seleção da correspondência entre Maiakóvski e Lília Brik no período pela Editora 34.

3. Polaroides, de Adelaide Ivánova. A poeta foi vencedora do Prêmio Rio de Literatura 2018. Apontada por Heloísa Buarque de Holanda, no Estado de São Paulo, como uma das promessas da poesia, a crítica, escritora e professora emérita da Escola de Comunicação da UFRJ afirma: “Adelaide já é o que se poderia chamar de poeta madura. Domínio total de sua linguagem ao lado de uma enorme coragem de abrir a caixa preta dos não-ditos das mulheres hoje, usando como instrumento poético sua própria experiência e seu próprio corpo. Intuo que Adelaide já é a grande referência da poesia da novíssima geração de poetas.” O livro aqui recomendado foi editado pelas Edições Macondo e é o primeiro livro de poemas da poeta que foi publicado em 2014 em versão digital pela Cesárea Editora.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. A nossa galeria de vídeos no Facebook está repleta de opções de vídeos com importantes leituras de poesia. Para esta seção, elegemos três aperitivos como convite ao leitor para explorar e partilhar os conteúdos aí encontrados:

a) Wislawa Szymborska lê o poema “Um amor feliz” ― aqui.

b) António Lobo Antunes recita passagens de “Tabacaria”, poema de Álvaro de Campos, heterônimo dos principais de Fernando Pessoa.

c) Manuel Bandeira recita o seu famoso “Vou-me embora pra Pasárgada”

BAÚ DE LETRAS

1. Do nosso baú, recordamos outras três posts – todas listas que guardam na poesia seu núcleo de interesse. Uma investigação pelo blog levará o leitor a encontrar leituras variadas sobre livros variados de poesia.

a) Em outubro de 2016 realizamos esta lista que chamamos de “Dez poetas necessários da nova literatura brasileira”. 

b) Em março de 2018, esta lista lembra dez nomes de mulheres que desafiaram o panteão antes só feito para os poetas. 

c) Em agosto de 2016, esta lista copia a recomendação sobre dez filmes que tematizaram a biografia de importantes da poesia. 


.........................
Siga o Letras no FacebookTwitterTumblrInstagramFlipboard



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os mistérios de "Impressão, nascer do sol", de Claude Monet

Boletim Letras 360º #369

O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição, de Clarissa Macedo

Seberg contra todos, de Benedict Andrews

João Cabral de Melo Neto em Barcelona

Sobre Tolstói e Machado: duas concepções da natureza

Companheiros de viagem: J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis: "O dom da amizade", de Colin Duriez