Boletim Letras 360º #399


DO EDITOR
 
1. Saudações, caro leitor! Coincidiu desta edição do Boletim Letras 360º cair numa data especial demais para a literatura brasileira ― hoje é Dia D. Foi neste 31 de outubro, em 1902, que nasceu Carlos Drummond de Andrade. Desde 2011, esta data ficou marcada no nosso calendário cultural, numa iniciativa do Instituto Moreira Salles, como um dia celebrativo sobre o nosso poeta maior.

2. Além do Dia D, celebramos nesta data o Dia Nacional da Poesia! Pois, façamos de hoje com tantos encontros especiais um momento para lermos e inundar nossos mais próximos com poesia. Estamos muito precisados nesses tempos difíceis que correm.
 
3. Abaixo copiamos as notícias divulgadas durante a semana em nossa página no Facebook. E, claro, as seções correntes com dicas de leitura para alguns títulos da nossa literatura. Obrigado pela companhia por aqui e noutros canais do blog. Boas leituras!

J. M. Coetzee. Foto: Ulla Montan


 
LANÇAMENTOS
 
Duas coletâneas com ensaios inéditos de J. M. Coetzee.
 
Coletânea de ensaios reúne a produção crítica mais recente do premiado escritor sul-africano J. M. Coetzee. Com 23 textos, ela compõe um panorama crítico da literatura mundial, feito por um dos mais renomados autores contemporâneos. Da análise de obras célebres de autores europeus e russos à crítica detalhada de obras produzidas na Argentina, Austrália ou Namíbia, passando por escritores de períodos mais remotos. Ao conceder o Nobel de Literatura a J. M. Coetzee, em 2003, a Academia Sueca elogiou “a composição habilidosa, os diálogos férteis e o brilho analítico” dos romances do escritor sul-africano. Esse rigor que o autor, que completou 80 anos em 2020, aplica a sua obra ficcional está presente nestes ensaios sobre literatura. Neles, o romancista e professor universitário recorre a dados biográficos, correspondências e parentescos literários como instrumentos de análise. Lançado simultaneamente a Mecanismos internos, que contém artigos publicados entre os anos 2000 e 2005, Ensaios recentes reúne sua produção crítica escrita entre 2006 e 2017. Nos 23 textos, destacam-se artigos iluminadores sobre obras que poderiam ser consideradas exauridas de tão célebres, como Madame Bovary, de Gustave Flaubert, A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, e Os sofrimentos do jovem Werther, de J. W. Goethe, ou a obra de escritores de épocas mais remotas, como Daniel Defoe. Neste segundo volume, Coetzee amplia a análise sobre autores que abordou no primeiro, como Robert Walser, Philip Roth e Samuel Beckett. Do último, que foi objeto da pesquisa de doutorado de Coetzee, o volume traz quatro ensaios, dedicados a seus romances. Outro autor estudado pelo escritor no início da carreira e retomado neste livro é Ford Madox Ford, tema de sua dissertação de mestrado no Reino Unido. A seleção conta ainda com um belo ensaio sobre Zama, do argentino Antonio Di Benedetto, traz textos sobre os australianos Patrick White e Les Murray, além de um artigo sobre o interessante diário de Hendrik Witbooi, chefe de um dos grupos Khoisan, povos originários da Namíbia, no qual comenta o processo da ocupação europeia pelo interior do continente africano e seu projeto de genocídio. As capas dos dois volumes, baseadas em composições tipográficas, são de autoria do Estúdio Campo. Os livros saem pelo selo Ilimitada, cujo projeto gráfico é do Bloco Gráfico. A tradução é de Sergio Flaksman e os textos de apresentação são do jornalista Márcio Ferrari. Ambos os volumes trazem índices remissivos com a relação dos autores e obras citados.
 
Publica-se no Brasil, pela primeira vez, a poesia completa de Emily Dickinson (1830-1886).
 
