Futebol ao sol e à sombra antifascista


Por Wagner Silva Gomes

Os campos de futebol de Hackney Marshes. James Hobbs.


O escritor uruguaio Eduardo Galeno, grande amante do futebol mundial, dedica ao esporte o livro intitulado Futebol ao sol e à sombra (1995 – com acréscimo de capítulos em edições posteriores). De acordo com o autor, o futebol surgiu na China há cinco mil anos, onde a forma de se jogar era próxima a uma competição de embaixadinhas. Depois, japoneses e egípcios também se entretiveram com a bola, de forma mais parecida com as crianças que brincam sozinhas ou na companhia de um amigo. Foram os gregos que primeiro se aproximaram do estilo do futebol atual, implementando recursos usados nas competições de hoje. Descreve Galeano: “Nas comédias de Antífanes, há expressões reveladoras: bola longa, passe curto, bola adiantada...” Dos gregos se chegou aos romanos. Nero jogava mal, Júlio César era bom de bola. Os soldados romanos, ao praticarem o esporte, levaram a novidade aos ingleses, e provavelmente pela forma bruta de como esses viam a prática do esporte por aqueles, o futebol na forma inglesa passou a ser uma carnificina. Registra Galeano que em 1314 o rei Eduardo II proibiu o esporte, pois “O futebol, que já se chamava assim, deixava uma fileira de vítimas. Jogava-se em grandes grupos, e não havia limite de jogadores, nem de tempo, nem de nada. Um povoado inteiro chutava a bola contra outro povoado, empurrando-a como ponta-pés e murros até a meta, que então era longínqua roda de moinho. As partidas se estendiam ao longo de várias léguas, durante vários dias, às custas de várias vidas.”

A visão passada e que ficou foi a de que o futebol era um jogo plebeu maléfico. Se com essa vontade toda os plebeus esquematizassem com a estrutura do futebol uma forma de tomar o poder pelo visto dificilmente perderiam. É muito provável que a elite, mesmo com a proibição, o jogava discretamente em seus lazeres. E não é difícil imaginar que os plebeus tinham algumas bolas escondidas e que praticavam o futebol em grupos de até 4 pessoas, discretas e apaixonadas pelo esporte. No entanto, só no final do século XIX é que os ingleses e em vários outros países da Europa formaram os primeiros clubes de futebol, restrito às elites. Foi na primeira metade do século seguinte que os sindicatos começaram a formar clubes de operários, que assim aumentavam sua autoestima e poder de organização, e um e outro passou a disputar com a liga de clubes da elite – a minissérie The English Game, idealizada por Juian Fellowes, recria esse período misturando fatos reais com ficção. Com a necessidade de ter jogadores melhores passou-se a profissionalização, que começou com a transferência de um funcionário de uma firma pra outra, com pagamento bem maior. Daí a relação dos clubes europeus com as indústrias, que passaram a investir e tiveram a longo prazo um imenso retorno, como é visível no futebol atual.

Por ser outro continente e ter outra história, o futebol nas Américas é diferente. De acordo com Galeano, “No México e na América Central, a bola de borracha era o sol de uma cerimônia sagrada desde uns mil e quinhentos anos antes de Cristo”. Os festejos com churrascos e bebidas dos dias de hoje parecem guardar parte da cerimônia. Na Bolívia, se praticava algo parecido com os jogos de travinha ou furingo. No Paraná, já no século XVIII, os índios guaranis praticavam algo que parecia uma mistura de futebol americano com futebol. No México, “Um mural de mais de mil anos mostra um avô de Hugo Sánchez jogando como canhoto em Tepantitla. Quando o jogo terminava, a bola culminava sua viagem: o sol chegava ao amanhecer depois de atravessar a região da morte. Então, para que o sol surgisse, corria o sangue. Segundo alguns entendidos, os astecas tinham o costume de sacrificar os vencedores. Antes de cortar-lhe a cabeça, pintavam seus corpos em faixas vermelhas. Os eleitos dos deuses davam seu sangue em oferenda, para que a terra fosse fértil e o céu generoso.

