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Sobre Ponciá Vicêncio de Conceição Evaristo

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Por Rafa Ireno Conceição Evaristo. Foto: Mario Ladeira A questão de Conceição Evaristo não se liga somente à tarefa de contar uma história desconhecida, sua escrita corresponde ao esforço de encontrar uma expressão capaz de implodir um projeto político de nação que, sistematicamente, apaga, silencia, oculta, modifica, violenta, a História do Povo Negro no Brasil. A literatura seria uma das principais armas para tal objetivo. A ânsia de mudança e de demolição da ordem vigente é acompanhada, na via inversa, por um desejo de reconstrução, de harmonia, da tentativa de costurar o tecido da memória destruído pela opressão e violência do passado brasileiro. Coisa que concede certo caráter utópico para esta escritora afro-brasileira no sentido de criar esperanças para o futuro.  Daí, o romance Ponciá Vicêncio se preencher de elementos bem demarcados como, por exemplo, campo e cidade 1 , branco e negro 2 , meretrício e delegacia etc. Ao mesmo tempo em que é o signo da contradição que rege as l

Malcolm Lowry

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Por Hernán Lara Zavala Malcolm Lowry, Mazzaro, Itália, 1954.   1 Malcolm Lowry, que gostava de contemplar o universo como um arcano, um criptograma repleto de “correspondências mágicas” ou “coincidências misteriosas e fatais”, viu sua vida marcada por duas mulheres, três homens e um país. As mulheres foram suas companheiras Jan Gabrial e Margerie Bonner; os homens, o escritor estadunidense Conrad Aiken, que serviu como seu tutor, guardião, mestre, preceptor, pai putativo, cúmplice, duplo e rival; Nordhal Grieg, um romancista norueguês com quem se identificou por meio de suas experiências marítimas; e Albert Erskine, o editor estadunidense de Debaixo do vulcão e um amigo leal que acreditava em seu talento como ninguém. O país foi, claro, o México e, mais especificamente, Cuernavaca ou Quauhnáhuac como ele gostava de chamá-la, cenário de seu grande romance.   Uma das duas grandes biografias de Lowry se baseia, principalmente, embora não exclusivamente, nos testemunhos de Margerie Bonner

Breve nota sobre o simbolismo russo

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  Por Joaquim Serra Kuzma Petrov-Vodkin. Fantasia . 1925. Se pensarmos de forma prática no cânone literário russo do século XIX, veremos que a prosa social grassou como método de representação. A segunda metade do século nos legou grandes obras: O idiota , Os demônios , Irmãos Karamázov , do realismo dostoiévskiano; Anna Kariênina , Ressurreição , Guerra e paz , do realismo épico de Tolstói. Pais e filhos e sua preocupação com as gerações e as rápidas transformações da Rússia. Oblómov e a vida da aristocracia inerte. Depois, Anton Tchekhov sintetizaria boa parte dos temas anteriores em seus contos rápidos, em suas peças profundamente entranhadas nas questões das famílias no fim de século, um “realismo do colapso”, como definiu o crítico Raymond Williams.  O que viria depois, no novo século e na era das guerras e revoluções, mudaria para sempre o método de representação. Não faria mais sentido buscar o narrador homérico como o fez Tolstói, tampouco a vida de alguém faz sentido quando

Boletim Letras 360º #422

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DO EDITOR   1. Saudações, caro leitor! Estas foram as notícias apresentadas durante a semana na página do blog Letras in.verso e re.verso no Facebook e o conteúdo das demais seções de leitura criadas em momento posterior à existência deste Boletim. Reitero os agradecimentos pela companhia do nosso trabalho. Espero que você esteja, dentro do possível são e seguro. Boas leituras! Clarice Lispector. As celebrações pelo centenário ainda. Editora começa edição de luxo com obra da escritora.   LANÇAMENTOS   James Wood, o romancista. Upstate é um romance perspicaz e intensamente comovente .   Alan Querry, um investidor imobiliário bem-sucedido do norte da Inglaterra, tem duas filhas: Vanessa, uma filósofa que vive e leciona em Saratoga Springs, NY, e Helen, executiva de uma gravadora com sede em Londres. As irmãs nunca se recuperaram do divórcio amargo dos pais e da morte precoce da mãe — particularmente com Vanessa, que desde a adolescência era atormentada por crises de depressão. Quando

Baudelaire e o poema em prosa, a invenção do instante

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Por Agustín Fernández Mallo Charles Baudelaire. Foto: Félix Nadar.   O poema em prosa, artefato que escapa a qualquer categorização mas é imediatamente reconhecido assim que é lido, tem uma vida curta, pouco mais de cento e cinquenta anos em comparação com os mais de dois mil que o poema métrico possui. Não que Baudelaire tenha sido propriamente o inventor da forma, mas foi ele quem o dotou do valor com que ainda hoje nos é servido. A primeira manifestação moderna da invenção apareceria em 1869, com um título que diz tudo, Petits poèmes en prose ; enunciativo e direto, descritivo e explicativo, não há metáfora que auxilie esta frase e, se houver, é de natureza científica.   Baudelaire diz “pequenos poemas em prosa” da mesma forma que, por exemplo, o matemático Henri Poincaré, também francês, já tramava outro tipo de modernidade, que se concretizaria em sua famosa publicação Os novos métodos da mecânica celeste . Embora um apele à subjetividade total e o outro à objetividade científica,

Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares

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Por Pedro Fernandes Gonçalo M. Tavares. Foto: Voz da Póvoa   Jerusalém é um romance que lida com uma dessas antíteses irrecusáveis da existência: não existe humanidade sem horror. E a sentença é desenvolvida por reiteradas vias: do título aos movimentos biológicos e interiores das personagens, passando pelas ações e certo exercício meta-temático se considerarmos o largo esforço intelectual desenvolvido por Theodor Busbeck, uma das figuras principais da narrativa. O resultado é uma obra com diversas possibilidades de leitura, sobretudo, do que é acolhido nas vias do subtexto.   Embora este trabalho se filie àquela seção das narrativas estabelecidas proximamente no tratamento convencional de narrar — e sabemos que a literatura de Gonçalo M. Tavares se interessa em sua maior parte por um tratamento desconstrutivista das formas pelo que aos olhos tradicionais se designa maneira atípica de manipulação da linguagem — nota-se um estratagema muito peculiar no que chamaríamos organismo da obra