Ela é talvez a mais importante voz feminina da poesia de língua inglesa. Menos reclusa que compenetrada, e dotada de extraordinária erudição científica e literária para uma mulher do seu tempo, ela escreveu, ao longo de trinta e poucos anos de atividade literária, cerca de 1.800 poemas e travou correspondência intensa com diversos amigos, escritores e intelectuais. Contudo, sua obra apenas começou a ser publicada depois da sua morte. A partir de 1890, o sucesso de sua poesia passa a ser proporcional às dificuldades da transcrição e organização de seus manuscritos. Por isso mesmo ainda hoje circulam nos Estados Unidos três edições bem diferentes de suas obras: a de Johnson (1956), a de Franklin (1995) e a de Miller (2016). A tradução que apresentamos aqui segue a edição de Miller, que preserva a forma como a própria Dickinson deixou organizados os seus manuscritos. Apesar de ser conhecida do leitor brasileiro desde que foi traduzida por Manuel Bandeira (já no final dos anos 1920), a obra de Dickinson aqui sempre foi publicada na forma de antologias, as quais, em que pese a qualidade da tradução, muitas vezes impedem a leitura contextualizada de seus poemas. Nossa tradução se move, ao contrário, em dois eixos: costura e sutura. A costura corresponde ao respeito à integridade da obra, ao trabalho crítico-textual de trazer um texto íntegro e completo. A sutura, por outro lado, aponta para o que não se quer fechar na poesia de Dickinson, em termos de sentido, ou para o seu mais-valor literário, que é sempre uma meta e, por ser meta, melhor se traduz ao modo da metáfora. Sendo assim, qualquer ideia de fidelidade absoluta (ao ritmo, à imagem e ao pensamento) permanece apenas como ideal paradisíaco, do qual só os leitores, no confronto entre o original e a tradução, poderão realmente usufruir. Com tradução de Adalberto Müller, a obra organizada em dois volumes bilíngues é publicada pela Editora UnB e Editora Unicamp.
 
Quatro novos títulos de escritores portugueses chegam ao Brasil pela Coleção Trás-os-mares
 
1. A noite não é eterna, de Ana Cristina Silva. A Romênia, sob o jugo do ditador Nicolae Ceausescu, atravessa um dos piores períodos da sua história, com a população a enfrentar a fome e dominada pelo terror. Seguindo as orientações do Presidente para a criação de um exército do povo no qual os soldados seriam treinados desde crianças, Paul, um ambicioso funcionário do partido, decide levar de casa o filho de três anos e entregá-lo aos cuidados do Estado. Quando a mãe se apercebe do desaparecimento do pequeno Drago, o desespero já não a abandonará, bem como o firme desejo de acabar com a vida do marido. Correndo riscos tremendos, Nadia não desistirá, porém, de procurar o menino, ainda que para isso tenha de forjar uma nova identidade, de fazer falsas denúncias, de correr os orfanatos cujas imagens terríveis chocaram o mundo e até de integrar uma rede que transporta clandestinamente crianças romenas soropositivas para o Ocidente. Mas será que o seu sofrimento pode ser apaziguado enquanto Paul for vivo? Enquanto o ditador for vivo?
 
2. Asas de saturno, de Maria João Cantinho. A intensidade da narrativa prende desde a primeira linha. Densa, mas fluente, misto de poesia, filosofia, biografia imaginária, compensadora na intertextualidade que convoca outras leituras. Começa com a história de Gabriel, Clara e Florimundo, o filho. E não por acaso, o espaço inicial é o de um mundo fechado, onde Gabriel escreve uma obra literária sem fim.
 
3. Impunidade, de H. G. Cancela. Uma estranha beleza, melancólica, nimba de luz estas personagens. Não é exagero se dissermos, como o autor o diz, no final do livro, que ela irradia do “esplendor das coisas ameaçadas”, como a beleza dos condenados, nos romances de Kafka. Essa é a linhagem de H. G. Cancela, o negrume de Dostoiévski ou de Thomas Bernard. O mundo em que a escrita tem o poder de dar a ver o lado mais obscuro do humano, sem ilusões falseadoras, gesto ético e de fidelidade última.
 
