Análise de “O Falcão”, de Luís Fernando Veríssimo

 Por Davi Lopes Villaça



 
A crônica, e de maneira mais surpreendente a crônica humorística, acaba sendo, pela sua aparência de coisa cotidiana, pelo seu tom descontraído e despretensioso, um lugar de profundezas inesperadas, como demonstrou Antonio Candido em “A vida ao rés do chão”. Pode ser também um lugar de grande sofisticação formal, de árduas conquistas estilísticas, cujo resultado muitas vezes é, ironicamente, a impressão de uma escrita fácil e espontânea. Há vários exemplos disso na obra de Luís Fernando Veríssimo. Proponho-me a analisar sua crônica, “O Falcão”, cujas primeiras linhas dão-nos já uma amostra do poder de síntese desse autor.
 
“Só uma palavra descrevia a vida de Antônio. Foi a palavra que ele usou quando viu o tamanho da fila do ônibus.
― Que merda!”
 
Antônio leva, portanto, uma vida “de merda” ― ou seja de pouco valor, muito ordinária, ruim. Mas essa palavra, ao ser reciclada da fala do próprio personagem, carrega ainda outro sentido, determinado pelo contexto de onde é tirada. Como interjeição, expressa raiva e frustração; é o que Antônio sente diante do tamanho da fila do ônibus (que, nem é preciso dizer, estava enorme). Usando uma só palavra para se referir a duas coisas diferentes ― a vida de Antônio e a situação na qual o encontramos ― o autor estabelece entre elas um elo fundamental. No aborrecimento do personagem diante do tamanho da fila do ônibus, desse pequeno contratempo cotidiano, se revela a própria essência de sua vida, ou, mais precisamente, de sua relação para com ela. Isto é reforçado no parágrafo seguinte:
 
“Estava mal empregado, mal casado, mal tudo. E agora precisava chegar em casa e dizer à mulher que não atingira sua cota de vendas para o mês e que não podiam contar com o extra para pagar a prestação da geladeira nova. E que ela não o incomodasse!”
 
O texto está sempre próximo do discurso indireto livre. Mais do que falar por Antônio, o narrador parece encarnar uma versão ampliada de sua consciência, como se o personagem se convertesse no narrador em terceira pessoa de sua própria história. Quando se diz que sua vida era uma merda, trata-se não de uma verificação objetiva, externa, mas sim de uma impressão de Antônio. A crônica se desenvolve inteiramente a partir dessa perspectiva.
 
Mas quem é Antônio? Sem recorrer à descrição direta, o autor se vale dos pensamentos da personagem para compor, em poucas linhas, a imagem completa de um tipo bem conhecido: o fracassado, o zé-ninguém. Mais especificamente, o membro humilhado de uma classe média baixa, preso a um emprego monótono, a um casamento infeliz, enredado em dívidas, sem sorte nem esperteza para contornar os obstáculos que a vida lhe coloca e sempre arriscado a descer ainda mais. Os problemas de Antônio, mais do que desagradáveis, são dolorosamente maçantes: pintam uma existência mecanizada, humilhada pela incapacidade de atender ao que é esperado dela e inapta para qualquer gesto criativo.

Eis que um acontecimento inesperado vem arrancar o herói da esteira automática do seu dia-a-dia: “Foi quando sentiu que encostavam a ponta de um cano nas suas costas. E uma voz igualmente dura disse no seu ouvido: ‘Entra no carro’. Entrou no carro”. Antônio é raptado por quatro homens bem vestidos, que permanecem em silêncio diante de suas perguntas. Que poderiam querer com ele? “Não podia ser sequestro. Ele era um insignificante. Não tinha nada. Iam querer sua geladeira nova?”. Quando seus raptores finalmente começam a falar, Antônio se vê transportado para um cenário completamente novo.
 
“― Você está sendo observado desde o aeroporto em Genebra.
― A Margaret, que você levou pro quarto, trabalha para o Alcântara. Foi ela quem nos deu o local do seu encontro com o Frankel, hoje.
― Foi a noite de amor mais cara da sua vida, Falcão
― Espera um pouquinho. Meu nome não é Falcão.
― Claro que não.
― Sabemos até que vinho você e a Margaret tomaram no jantar. ― A truta estava boa, Falcão?
― Meu nome não é Falcão!
― E a Margaret, que tal? Comparada com a truta?
― Eu posso provar que não sou o Falcão. É só olharem minha identidade!
― Nos respeite, Falcão. Nós estamos respeitando você.
― Mas é verdade! Vocês pegaram o homem errado! Olhem aqui…
Antônio começou a tirar a carteira do bolso de trás mas o homem à sua direita o deteve. O da esquerda falou, num tom magoado.
― Não nos menospreze assim, Falcão. Só porque você é quem é, não é razão para nos menosprezar. Por favor.
― Mas olhem a minha identidade!
― Você tem mil identidades. O Alcântara nos avisou: não deixem ele enrolar vocês. O Falcão é uma águia.”
 