Já no futebol moderno brasileiro, o perfil dos clubes é serem formados por associações, de iniciativa de cidadãos, diferente dos clubes europeus, vindos das indústrias e dos sindicatos. Daí o surgimento dos cartolas e em primeiro momento as torcidas festeiras dos anos 1940. A organização politizada partiu das torcidas organizadas contra a ditadura dos anos de chumbo – já no final da década de 1960 – o que se estendeu para os jogadores e para o interior dos clubes, vide a democracia Corinthiana e a luta deste e de vários clubes que pediam a redemocratização do país. De acordo com João Pedro Fonseca, em artigo para O Globo, teve o famoso “Fla-Flu das Diretas, em 1984, quando os rubro-negros estamparam na arquibancada que 'o Fla não Malufa', um protesto a Paulo Maluf, rival de Tancredo Neves (PMDB) na eleição indireta para a presidência e membro do PDS, legenda que sucedeu o antigo Arena, partido do regime militar.

Com os protestos “vidas negras importam”, que vão para mais de uma semana, desencadeados nos Estados Unidos por motivo da morte de George Floyd, homem negro de 46 anos, no dia 25 de maio  de 2020, países de várias regiões do mundo aderiram à luta contra a opressão aplicada aos seus contextos. No Brasil, em ruas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, algumas das chamadas torcidas antifascistas dos seus respectivos clubes se juntaram para protestar contra o Governo Bolsonaro, pedindo o seu impeachment, devido ao contexto de opressão implantado no país, dos desmandos com a epidemia de COVID-19 às falas tirânicas contra minorias e contra a Constituição. De acordo com João Pedro Fonseca, esses coletivos surgiram do contexto da Primavera Árabe. No Brasil, o cenário foi o das Jornadas de Junho de 2013. “São grupos com perfil mais de classe média, estudantes, e que partem da identidade clubística para trazer pautas como machismo, racismo e homofobia.” Aqui, se já era de costume às torcidas tradicionais respeitarem as antifascistas, desde que apareceram, as primeiras aderiram às segundas. 

Com o apoio do trocadilho acima, aderir às segundas é colocar o futebol na pauta do dia-a-dia da classe trabalhadora e suas demandas, o que acontece a nível mundial. Ao que parece, aquela estrutura do futebol da Inglaterra de 1314, que o rei Eduardo II tanto repudiava e pôs fim, foi assimilada pelos coletivos em sua ação de torcedor-político, se os toma como cidadãos que agem na polis. O futebol chegou ao Brasil através dos ingleses e agora a torcida faz uso de sua estrutura de forma modernista antropofágica – assimilando as experiências de outros grupos à sua cultura – se valendo do esquema daquele futebol primitivo como é usado o cavalo de Troia como alegoria de filmes em situações sociais; e de músicas, com o exemplo dos Racionais Mc's: “Vagabundo assalta banco usando Gucci e Versace/ Civil dá o bote usando caminhão da Light/ Presente de grego né, cavalo de Troia/ Nem tudo que brilha, é relíquia nem joia.” 

Quem sabe assim, sem esquecer da formação peculiar da América Latina e suas demandas, como o autor aqui analisado tratou no seu famoso As veias abertas da América Latina (1971), a classe trabalhadora do Brasil ressignifique antropofagicamente também assimilando o jogo dos índios astecas no estilo do futebol inglês e quando a partida contra os fascistas terminar e o dia amanhecer, Bolsonaro, bolsonaristas e fascistas que ganharam a eleição e estão no poder sejam obrigados a dar o sangue para que os trabalhadores do país tenham uma terra mais fértil e um céu mais generoso. Pois até agora, o que fazem é sugar o sangue dos perdedores e os sacrificar. Não se espantem, leitores, que assimilando a lógica modernista antropofágica, também esse doar sangue é sim um gesto nobre.



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