4. Quartos alugados, de Alexandre Andrade. Nove contos sobre espaços que são nossos durante um período limitado para depois regressarem ao domínio público, ou serem tomados por um novo ocupante temporário. O leitor pode esperar uma profusão de gestos, manobras, frases e movimentações de mobília destinados a tornar quartos e apartamentos menos anônimos. Os exageros (reescrever na íntegra um clássico da teoria da religião comparada, defender que um quarto no Campo de Santa Clara deu outrora guarida a um poeta russo prestes a cair em desgraça, celebrar a memória de suicidas parisienses) são, nestas circunstâncias, desculpáveis.
 
Novo livro de Sidney Rocha.
 
Quanto de imaginação e desejo compõe a me­mória de uma pessoa? A vida real de Castilho Hernandez oferece muitas respostas a esta pergunta. Como uma composição em caleidoscópio e profundamente suges­tivo, este romance do escritor Sidney Rocha põe a nu a alma do seu cantor. E de todas as figuras que gravitam em torno dos fantasmas viventes da ilha que ele in­venta, habita e é-e-não-é, hamletiano em essência e existência, em sua complexa urdidura. Tão expressionista quanto impressionista. E com tal intensi­dade que pode servir de espelho ao leitor cada um dos flashes dos prazeres e desditas, das verdades e ilusões desta his­tória plena de poesia, em alguém que luta para pro­teger seu “co­ração invertido”. Impossível não sentir simpatia e empatia pelos personagens que, de tão autên­ticos, parecem nossos vizinhos, amigos próximos, gente conhecida, que mora conosco, ou cada um de nós. Romance sobre a solidão, a sinceridade e, principal­mente, a liber­dade de ser e agir. Nas suas ambigui­dades e multiplici­dades, o músico tem algo de Apolo-Dioniso e de Tirésias-Afrodite, ao partilhar suas epifanias, seus lampejos. Num misto de diário íntimo e autobio­grafia pós­tuma. Os românticos vão se identificar com o protagonista. Os realistas ecoarão as pa­lavras do antagonista. De um jeito ou de outro, ninguém ficará indiferente às suas peripécias e verbalizações, tocadas muitas vezes de ironia, de cinismo, al­guma doçura e uma pitada de gin e de angostura bitters. Quem é sentimentalista encontrará seu momento nesta his­tória; um teimoso ra­cional e pragmático, também. Em Flashes predomina quê de opera buffa sobre outros tons – sonoros e visuais. Palco de sonhos, ruelas de passeios, becos onde sempre existem saídas, este romance esmerila as asas livres prosa para alcançar o voo bem calculado da poesia. Ficção do mais alto nível há neste Flashes, nos flashes sanguíneos do co­ração e do pulso das cenas. O romance é publicado pela editora Iluminuras.
 
A história envolvente de duas famílias, uma branca e outra negra, da década de 1950 aos dias de hoje. Os viajantes, um romance sobre amor e memória, preconceito e identidade, trauma e destino.
 
James Samuel Vincent, um rico advogado, tenta se afastar de sua origem humilde de descendente de imigrantes irlandeses em Nova York. Seu filho, Rufus, se casa com Claudia Christie, uma mulher de família negra cujo pai tem uma vida atravessada pela guerra do Vietnã e pelas tensões raciais que tomam conta dos Estados Unidos nos anos 1960. Histórias se alternam, se cruzam. E assim somos levados por Regina Porter neste seu extraordinário romance de estreia. Através da perspectiva de diversos homens e mulheres, numa trama que avança e volta no tempo, o que vemos desenrolar é um panorama rico e variado da vida na América entre os anos 1950 e a eleição de Barack Obama. Porter justapõe uma série de breves episódios, vozes e fotografias ― num recurso que ecoa o mestre W. G. Sebald ―, criando um efeito único. A tradução de Juliana Cunha é publicada pela Companhia das Letras.
 
Novo título de Scholastique Mukasonga chega aos leitores brasileiros.
 