Poderíamos pensar numa analogia com Harry Potter: o herói é levado de sua realidade triste enfadonha, na qual era o último dos homens para um mundo maravilhoso, onde é a figura mais importante. Os sequestradores de Antônio não são bandidos comuns. Parecem pertencer a um universo romanesco, como se saídos de uma ficção policial barata ― o tipo de ficção consumido por homens como Antônio, no anseio de escapar ao marasmo de sua existência cotidiana e enfadonha. Nesse mundo, Antônio recebe uma nova e mais glamorosa identidade. Tal como Harry Potter, que achava que era o Harry Potter e então descobre que é o Harry Potter, fica sabendo que ele é o Falcão. A diferença está em que, no caso de Antônio, trata-se realmente de um engano, ele não é quem pensam ser. 
 
E quem é o Falcão de verdade? A crônica coloca-nos novamente diante de um tipo, já não da vida real, mas da ficção: uma espécie de fora-da-lei com pegada James Bond. Um sujeito astuto e ardiloso, que contorna todas as enrascadas, conquista mulheres, desperta admiração nos outros homens. Tudo o que Antônio não é. Um fato interessante sobre James Bond é que esse renomado sedutor foi feito para cativar sobretudo o público masculino: representa não tanto o que as mulheres gostariam de ter quanto o que os homens gostariam de ser. Os James Bond e os Falcões da ficção são, em grande parte, um produto da fantasia dos Antônios. Ao herói da crônica é concedido viver essa fantasia, ainda que, à primeira vista, não de forma muito favorável: 
 
“― O Alcântara admira muito você, Falcão. Diz que se você não fosse tão bom, não seria preciso matá-lo.
Antônio deu uma risada. Na verdade, foi mais um latido. Seguido de um longo silêncio. Depois:
― Você sabe que sim.
― Vocês vão me matar?
― Você sabe que sim.
Os quatro homens também pareciam subitamente tomados pela gravidade da situação. O da frente olhou para Antônio e sorriu, desta vez sem desdém. Depois virou-se para a frente e sacudiu a cabeça. Como se recém tivesse se dado conta do que ia acontecer dali a pouco. Iam matar o Falcão. Estavam vivendo os últimos instantes de vida do grande Falcão. E Antônio sentiu uma coisa que nunca sentira antes. Uma espécie de calma superior. Nunca na sua vida participara de uma coisa tão solene. Quando falou, sua voz parecia a de outra pessoa.”
 
Lembro de ter lido nalgum lugar que os sonhos bons não são aqueles onde podemos fazer tudo o que queremos, mas onde tudo acontece conforme desejamos ― o que é muito diferente, pois dificilmente estamos na consciência plena de nosso próprio desejo. É o que se passa com Antônio. Como um ator ensaiado, ele assume a pose de seu antípoda. Os quatro homens, cheios de respeito e admiração, passam a tratá-lo por senhor (como ele bem nota). Perguntam se gostaria de deixar últimas palavras para alguém. “Não, não”, diz Antônio. “Algum recado para a condessa?”. E Antônio, sorrindo tristemente: “Só diga que pensei nela, no fim”. Um dos homens sacode a cabeça: “que desperdício, terem que matar um homem como falcão”. Depois, no lugar do despacho, onde a narrativa chega ao fim:
 
“Quando chegaram à ponte, ninguém tomou a iniciativa de descer do carro. Ninguém falou. Pareciam constrangidos. Foi Antônio quem disse.
― Vamos acabar logo com isto.
― O senhor que alguma coisa? Um cigarro?
― Estou tentando parar ― brincou Antônio.
Depois se lembrou de um anúncio que vira numa revista e perguntou?
― Nenhum de vocês teria um frasco de ‘Cutty Sark’, no bolso, teria?
Os quatro riram sem jeito. Não tinham. Antônio deu de ombros. Então não havia por que retardar a execução.
Um dos homens abriu os braços e disse:
― Não nos leve a mal...
― O que é isso? ― sorriu Antônio. ― O que tem que ser, tem que ser. E não posso me queixar. Tive uma vida cheia.
Os quatro homens apertaram a mão de Antônio, emocionados. Depois, amarraram suas mãos atrás e o jogaram da ponte.”
 
A crônica de Veríssimo é o retrato cômico e comovente do que ela mesma nos leva a sentir como um traço humano fundamental. Antônio aspira a um sentimento de importância, de dignidade própria, que carece de ser confirmado pelo olhar de um outro. O herói se torna cúmplice de seu assassinato, não somente para pôr fim aos infortúnios da vida, mas para assumir uma nova identidade. Ele sabe que pegaram o homem errado, sabe que está apenas encenando. Ainda assim, Antônio pode ser esse outro, pode viver sua identidade, na medida em que outros lha atribuem e acreditam nela. Em que medida essa nova imagem de si é mais fabricada do que qualquer outra? Chamar-se “insignificante” é apenas atribuir-se um papel, algo que é determinado sempre de fora ― se alguém é insignificante, deve sê-lo aos olhos de alguém. Note-se que não há na crônica qualquer observação sobre a personalidade de Antônio, muito menos algo que sugira uma essência. No fim, a verdadeira “identidade” do personagem é a de um ator, a quem é oferecido o papel principal. A ironia está em que, ao fingir ser o Falcão, Antônio assume realmente alguma de suas qualidades: ele engana, dissimula e, a seu modo, acaba também escapando.
 
Bibliografia
 
VERÍSSIMO, Luis Fernando, “O Falcão”. In: As mentiras que os homens contam. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.
CANDIDO, Antonio, “Vida ao rés-do-chão”; In: Recortes. São Paulo: Companhia das letras, 1993.
 

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