Como salvar uma filha de uma morte certa? Talvez, como crê o pai de Scholastique Mukasonga, confiando-a à escola, a fim de que ela obtenha um “belo diploma”. Assim, ela não será mais nem tutsi nem hutu. Ela atingirá o status inviolável de “evoluída”. É justamente para obter um diploma, que a menina será obrigada a tomar o caminho do exílio. Ela passará de país em país, do Burindi à Djibouti, até chegar à França. Ao longo da travessia, às vezes, as chances prometidas por este papel parecem uma certeza. Noutras, desaparecem como uma miragem. Mas ao fim, como lhe havia dito seu pai, este “belo diploma” será um talismã, para sempre uma fonte de energia, que permitirá a ela superar a desesperança, a desilusão e a desventura. Em Um belo diploma, Scholastique Mukasonga volta à sua veia autobiográfica, com seu estilo fluido, pleno de humor e de fantasia, que resulta em apaixonantes relatos de suas memórias ― dolorosas sim, mas também belas e inspiradoras. O livro é publicado pela Editora Nós.
 
Cidadã: uma lírica americana, de Claudia Rankine ganha edição no Brasil.
 
Este é um livro investiga as relações raciais nos Estados Unidos de agora. Sua lírica americana, publicada originalmente em 2014, reflete sobre a dificuldade de existir em constante contraste com o fundo demasiadamente branco da supremacia racial. Gradações variadas de violência contra pessoas negras são exploradas; não sem, entretanto, indagar sobre a própria imaginação branca que as produz. Poesia, ensaio e arte visual são habilmente costurados por Rankine em seu livro mais premiado. Claudia Rankine nasceu em Kingston, Jamaica. É poeta, ensaísta e dramaturga, além de ser professora de literatura na Universidade de Yale e chanceler da Academy of American Poets. Após seu lançamento nos Estados Unidos, Cidadã levou mais de 10 prêmios de crítica e foi eleito o melhor livro do ano por uma série de periódicos. Rankine ganhou o Jackson Poetry Prize em 2014 e recebeu, em 2016, um MacArthur Fellowship. A tradução é de Stephanie Borges e é publicada pelas Edições Jabuticaba.
 
Antologia reúne onze livros que William Blake publicou de 1789 a 1795.

Talvez o poeta mais original da literatura inglesa, William Blake foi uma espécie de símbolo das manifestações socioculturais dos anos 1960 e 1970. Ao lado da psicologia de Carl Jung e Sigmund Freud, da filosofia e da religião orientais, das experiências da geração beat e do flower-power, via-se em sua poesia a expressão de uma nova era de Aquário, a rejeição de uma ordem mundial fundada no materialismo em detrimento da espiritualidade. Passado meio século, aquelas manifestações são história, ou adquiriram outras formas, mas a ordem mundial permanece, de ponta-cabeça, mais materialista e mais bruta. E a poesia de Blake continua instigante expressão dos valores humanos, ainda mais relevante. Visões assinala essa relevância: reúne onze livros que Blake publicou de 1789 a 1795, com os quais procura evidenciar a coerência do essencial da obra e afastar a distorcida percepção de insanidade do autor. Os poemas testemunham a formação e o amadurecimento de sua visão de mundo, num fértil período de quase sete anos, quando na casa dos trinta: aqui o leitor encontra dos poemas líricos das Canções de inocência e Experiência até o que se convencionou chamar de “profecias menores”. O Livro de Thel é o primeiro livro profético menor iluminado, seguido de Canções de inocência, ambos de 1789. Entre 1790 e 1793, Blake escreveu, gravou e imprimiu O matrimônio do Céu e do Inferno e Canções de experiência (posteriormente, combinou as duas Canções num único volume, com o subtítulo “Mostrando os dois estados contrários da alma”). Visões das filhas de Álbion, de 1793, é em geral considerado um “estado contrário” de Thel, em que a inocência convive com o desejo sexual. No mesmo ano, Blake publicou América, uma profecia, tido como seu poema político mais importante. A partir de 1794, Blake embarcou na sequência dos poemas-profecias menores, que o prepararam para os maiores (Milton e Jerusalém, escritos e gravados quase ao mesmo tempo entre 1804 e 1820). O primeiro deles é Europa, uma profecia, uma narrativa política, seguido de O livro de Urizen. A canção de Los, O livro de Ahania e O livro de Los, todos de 1795, compõem a Bíblia do Inferno prometida em O matrimônio do Céu e do Inferno. Na Bíblia... estão os personagens mitológicos Urizen e Los, cruciais para a mensagem de Blake: Los representa o Poeta e a Imaginação humana; Urizen, a encarnação da razão, o criador de leis tirânicas; ambos em constante conflito. Na terminologia blakeana, alcança-se a plenitude espiritual através da imaginação. Pouco lido e ignorado por seus contemporâneos, Blake foi “descoberto” vinte anos após sua morte, em 1827, quando impressões tipográficas dos poemas começaram a aparecer. Mas jamais foi popular, sempre foi controverso, mesmo entre outros poetas. A tradução de José Antonio Arantes é publicada pela Editora Iluminuras.
 
Dois novos títulos acrescentam a coleção de ensaios do escritor Prêmio Nobel de Literatura Peter Handke.
 
1. Em Ensaio sobre o dia exitoso, de 1991, Handke lida com o problema da vida cotidiana de uma forma existencial e filosófica. O Ensaio não é um manual de instruções para uma vida melhor, mas uma forma de autoquestionamento e reflexão sobre a própria prática de vida e a ideia do que seria um dia “de êxito”. Nesta obra também é possível encontrar aquilo pelo qual recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 2019: “Trabalho influente que, com criatividade linguística, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana.”
 
2. Publicado em 1989, Ensaio sobre o cansaço é primeiro da série de experimentos autoficcionais de Handke. As obras exploram uma nova forma literária, unindo narrativa pessoal, ficção e contemplação ensaística. Neste Ensaio, Handke explora a serenidade do cansaço. Esse estado com o qual todos nós temos nos relacionado, e normalmente visto como algo negativo, se tornará um diálogo narrativo do autor consigo mesmo, uma experiência de vida universalizante a partir de formas e imagens que dele emanam e que o transformam numa premissa fundamental de uma vida poética: “O que o cansaço inspira diz menos sobre o que é para se fazer do que aquilo que pode ser deixado para trás.” Os dois livros têm tradução de Simone Homem de Mello e são publicados pela Estação Liberdade.
 
Nova edição do primeiro livro de Frantz Fanon.

Este é um dos textos mais influentes dos movimentos de luta antirracista desde sua publicação, em 1952, Pele negra, máscaras brancas. Logo de início, se apresenta como uma interpretação psicanalítica da questão negra, tendo como motivação explícita desalienar pessoas negras do complexo de inferioridade que a sociedade branca lhes incute desde a infância. Assim, descortina os mecanismos pelos quais a sociedade colonialista instaura, para além da disparidade econômica e social, a interiorização de uma inferioridade associada à cor da pele – o que o autor chama de “epidermização da inferioridade”. Não se compreende a questão negra fora da relação negro-branco. Com erudição, Fanon articula conceitos da filosofia, psicanálise, psiquiatria e antropologia, e autores como Hegel, Sartre, Lacan, Freud e Aimé Cesaire (referência literária, intelectual e política que perpassa toda a obra), numa notável linguagem poética, que nos conduz a uma reflexão sobre sua relação com o tema. Um dos principais efeitos da leitura da obra ― diz o professor e pesquisador Deivison Faustino no posfácio a esta edição ― é fazer leitores e leitoras se descobrirem, seja em sua vulnerabilidade e desamparo, seja angustiados sob a consciência de seus pecados, ou ainda como demônios que impõem sofrimento e dominação a outros, mesmo que a princípio se vejam como anjos. Em um momento de ampliação da luta antirracista e conscientização e incorporação de brancas e brancos a essa luta, este livro continua sendo transformador, em busca de uma sociedade realmente livre e igualitária. A edição da Ubu conta com prefácio de Grada Kilomba e posfácio do especialista em Fanon Deivison Faustino, textos escritos especialmente para a ocasião. O livro traz ainda textos do intelectual e ativista Francis Jeanson, do filósofo e professor de Harvard Homi K. Bhabha e do historiador Paul Gilroy. A tradução de Sebastião Nascimento, com colaboração de Raquel Camargo é publicada pela Ubu.
 
PRÊMIO LITERÁRIO
 
O Prêmio Camões 2020 distingue Vítor Aguiar e Silva.
 
É possível que grande parte dos estudantes nos cursos de Letras no Brasil tenha consultado ou lido textos fundamentais da teoria da literatura e da crítica à obra de Camões escritos por Vítor Aguiar e Silva, agora distinguido com o Prêmio Camões 2020. A justificativa do júri destaca que este reconhecimento assinala “a importância transversal da sua obra ensaística e seu papel ativo relativamente às questões da política da língua portuguesa e ao cânone das literaturas de língua portuguesa”. Aguiar e Silva nasceu a 15 de setembro de 1939 em Real; concluiu o curso de Letras / Filologia Românica na Universidade de Coimbra, onde continuou seus estudos e foi professor. Sua obra é vasta e se concentra no âmbito dos estudos literários, como Teoria da Literatura e A estrutura do romance. Camonista reconhecido, é autor, dentre outros, de Camões: labirintos e fascínios e da organização do Dicionário de Luís Camões.
 
OS LIVROS POR VIR
 
A obra de Louise Glück começa a ser publicada no Brasil em 2021.
 
Sairá pela Companhia das Letras. A notícia foi divulgada no início da tarde da quinta-feira, 29 out. '20, pelo jornal O Globo. A poeta estadunidense ganhou o Prêmio Nobel de Literatura 2020. Ainda inédita por aqui, a obra de Louise Glück inclui títulos em poesia (gênero no qual se destaca) e em prosa. Do primeiro gênero, os mais recentes são a antologia Poems, que reúne sua obra de 1962 a 2012 e Faithful and Virtuous Night (2014); e na prosa, Proofs and Theories (1994) se tornou referência obrigatória em todos os cursos de escrita em seu país. A editora planeja quatro volumes para reunir nove livros da poeta americana. O primeiro deles, com previsão de publicação para o primeiro semestre, reúne três de suas obras mais recentes: Faithful and virtuous night (2014), A village life (2009) e Averno (2007).
 
REEDIÇÕES
 
Outra edição para uma das sátiras políticas mais sagazes de todos os tempos chega ao Brasil em nova edição, com tradução de Paulo Henriques Britto.
 
Cansados dos maus-tratos e abusos dos humanos, os animais da Fazenda do Solar decidem tomar o poder das mãos do sr. Jones. Com um idealismo inflamado e repleto de frases de ordem, eles tentam criar um paraíso de progresso, justiça e igualdade, mas são impedidos por uma coisa: a ambição do poder. Esse é o palco para uma das fábulas satíricas mais importantes da modernidade, um conto de fadas para adultos que registra a transformação de uma revolução popular em totalitarismo. Contudo, a narrativa é complexa o suficiente para evocar a rivalidade entre Stálin e Trótski, bem como o conflito entre “o socialismo num só país” e a revolução mundial. Publicado pela primeira vez em 1945 depois de ser rejeitado por diversas editoras, A fazenda dos animais é uma crítica ferrenha à ditadura stalinista e mostra como um movimento pode ir se degenerando gradualmente, caindo em contradição, formando hierarquias e, por fim, estabelecendo uma ditadura. Edição da Penguin /Companhia.
 
A distopia que deu origem a diversos conceitos atuais chega à Penguin-Companhia com texto introdutório de Thomas Pynchon.
 
Winston Smith vive na Faixa Aérea Um (anteriormente conhecida como Grã-Bretanha), uma província do superestado da Oceânia. O mundo se encontra em guerra, e todos estão aprisionados na engrenagem de uma sociedade dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada um vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder absoluto. Em Oceânia, ter uma mente livre é considerado crime gravíssimo. Winston, então, se rebela contra o regime e, em seu anseio por verdade e liberdade, arrisca a vida ao se envolver amorosamente com uma colega de trabalho, Julia, e com uma organização revolucionária secreta. Publicado originalmente em 1949, este é um dos romances mais influentes do século XX, uma das mais importantes distopias da literatura e um inquestionável clássico moderno. Lançada poucos meses antes da morte do autor, 1984 é uma obra magistral que ainda se impõe como uma poderosa reflexão ficcional sobre a essência nefasta de qualquer forma de poder. A tradução é de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn.
 
Nova edição de Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca.
 
A morte de Delfina Delamare causou comoção na alta sociedade do Rio de Janeiro. O caso foi notícia em jornais e revistas, que especularam sobre as circunstâncias do acontecimento. A traição ao marido poderia ser um dos motivos, e Guedes, policial encarregado da investigação, terá pela frente um dos casos mais difíceis de sua carreira. A reedição é da Nova Fronteira.
 
Há muito fora de catálogo, Endurance volta às livrarias com mais de 140 fotografias inéditas.
 
Em 1914 o fotógrafo Frank Hurley embarcou no Endurance com a missão de registrar a primeira travessia a pé da Antártica. A expedição não alcançou o objetivo. Hurley, entretanto, produziu um registro sem paralelo na história da fotografia. Dias terríveis, dias deslumbrantes. O gelo e o mar do Pólo Sul lentamente o tragaram. Depois de perambular meses e meses, toda a tripulação regressou sã e salva à terra firme. As imagens de Frank Hurley, fotógrafo da expedição, revivem essa história extraordinária de resistência e companheirismo. A tradução é de Sergio Flaksman.
 
A editora Nova Fronteira organiza uma caixa com dois dos principais romances de Marguerite Yourcenar já reeditados recentemente na coleção Clássicos de Ouro.
 
A obra em negro é descrita como um dos textos mais elaborados e instigantes de Marguerite Yourcenar. O livro ilustra a vida de Zênon, que, renegando sua formação religiosa, abre mão de um futuro estável como membro da Igreja para se dedicar à descoberta das profundezas do ser humano em todas as esferas, tornando-se médico, alquimista e filósofo. A obra conta com a tradução excepcional do poeta Ivan Junqueira. E Memórias de Adriano é a obra-prima da escritora francesa. Publicado pela primeira vez em 1951, após um intenso processo de pesquisa, escrita e reescrita que durou cerca de trinta anos, o livro obteve enorme sucesso e converteu-se imediatamente em um clássico da literatura moderna. Nesta espécie de autobiografia imaginária, a “grande dama da literatura francesa” recria a notável vida do imperador Adriano, com seus triunfos e reveses, e dá forma a um romance histórico, mas também poético e filosófico, que se tornaria uma das mais fascinantes obras de ficção do século XX. Além da tradução de Martha Calderaro e da apresentação de Victor Burton, esta edição especial conta ainda com o prefácio inédito da historiadora Mary Del Priore.
 
Nova edição de um dos romances mais conhecidos de Rachel de Queiroz.
 
Dôra, Doralina narra a história de Maria das Dores, viúva recente de um casamento de conveniência, que sai da sombra da mãe e de uma vida de submissão para viver em Fortaleza. Na capital do Ceará, Dôra torna-se atriz e passa a viajar pelo Brasil como integrante da trupe de uma Cia de teatro mambembe. Em determinada viagem conhece o Comandante, homem que desperta seu amor mais profundo e com quem se muda para Rio de Janeiro, abandonando o teatro. Após sua experiência com o amor que poucos têm coragem de viver, Dôra retorna para sua cidade natal, fechando o ciclo de vivências que a transformaram em outra mulher. Dôra, Doralina, obra que marca a retomada de Rachel de Queiroz ao gênero romance, pode ser lido como expressão da emancipação feminina, na qual Dôra sai da condição de mulher submissa para conquistar a liberdade de ser o que desejar e levar a vida que quiser. Personagem fascinante, ela é um dos perfis femininos mais intensos da literatura brasileira. Após a publicação dessa obra, Rachel de Queiroz foi convidada a assumir a cadeira número 5 da Academia Brasileira de Letras, tornando-se assim a primeira mulher a fazer parte da instituição. Em 1993, recebeu o prêmio Camões. O livro é reeditado pela José Olympio.
 
DICAS DE LEITURA
 
Por ocasião do Dia Nacional da Poesia, esta seção copia a recomendação de três livros da nossa literatura entre os publicados recentemente para ampliarmos nosso repertório de leitura neste gênero. A leitura de um poema é sempre desafiadora, mas devemos sempre lidar com o texto como uma sedução, quando não, como uma boa brincadeira, um campo minado, constituído de boas descobertas se, claro, nos colocarmos disponíveis para tanto.
 
1. Poesia completa, de Cacaso. Este é um livro que atravessou algumas dificuldades até chegar aos leitores; foi anunciada pré-venda há dois anos e disponibilizado agora. É parte de um amplo projeto iniciado pela Companhia das Letras que tratou de repaginar a obra de toda uma geração que começou reconhecida como marginal ou mimeógrafo. Ou seja, está ao lado da obra de Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Wally Salomão... Nesta edição é possível encontrar variantes da criatividade de Cacaso seja no poema, seja na integração desta forma literária a outras expressões, combinando sempre um trabalho com acurada sensibilidade e olhar crítico, simplicidade e fina ironia.
 
2. Bichos contra a vontade, de Frederico Klumb. Os livros anteriores do poeta estiveram sempre integrados ao tratamento inventivo e interessados em fundir e apresentar novas linguagens (verbal e visual) ou formas de expressão. Neste, colocado entre os finalistas do Prêmio Jabuti 2020, tais experiências se ampliam, alcançando agora os efeitos de estranhamento pelo estreitamento entre forças nem sempre dialogantes, como o urbano e o selvagem. Publicado pela editora 7Letras.
 
3. O método da exaustão, de Manoel Ricardo de Lima. Na apresentação da Editora Garupa, se destaca uma passagem do crítico literário português João Barrento que explica haver na poética deste livro um misto de sabotagem e saque com uma imaginação extremamente densa e inventiva, “fora dos trilhos mais habituais da poesia, recusando a fala de um eu para escutar as vozes do mundo, num registro progressivamente menos metafórico e mais cru e direto, e acrescentando a todos esses ecos os que lhe chegam de uma tradição (poética, científica, filosófica, artística em geral, dos Gregos à atualidade)”.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. A presença de Carlos de Drummond em nossa galeria de vídeos no Facebook é constante. Para esta ocasião, selecionamos cinco vídeos com leituras de poemas: a) neste, é o próprio poeta quem lê um de seus poemas mais famosos, “José”; b) neste outro, é a amiga de longa data Lygia Fagundes Telles quem recita “Procura da poesia”; c) o maravilhoso Chico Buarque lê “Os inocentes do Leblon”, aqui; d) a poeta Olga Savary lê neste vídeo “Era manhã de setembro”; e) findamos com Caetano Veloso, quem lê “Elegia 1938”, aqui.  

BAÚ DE LETRAS
 
1. No blog, essa presença de Carlos Drummond de Andrade também não é mínima. Recordamos nesta ocasião, cinco dos textos mais recentes que dedicamos à sua obra e que podem ser vias de acesso para outras publicações realizadas por aqui: a) neste, Pedro Fernandes escreve sobre o trabalho de disfarce assumido pelo poeta; b) aqui, a tradução de um texto que mira no projeto humanizador do poeta mineiro; c) as relações de Drummond com Machado de Assis, motivo da antologia Amor nenhum dispensa uma gota de ácido, estão comentadas neste texto; d) notas sobre os últimos registros pessoais do poeta; e) entre artes plásticas e literatura, a relação da pintura de Candido Portinari com a poesia do poeta mineiro, aqui.

.........................
Siga o Letras no FacebookTwitterTumblrInstagramFlipboard

 
 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os mistérios de “Impressão, nascer do sol”, de Claude Monet

Boletim Letras 360º #403

Um herói de nosso tempo, Mikhail Lermontov ou o mito romântico

O caminho de Mônica também é nosso. Uma leitura do livro Mônica vai jantar, de Davi Boaventura

Para o meu coração num domingo, de Wislawa Szymborska

O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez